Coluna Escrevernar

Prefiro eu mesma lutar com as palavras

Claro que somos todos livres para fazermos com a nossa arte o que quisermos, mas penso ser temerário quando uma Nobel de literatura declara que escreve um prompt para seu texto ser embelezado por uma inteligência artificial.

Arte: Frame do vídeo Liquidity Inc de Hito Steyerl.


É com o advento da palavra escrita que o literário começa a se desenhar como registro e a permear a vida do ser humano materialmente. Ao longo do tempo, muitos foram aqueles que se empenharam em conceitos que explicassem o sentido da manifestação literária que, a depender da época, foi se modificando, ganhando novos aspectos. Hoje, reconhecer um texto literário não é das tarefas mais difíceis porque já introjetamos um aspecto importante: enquanto em nosso cotidiano a palavra é apenas ferramenta facilitadora e objetiva da comunicação, no literário, doa-se ao texto, tornando-se ambígua, a fim de alcançar autenticidade, sem a intenção de instruir ou ser didática, afinal, a literatura não é instrumento e, conforme declarou o teórico Maurice Blanchot, na obra O espaço literário (Rocco, 2011), “e quem quer fazê-la exprimir algo mais, nada encontra, descobre que ela nada exprime.” 

Isso porque, no mundo literário, a palavra se desnuda inteira para o texto, polissêmica, hesitante entre significações possíveis, ambígua, enfim, e, por isso mesmo, poética. Nesse sentido, a literatura pode ser compreendida como a capacidade da palavra de se desdobrar em probabilidades e nunca em uma certeza, já que, ao contrário da realidade, em que todos temos um fim, o texto literário resiste à passagem do tempo, podendo, na verdade, sempre se renovar: a cada leitura, a cada época, a cada leitor. Em outras palavras, a depender de como se escreve determinado texto, é possível identificar se trata-se de mera comunicação ou de um texto literário. 

Portanto, quem se arrisca a escrever literatura sabe que é a singularização da palavra que a torna poética/literária, tendo em vista que há uma preocupação com a estética, com a construção semântica que retirará o caráter automático da palavra, uma vez que não queremos apenas comunicar, queremos ampliar os possíveis sentidos do que desejamos dizer. Ou seja, é na estranheza que nasce a linguagem literária. No momento em que deixamos de nos levar pelo automatismo da língua que falamos, surge a possibilidade de se pensar na poética da palavra e, conforme escreveu Roland Barthes no ensaio Aula (Cultrix, 2019), “trapacear a língua” é o que nos torna os verdadeiros artistas da palavra, a quem comumente denominamos escritoras e escritores. 

Ora, quando mergulho em um projeto literário, travo uma luta com as palavras. E como já bem dizia Drummond, “lutar com palavras é a luta mais vã”. Há dias em que saio vencida, miserável, derrotada pelo texto. Há outros, porém, em que saio com o peito estufado, vaidosa, aplaudo a minha perspicácia por finalmente ter encontrado a palavra exata, justa, absoluta, inequívoca, aquela que cabe perfeitamente, pois nenhuma outra dá conta do que pretendo.

Dito isso, pergunto-me: qual o sentido de delegar o meu fazer literário para uma máquina? Talvez porque estejamos num momento de demonstrar apenas desempenho, delegar a escrita a uma inteligência artificial nos torne mais produtivos. No entanto, quando penso em arte, penso imediatamente em subjetividade, em reflexão, em tempo alargado, em tempo para ruminar ausências e faltas, para, enfim, pensar-me enquanto sujeito. Se delego esse pensamento a uma máquina, o que virá, provavelmente, serão palavras vazias de alma, pois falta à máquina, muitas vezes, o que em mim sobra e me leva à escrita: angústia. Por óbvio, entendo ser um caminho sem volta, diante de tantos possíveis benefícios. Mas, na arte literária, há de se ter cautela. Claro que somos todos livres para fazermos com a nossa arte o que quisermos, mas penso ser temerário quando uma Nobel de literatura declara que escreve um prompt para seu texto ser embelezado por uma inteligência artificial. É evidente que, depois de tantos livros publicados, de ter recebido o maior prêmio literário do mundo, ela não precisa provar que sabe escrever. Isso é óbvio.

