Crítica

Revisitando grandes obras da literatura: ‘Recapitulações’, de Maria Valéria Rezende

Recapitulações (Editora 34, 2026) mostra a força inventiva de Maria Valéria Rezende e constitui uma verdadeira ode à literatura.

Foto: Adriano Franco Marco (Reprodução).


I

Italo Calvino, em Por que ler os clássicos (Companhia das Letras, 2007), elabora propostas para responder à indagação que dá nome ao livro. Nesse ensaio, o autor apresenta 14 itens que servem de guia para compreender o clássico e o retorno que o leitor e as instituições que definem uma obra como clássica fazem a ela. Numa dessas propostas, Calvino pontua que a obra clássica sempre necessita de uma nova leitura e essa releitura traz consigo novas interpretações. Ao final, conclui: “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. 

Ao final desse ensaio, Calvino também pontua a importância do leitor diante do literário, pois o clássico perpassa também uma escolha individual. Ou seja, os livros que considero clássicos são diferentes das escolhas feitas por outras pessoas. Por isso, há discordâncias quando saem listas dos melhores livros do ano, da década, do século ou de todos os tempos. O clássico, portanto, sempre suscita polêmicas e escolhas; contudo, o que permanece nessa discussão é essa afetação do leitor diante de um livro que, após a leitura, ele passa a considerar um clássico. 

A discussão do escritor italiano se atrela ao exercício que a escritora Maria Valéria Rezende propõe em seu livro de contos mais recente. Nascida em São Paulo, a escritora já foi missionária e educadora popular. Em sua produção literária, destacam-se os romances Quarenta dias (Alfaguara, 2014), vencedor do Prêmio Jabuti, em 2015, nas categorias Romance e Livro do Ano; Outros cantos (Alfaguara, 2016), vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2017; e Carta à rainha louca (Alfaguara, 2019), vencedor do Prêmio Oceanos em 2020.  

Em Recapitulações (Editora 34, 2026), a começar pelo próprio título, que remete ao ato de retornar e recapitular grandes obras da literatura mundial, a autora chama o leitor para o seu conteúdo e o convida a buscar essas obras. Os contos são elaborados a partir dos enredos e dos personagens que compõem esses outros livros pelos quais passeamos ao longo de 12 narrativas. A escritora, assim, atesta a atualidade dessas obras e a possibilidade de criar novas versões, recriar e ampliar universos por meio do seu labor literário e de sua leitura desses textos. São recapitulados, portanto, autores como Kafka, Guy de Maupassant, Machado de Assis, José Lins do Rego, Saramago, Drummond, Cassiano Ricardo e até a Bíblia. 

Estes são atos que constituem a literatura: o diálogo entre obras, as fronteiras cada vez mais tênues entre oralidade e escrita e a leitura como espaço de diálogo e afeto proporcionado por Maria Valéria Rezende.

II

O livro começa com um conto intitulado “Será isso?” – uma pergunta norteadora da experimentação que Rezende propõe ao longo da obra. Nesse primeiro conto há um diálogo com o primeiro capítulo de A metamorfose, de Franz Kafka. Somos levados ao momento em que Gregor Samsa acorda transformado em inseto. Rezende retoma esse capítulo e esse corpo estranho, animalesco e obtuso, além do jogo entre lucidez e loucura, para relatar o descompasso de um corpo/inseto monstruoso ao se deparar com e tomar consciência do que é. A pergunta do título é um questionamento sobre a sanidade de Gregor, sobre a incredulidade diante dessa realidade que o toma; ao mesmo tempo, ecoa o próprio empreendimento da autora ao retomar Kafka e escrever a partir dele, recapitulando-o. 

