
Avenidas interseccionais em ‘Meridiana’, de Eliana Alves Cruz
Com personagens interessantes e próximos da realidade social retratada, Meridiana, romance de Eliana Alves Cruz vencedor do Prêmio Guimarães Rosa de Ficção da Academia Brasileira de Letras, produz identificação no leitor e se aproxima daquilo que Conceição Evaristo conceitua como escrevivência em sua mais radiante forma.
Foto: Rafa Dotti (Reprodução).
I
Carla Akotirene, no livro O que é interseccionalidade? (Sueli Carneiro; Pólen, 2019) descreve a junção entre raça, gênero e classe como marcadores importantes para entender os efeitos do racismo. Para a intelectual brasileira, dialogando com as teorias das estadunidenses Kimberlé Crenshaw e Patricia Hill Collins, quando se aciona, na leitura, o olhar sobre as avenidas da interseccionalidade, produz-se um resultado que mexe nas estruturas e amplia a compreensão das causas e dos efeitos do racismo. Ou seja, os impactos do racismo são diversos e afetam, de maneiras múltiplas, sujeitos negros e negras em suas variadas estratificações econômicas e sociais.
Pensando nesses caminhos que contribuem para uma melhor compreensão da questão racial, esse operador teórico e metodológico tem sido acionado nas mais diversas áreas, inclusive nas artes. Na literatura, temos um ótimo exemplo de como o racismo, atrelado ao gênero e à classe, se apresenta e estrutura todo um edifício narrativo; estou falando do mais recente romance de Eliana Alves Cruz, Meridiana (Companhia das Letras, 2025).
A autora é roteirista e jornalista, venceu o Prêmio Jabuti na categoria Conto, em 2022, com o livro A vestida (Editora Malê, 2021), e publicou anteriormente romances como Solitária (Companhia das Letras, 2022), Nada digo de ti, que em ti não veja (Pallas, 2020), O crime do cais do Valongo (Editora Malê, 2018) e Água de barrela (Fundação Cultural Palmares, 2016). Além disso, como roteirista, foi indicada ao International Emmy Award em 2024. Seu mais recente romance, foco deste texto, acaba de receber o Prêmio Guimarães Rosa, concedido pela Academia Brasileira de Letras às melhores obras de ficção publicadas no último ano.
Meridiana é um romance composto por prólogo, epílogo e seis capítulos. A narrativa apresenta a trajetória da família de Meridiana, personagem que dá título ao livro. No início, o leitor observa a saída da família da periferia da cidade, de uma localidade denominada Matadouro, para morar no centro, acompanhando sua ascensão após a melhora da condição econômica, fruto do empreendimento do pai, Ernesto. Homem concursado, ele trabalha para que os filhos tenham acesso a tudo aquilo que não teve na sua infância – escola particular, curso de inglês, esportes e afins. Ao mesmo tempo, há a figura de Aurora, sua esposa, responsável por cuidar dos filhos. Para ajudar na renda familiar diante do custo de vida alto após a mudança, ela passa a trabalhar como vendedora. Afinal, a família cresce financeiramente, mas ainda vive na corda bamba para se manter nesse novo ambiente. Aurora representa a dupla jornada feminina; mesmo trabalhando fora, não se afasta das responsabilidades da casa, ainda que tenha a ajuda de uma empregada de carteira assinada.
Esse passado e a forma como a família constrói suas raízes nesse local desembocam no presente, quando encontramos esses dois pilares familiares já na terceira idade e vivendo um casamento desgastado. Ernesto decide voltar para a comunidade onde cresceu, passando a viver na casa de sua infância, enquanto Aurora adoece. Os filhos, no meio dessas decisões, são impactados pelas escolhas dos pais.
Os gêmeos César e Augusto são água e óleo. Enquanto César não é aceito pela família por ser gay e se muda para o exterior, Augusto sempre quis ser rico, mesmo que, para isso, precisasse se envolver com a irmã de seu melhor amigo rico, buscando a boa vida que o dinheiro pode oferecer. Já Meridiana é a personagem que observa a todos. Com sua ironia e questionamento persistente, ela insere fissuras na família que Ernesto e Aurora fingem não enxergar, em prol da ascensão social dos filhos.
Professora de História, Meridiana é fundamental para que o leitor compreenda que, embora a ascensão econômica da população negra seja possível, o fato de serem negros e negras continua fazendo com que vivenciem cenas de racismo diariamente. Essa realidade reaparece, inclusive, na filha de Augusto, ao final do romance, mostrando como, mesmo depois de anos de debates sobre a questão racial, ela ainda sofre violências físicas e simbólicas produzidas pelo racismo.
