
Negro pardo: o que tece o entremeio da história que reescrevo?
Como eu me vejo, me percebo e me reconheço quando o que está em jogo é a minha negritude? E o outro? Como me vê, me reconhece e me percebe quando se trata da minha negritude?
Foto: “Passar em branco” – Tiago Sant’Ana – video – 8’6’’- 2018 (via Pipa Prize).
Quando eu tinha uns 12 anos, meu pai me deixou na porta da escola. Entrei e um grupo de meninos, brancos, me cercou e gritou: “o avô dele é preto, o avô dele é preto”. Meu pai tinha 48 anos quando nasci; portanto, cerca de 60 na época; daí, talvez, terem-no chamado de meu avô. Erraram. Mas acertaram ao dizer que ele era preto. Assim como minha avó e meu avô paternos e minha bisavó (até onde consegui descobrir, filha de negro com indígena) e meu bisavô, e os/as tátaras e os que vieram antes dos/das tátaras, e antes de antes de antes no Tempo. No dia seguinte, pedi: “pai, não precisa dar toda essa volta. Pode me deixar aqui mesmo. Eu ando essas duas quadras sozinho”. Ele me beijou e me olhou com seus olhos de lago, profundos: “tudo bem, meu filho”. Senti vergonha do meu pai. Senti vergonha de mim.
A essa altura, eu já frequentava o terreiro onde fiquei por trinta anos, dos sete aos 37. Lá fui criança, adolescente, me tornei adulto – também criado por outro pai preto. Ambos “Antonio”, como eu. E também ouvi os mesmos meninos – talvez outros? Ou os mesmos e mais alguns outros que no fim formavam um grupo de brancos iguais que me atormentavam quando descobriram minha religião, gritando: “ele é macumbeiro, ele é macumbeiro!”. “Lógico, o avô dele é preto!” – lançou o mote um deles. “Preto e macumbeiro, preto e macumbeiro!” – fez a glosa outro. Entre mote e glosa, fui perseguido por um bom tempo por esses meninos. Senti vergonha de ser macumbeiro. Senti vergonha de mim. Senti vergonha dos meus pais pretos. E nunca contei a nenhum deles o que tinha acontecido. E nunca mais poderei contar. Nem pedir desculpas. Nada. Já foi.
Na música “Pardo”, do disco “Meu Coco”, Caetano Veloso canta: “Sou pardo e não tardo/A sentir-me crescer o pretume/Sou pardo e me ardo/De amores por ti sem ciúme de amores”. Em algumas entrevistas, Caetano declarou: “Até escrevi um livro sobre minha experiência no Tropicalismo e coloquei assim: Gil é um mulato suficientemente escuro para ser chamado de negro até na Bahia; eu sou um mulato suficientemente claro para ser chamado de branco até em São Paulo”. Provavelmente, quando Caetano se referiu a ele e a Gil como mulatos, não se falava ainda sobre o quão pejorativo e preconceituoso é utilizar tal termo. Mas, ainda assim, fez sentido para mim citar Caetano.
Como eu me vejo, me percebo e me reconheço quando o que está em jogo é a minha negritude? E o outro? Como me vê, me reconhece e me percebe quando se trata da minha negritude? E qual é o tamanho da importância que eu devo dar ao outro? E a mim mesmo, o quanto mede e pesa o meu autorreconhecimento? Para quem? Por quê? Faço essas perguntas, pois sempre é delicado para mim, como um homem filho de pai preto e mãe branca, com tom de pele que me situa socialmente como mencionado por Caetano, encontrar o meu “lugar de fala” – para usar um termo bastante em voga atualmente, creio que necessário, mas que, a meu ver, carrega muitas ambivalências.
Delicado, pois tenho receio de ser desrespeitoso e até mesmo afrontoso com pessoas negras de pele retinta (andei lendo, e há controversas sobre usar o termo retinto; corrijam-me, por favor, aqueles que tiverem mais conhecimento que eu) – e, diante delas, fico, sim, com um sentimento estranho, nem sei nomear direito, de me afirmar como um homem negro. Ao mesmo tempo, sinto que o meu não posicionamento enfraquece uma luta que é de todos os afrodescendentes, de todos aqueles cujos ancestrais africanos exigem que se reafirme a negritude como memória, história, resgate, ressignificação e continuidade.
Quais costuras me tornam sujeito de minha negritude?
Levei o assunto para a terapia. Manifestei meu incômodo em escrever esse texto – para quê? Para quem? Com qual intenção? Em dado momento da sessão, lembrei-me de minha avó materna, Carolina, a Loló, que morreu quinze dias antes de meu nascimento. Minha avó branca. O que sei dela vem das narrativas, dos causos, das memórias de minha mãe, das tias, das primas, de minhas irmãs e de meu irmão (todos brancos; somos irmãos por parte de mãe). Era benzedeira, rezadeira, daquelas que sabem os encantos e os mistérios das palavras entoadas enquanto os galhos das ervas passeiam pelo corpo das pessoas que procuram e esperam uma possível cura. Um alento, ao menos. Recordei um relato de minha mãe que sempre me emocionou: Loló, cosendo um pequeno pedaço de tecido vermelho com um osso de frango dentro diante do crente à espera do socorro, perguntava: “O que eu coso?” – ao que os filhos, em coro, respondiam: “osso quebrado, músculo entrevado, nervo torto”. E jogava a magia na brasa. Lembrei-me dessa história e pensei: me assumir como homem negro, então, faria com que colocasse em um lugar “menor” minha ancestralidade branca? Onde, minha mãe, minha vó Loló, minhas bisas e tantas outras que vieram antes de antes de antes no Tempo?