Lutava para recuperar a lucidez, quando sentiu vibrarem-lhe os lados da cabeça, como se ali houvessem brotado apêndices muito sensíveis, e algo inusitado penetrou-lhe a consciência… sim, algo vibrava e se instalava em seu pensamento: Gregor, Gregor! (p. 9)

Entretanto, nem só da prosa Rezende faz uma revisitação para criar seus contos. Dois textos do livro são provenientes de poemas. O primeiro retoma “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, e recebe o título de “Requadrilha” (em que o prefixo re- marca o retorno ao poema original). A partir da ciranda afetiva que não dá muito certo nos versos de Drummond, Rezende aplica o humor, algo recorrente em seus livros, e recria um João que não amava Teresa, mas J. Pinto Fernandes. O outro conto, “Aprendizado”, baseia-se no poema “Serenata Sintética”, de Cassiano Ricardo. A autora, inclusive, utiliza os versos da epígrafe para finalizar o conto, que aborda a noite e o desejo carnal das aventuras noturnas. 

– Eu? Louco por Teresa? Nunca liguei para Teresa. 
– Mas como não? Todos víamos que você amava Teresa! Pois não foi pelo desgosto de ser rejeitado por ela que você fugiu para os States? 
– De jeito nenhum! Meu aparente interesse por Teresa era puro disfarce. Fui-me embora no dia do casamento de Lili com J. Pinto Fernandes. 
– Então era Lili que você amava? 
– Não, minha querida, eu amava J. Pinto Fernandes.
(p. 17)

Para além disso, o ponto alto do livro está nos contos que remetem a Machado de Assis. O primeiro deles é “Um humilde bibliotecário”, cujo protagonista trabalha numa grande biblioteca, com muitos andares e cômodos – na qual vejo ligação com Borges –, e passa o tempo todo tentando descobrir a falha no nicho onde guarda os livros de Machado de Assis. Em seguida, Rezende utiliza a emblemática personagem Capitu, no conto que dá nome ao livro. Na França, ela escreve uma carta à viúva de Escobar e acaba sugerindo o amor de Bentinho pelo amigo, indicando como sempre houve tentativas de marcar uma presença de Escobar na trama, por meio das atitudes do protagonista de Dom Casmurro. Por fim, a própria figura de Machado de Assis ganha foco em “O tipógrafo”, conto que remete a O alienista e às brechas entre realidade e irrealidade. 

Quando Escobar, por sua excessiva vaidade e autoestima, fez-nos o favor de morrer sem pré-aviso nem delongas, e que tu, já tendo perdido teu pai, foste logo de volta para a casa dos parentes no Paraná, a situação entre Bentinho e eu, com nosso pequeno Ezequiel de permeio, alterou-se dramaticamente. Meu marido sofria intensamente uma espécie de viuvez, e tornava-se cada dia mais fechado, choroso, casmurro, desconfiado. (p. 34)

Nos outros contos, há referências a O homem duplicado, de José Saramago; ao filme Blow-up, do cineasta italiano Antonioni; à história de Sansão e de sua morte, ocasionada não por Dalila, mas pelo arquiteto do templo que desaba; e à obra de Guy de Maupassant, entre outros, que se enredam nesse livro por meio de uma intensa rede de diálogos literários. A escrita e a leitura estão ali, pari passu, entrelaçadas nos contos. Somam-se a elas a oralidade e o ato de recontar uma história, apropriando-se dela para criar uma nova narrativa. Percebe-se, portanto, que estes são atos que constituem a literatura: o diálogo entre obras, as fronteiras cada vez mais tênues entre oralidade e escrita e a leitura como espaço de diálogo e afeto proporcionado por Maria Valéria Rezende. 

Recapitulações mostra a força inventiva de Maria Valéria Rezende e constitui uma verdadeira ode à literatura. Após alguns livros publicados, a escrita da autora paulistana ainda se mostra muito atenta ao âmbito literário e aos afetos que a cercam como leitora e escritora, sendo bonito perceber esse diálogo florescer de forma tão intensa. O ato de recapitular, revisitar e reler é determinante para compreender como obras da literatura mundial permanecem atuais e continuam oferecendo espaço para novas interpretações e diálogos. É dessa força da literatura que Rezende faz nascer seus contos.

Recapitulações, de Maria Valéria Rezende/ Editora 34, 2026/ 88pp.