Em ‘Meridiana’, romance premiado de Eliana Alves Cruz, as situações de racismo, acompanhadas de outras formas de violência presentes nas veredas da interseccionalidade, afetam todas as personagens.
II
Ao abordar um tema tão caro quanto a experiência de ser negro no Brasil, Eliana Alves Cruz faz uso de elementos muito pertinentes em seu romance. O primeiro deles é a interseccionalidade, que marca as personagens e as situações de maneira tão costurada ao cotidiano atravessado pela questão racial que transborda as páginas e pega o leitor desprevenido. Ao retratar uma família que ascende economicamente, o âmbito social do romance muda. Logo, ao lidar com sujeitos brancos e suas múltiplas reproduções de discursos racistas, percebemos, em cada capítulo narrado por uma voz distinta, que esse novo lugar é marcado pelo estranhamento. São sujeitos que fazem de tudo para se inserir nesses espaços, mas encontram algo que barra sua permanência e integração: o fato de serem negros.
A vida toda, minha figura provocou um punhado de “nãos”. E eu contribuía para isso com meu jeito de dizer duramente o que eu pensava, com meu pouco interesse em ir ao clube que meus pais pagavam com um dinheiro que eles não tinham para a gente frequentar, com a minha mania de ter amigos “errados”, de vestir só o que eu queria e de fazer questão de ser, até nas coisas mais ínfimas, exatamente do jeito que eu era e não do jeito que as pessoas achavam que eu deveria ser. (p. 16)
As personagens transitam por demandas muito próprias. Ernesto é colocado à prova o tempo todo pelos condôminos do prédio em que mora, embora todos saibam que ele é concursado num banco. Aurora enfrenta conflitos com a empregada, que não quer ter patrões negros, além das questões trazidas pela chegada da terceira idade, período em que os filhos se abstêm dos cuidados necessários, deixando para a filha caçula todas as demandas. César lida com as questões ligadas à sexualidade, sendo um homem gay em um relacionamento interracial (um outro caminho de análise para compreender as dinâmicas raciais) e sofre violências dentro da própria casa, demonstrando que ser negro não impede que sujeitos reproduzam atos de opressão contra outras pessoas. Já Augusto, mesmo casado com uma mulher rica, não deixa de ser alvo da violência racial. Ao ser confundido com um ladrão, é agredido e quase morre asfixiado, numa cena que remete a tantos outros homens negros vítimas da branquitude violenta e mortuária.
Não sei de onde vieram e quem eram aquelas pessoas, mas, nos minutos em que estive imobilizado, a pequena turba apenas observou a agressão que sofri. Ninguém reagiu, ninguém interveio. Me senti um boneco de papel. O olho esmurrado inchou imediatamente. O saldo foi uma costela fraturada e um olho que precisaria de cuidados. (p. 140)
Um segundo elemento relevante é a quantidade de cenas que colocam o leitor no lugar de observador dessas violências. O racismo impregna a vida das personagens e permanece ali, como um fantasma que as acompanha da hora em que acordam até a hora em que dormem. Como aponta Livia Natália, no poema “À bala”, ao refletir sobre as mortes de sujeitos negros ocasionadas pelo Estado (reflexão que também pode ser lida como ramificações dos tentáculos do racismo no Brasil): “À bala nunca dorme, cochila”. Ou seja, precisamos estar sempre atentos.
As situações de racismo, acompanhadas de outras formas de violência presentes nas veredas da interseccionalidade, afetam todas as personagens. Contudo, o aprofundamento dessas discussões ocorre principalmente por meio de Meridiana. Se alguns personagens vivenciam essas experiências sem lhes dar a devida atenção, seja por serem de outro tempo, seja pela falta de letramento racial, Meridiana dá nome aos bois. Aqui vale ressaltar que, mesmo não havendo uma menção explícita sobre as políticas de cotas criadas no inicio dos anos 2000, é perceptível que o conhecimento da personagem sobre a temática racial é oriundo das movimentações do Movimento Negro e da abertura das universidades federais para esses sujeitos.
As vivências da personagem Meridiana a leva a pesquisar sobre ser negro no Brasil, tópico que poderia ser muito mais explorado no romance, abordando políticas e a importância do Movimento Negro.