Daí, meu analista soltou a pergunta certeira: “o que você quer coser com esse texto, Antonio”? Pausa. Silêncio. Uma profusão de imagens invadindo a mente: minha avó preta coando o café; minha avó branca, em espírito, vindo me benzer, eu ainda criança; minha iniciação no orixá, as mãos do meu pai de santo preto sobre meu ori, Xangô me levando a acessar as memórias ancestrais; minha avó preta acariciando o meu rosto, dizendo: “tá lindo você, meu neto”; minha avó branca, em sonho, longos braços, me dizendo: “vem, quero te abraçar”; obis lançados ao pé de Exu; a viagem com meu pai, minha mãe, minha madrinha e meu padrinho ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida – seu Arruda, meu pai preto, católico, missa aos domingos, raras vezes foi ao terreiro (tampouco eu ia às missas; ele respeitava); eu como babalorixá, louvando os que vieram antes de mim, entoando versos em iorubá, rezando folhas, cantando e dançando ao som dos tambores que também amo tocar desde criança; meu pai preto sambista – bumbo, pandeiro, tamborim; minha mãe branca – ama ir ao terreiro, também devota de Nossa Senhora, mas com um amor profundíssimo aos Orixás.
“O que você quer coser com esse texto, Antonio?” Quais costuras me tornam sujeito de minha negritude? Ao torná-las a trama/o tecido central do modo como me reconheço – espiritualmente, politicamente, culturalmente, seja: como um homem negro -, como me situo no espaço-tempo desse complexo debate sobre colorismo? Quais linhas tecem a minha história, a minha memória, a minha estrada? De qual lado, quando estou no meio? Em qual meio, quando me sinto e me vejo e me entendo mais negro do que branco?
Quando conheci o perfil no Instagram da Daniela Torres @negraparda, comecei a segui-la imediatamente. Em um post publicado em 3 de setembro de 2025, ela diz: “Ei, pardo, a quem serve a disputa pela sua identidade”? Li e reli algumas vezes um trecho da postagem, em que Daniela diz:
“O racismo foi perverso ao ponto de criar divisões dentro da nossa própria comunidade: preto, pardo, claro, retinto… tudo para nos afastar da consciência de que somos todos alvos da mesma estrutura. Ser parda não é estar ‘no meio do caminho’. É ser negra atravessada por privilégios e dores diferentes, mas ainda assim marcada pelo racismo. A categoria parda foi inventada pela branquitude para nos confundir — mas o letramento nos mostra que assumir-se negra é resistir contra esse projeto.
Não é sobre medir quem sofre mais, mas sobre reconhecer que nossa luta é coletiva. A branquitude agradece quando brigamos entre nós. Eu escolho a coragem de dizer: sou negra parda. E cada vez que afirmamos isso, abrimos espaço para mais consciência, mais união e mais força contra o racismo estrutural.”
“Em nome do filho/” é o primeiro texto do meu livro “O corte que desafia a lâmina” (editora Cachalote). Nele, parto de um dos momentos mais traumáticos da minha vida, quando, ao visitar meu pai sem voz por causa da laringectomia que lhe extirpou o câncer, os órgãos e a fala, ele me entregou um pequeno pedaço de papel onde estava escrito: “está tudo bem, meu filho”. No conto, há um trecho em que escrevo: “O silêncio do pai é poeticamente terrível./O silêncio do pai dá voz à palavra do filho/lâmina-texto, palavra extirpada do coração/palavra-corte – atravessamento da Memória”. Também trabalhei muitas vezes na terapia o “está tudo bem, meu filho” – de muitas formas, com muitas camadas, todas muito profundas. Hoje, escrevendo esse texto, penso: Não, pai, não está tudo bem eu deixar de me assumir como um homem negro pardo. E se o seu silenciamento talvez tenha ocorrido muitas e muitas vezes no mundo preconceituoso e racista em que você viveu, eu transformo minha voz em brado, e dela faço meu espaço de reconhecimento.
Bebo, também, das palavras de Daniela Torres e digo: sim, sou um negro pardo! Ainda que confuso, mexido, inquieto, incerto, afirmo: negro pardo. O que eu coso com isso? O banté de Xangô, o adê de Oxum, o patuá do preto velho e o embornal do boiadeiro; coso o riscado da pemba, a água da quartinha, o adurá para Ori; coso a memória de meus pais – sim, pretos! -, a fala que ecoa e se soma à necessária resistência; coso o sonho de menos violência, de mais amor, o sonho de ser quem sou – ainda que aos olhos dos outros eu possa estar no meio do caminho, quem constrói minha estrada sou eu; e do lado onde escolho ficar, entoo os cantos de outrora, e é de lá que ouço os gritos do agora reverberando na história que reescrevo.