“Qual o sentido de delegar o meu fazer literário para uma máquina? Talvez porque estejamos num momento de demonstrar apenas desempenho, delegar a escrita a uma inteligência artificial nos torne mais produtivos.” – Myriam Scotti

Porém, penso na responsabilidade de suas recentes declarações perante futuras gerações. Penso sobretudo no meu filho adolescente que já me responde o quanto não precisa sofrer pensando, escrevendo ou mesmo lendo os paradidáticos do colégio, se ele pode perguntar da inteligência artificial qualquer coisa que ele queira. E lá sentamos em volta da mesa para que seu pai e eu expliquemos que ele ainda não tem repertório, não passou pelas mudanças complexas que uma leitura provocadora acomete em nossos corpos, pensamentos e inconsciente e, que, por isso, delegar à inteligência artificial o labor da leitura e da escrita é desperdiçar experienciar a vida mais ricamente, em sua multiplicidade, para simplesmente se contentar com dias poucos, rasos, advindos da ignorância. Mas quantas famílias podem ou querem ter essa conversa, esse trabalho? Estamos avançando ou retroagindo como sociedade? 

Não estou aqui para responder, estou aqui para cutucar, para inflamar a discussão. O livro do querido amigo e escritor Sérgio Rodrigues, Escrever é humano (Companhia das Letras, 2025), é um farol, quando ele afirma, por exemplo, que “fazer literatura, arte com palavras, significa escrever devagar, à moda humana — uma palavra, um espaço, outra palavra, outro espaço, uma dúvida a cada encruzilhada. Um produto que atende a uma fatia fina do mercado consumidor de textos, mas irreproduzível de outra forma. Escrever artisticamente é sondar palavra por palavra, com olhar maravilhado de sequer haver palavra, aquilo que não se sabe. Trabalho potencialmente delicioso, mas pesado e não terceirizável, que obriga quem o faz a dirigir o foco de suas investigações em várias gerações ao mesmo tempo: para dentro de si, para o mundo e para o que a linguagem abre (e aquilo que dela escapa).”

Outro autor que me apaziguou foi o britânico Ian McEwan em recente entrevista para a Folha de São Paulo (25 de maio de 2026), afirmando que costuma acalmar seu pânico em relação aos avanços da inteligência artificial pensando que ela ainda não habita um corpo e, portanto, desconhece os prazeres do amor ou as dores soberanamente humanas. 

A inteligência artificial generativa existe porque foi e continua sendo alimentada por nós e por tantos que escreveram antes. Não é capaz, pelo menos por enquanto, de ser engenhosamente original e escrever, por exemplo, um romance como Os imortais (Fósforo, 2026), da escritora e jornalista Paulliny Tort, ou a obra acachapante da poeta mineira Ana Martins Marques. É preciso viver para sentir e sentir para então assentar as emoções a fim de (conscientemente) escolher as palavras que irão se encadear perfeitamente até se transformarem em literatura.

Por outro lado, agora ocupando o lugar de leitora, gosto da sensação de me identificar com o texto e pensar: será que isso aconteceu mesmo com a escritora? De onde será que veio a ideia dessa história? Como terá sido seu processo de escrita? Quanto tempo demorou até encontrar a voz narrativa? 

Ou seja, ler um livro escrito por uma máquina derruba toda a curiosidade e o encantamento que a leitura me provoca. É tão sem graça quanto passar a língua numa pedra de mármore. Jamais poderei ler uma entrevista sobre o pensar literário de uma inteligência artificial generativa, seus planos para outros livros, sobre como foi sua infância, se repleta de livros ou de conflitos familiares. Não há corpo nem alma, portanto, não teme a morte, não ama enlouquecidamente, não chora, não se arrepende, não mente, não trai, não se relaciona, não goza, não se cansa, não se machuca, não se apavora, não sente frio ou fome, não se desespera diante de um problema, diante da morte de um ente querido, diante do espelho quando não mais se reconhece. 

Por isso e também por necessitar elaborar meus dias por meio da palavra escrita (por mim mesma), continuarei escrevendo tal como Sherazade contou histórias para evitar sua morte, escreverei para tentar não deixar morrer a verdadeira arte literária: debruçando-me sobre um bom dicionário e me debatendo diante da tela à procura da palavra, A palavra.