Há um caminho geracional na forma de compreender a questão racial no Brasil. Se, outrora, predominava o silenciamento e uma performatividade corporal pautada no espelho da branquitude, a personagem mais jovem da família é aquela que traz rachaduras nesse modelo e apresenta um outro modo de compreender a experiência de ser negro, sendo uma personagem que remete ao novo movimento de produção teórica e debates sobre ser negro no Brasil, que ganham força no final do século XX e são importantes para o crescimento da conscientização e do letramento racial.
Em Meridiana estão presentes as dores de ter estudado numa escola majoritariamente branca, de ser uma mulher lésbica e de viver em um lugar onde há o desconforto constante de precisar se adequar esteticamente para ser “aceita”. O alisamento dos cabelos, por exemplo, é uma demanda que surge em alguns capítulos.
Mamãe trazia cicatrizes de uma guerra travada desde muito cedo para conseguir ser alguém diferente do que ela era, e não porque o modelo perseguido fosse superior, mas por ser diverso da imagem que a repelia: a de si própria. A tortura do domingo da chapinha quente era sequela da sua vulnerabilidade, mas passaram-se anos até eu me dar conta disso – àquela altura, eu também já tinha as minhas próprias cicatrizes dessa guerra. A avó Apolônia cravara ferros em brasa na carne da filha, que passou o hábito adiante com a mesma devoção da missa no final da semana. (p. 13)
Essa vivência leva Meridiana a pesquisar sobre ser negro no Brasil, tópico que poderia ser muito mais explorado no romance, abordando políticas e a importância do Movimento Negro. Seu olhar apurado para as relações familiares permite compreender que o relacionamento estava fadado ao fim. Sua decisão de assumir os cabelos crespos e parar de alisá-los também marca uma transformação importante. Da mesma forma, ela questiona Augusto por estar se vendendo para uma família branca, em busca de um embranquecimento que não vem, e apoia César no momento em que ele sai de casa após brigar com o pai por causa da orientação sexual. Assim, Meridiana complementa e amplia o trabalho comunitário de sua madrinha, Zuleica, educadora que permanece na comunidade ensinando crianças negras e promovendo o empoderamento e práticas de letramento racial.
Esse passeio entre a Meridiana criança e a Meridiana do presente também é importante para compreender sua relação com a sobrinha. Mesmo após os avanços do debate racial, a menina sofre racismo na mesma escola de freiras em que Meridiana estudou. O romance mostra, então, o retorno dessas violências. Porém, essa repetição não tem o mesmo fim. Diferentemente do passado, marcado pela ausência de apoio e silenciamento, Meridiana reivindica mudanças, quer saber quem machucou a menina e entende que escutar a sobrinha e estar ao seu lado ajuda no processo de cura.
Quando são menores é coisa de criança. Quando são jovens, estão repetindo o que aprendem em casa. Quando são adultos, ou estão reproduzindo a estrutura, ou têm questões psiquiátricas. E quando são velhos, estão senis. É esse o ciclo das desculpas irresponsáveis pelo crime. Dane-se! (p. 150)
Com personagens interessantes e próximos da realidade social retratada, Meridiana produz identificação no leitor e se aproxima daquilo que Conceição Evaristo conceitua como escrevivência em sua mais radiante forma.
Assim, Meridiana – cujo nome remete ao meridiano que corta a Terra na vertical e que, simbolicamente, faz um corte no modo de encarar e enfrentar o racismo –, da escritora Eliana Alves Cruz, é um romance muito importante para pensar as relações entre raça e classe em suas mais variadas facetas. Com personagens interessantes e próximos da realidade social retratada, o romance produz identificação no leitor e se aproxima daquilo que Conceição Evaristo conceitua como escrevivência em sua mais radiante forma.
Em alguns momentos, a narrativa pode soar repetitiva ou até mesmo professoral, com excesso de imagens e atos de racismo, mas esse aspecto se faz necessário para apresentar situações que são inerentes ao dia a dia da comunidade negra no Brasil, mesmo achando a quantidade excessiva e por vezes deixando o romance muito previsível. Contudo, tal escolha não diminui a fruição estética da obra nem a construção dos enredos e da estrutura narrativa, formada de múltiplas vozes. Ao contrário, atesta e reforça a competência literária de Eliana Alves Cruz, que opta por caminhos mais diretos e, por vezes, doloridos, para um público leitor que está nos começos de uma discussão racial ou para os brancos leitores da autora, o que talvez seja meu incômodo: por não estar inserido nesses grupos e achar a discussão pertinente e necessária, mas muito recorrente e com abordagem similar em outras obras. Diante dessas questões, Meridiana é um romance que merece reconhecimento entre todos os leitores.


