
Um romance contra as gaiolas de concreto e da memória
Em seu romance de estreia, “Gaiolas de concreto armado”, vencedor do Prêmio Caminhos da Palavra, Paula Novais atravessa a cidade, o luto e a memória política do Brasil para compor uma narrativa múltipla e profundamente humana.
Foto: Reprodução.
O romance de estreia de Paula Novais, Gaiolas de concreto armado (Dublinense, 2026), chama atenção desde o título. A imagem das “gaiolas” remete imediatamente aos prédios, aos espaços urbanos aprisionadores distribuídos nas grandes capitais e ao universo aterrorizante da especulação imobiliária. No entanto, à medida que avançamos na leitura, percebemos que essa metáfora inicial se expande: o romance não se deixa reduzir a uma única interpretação, tampouco a um único tema.
Novais vai oferecendo pistas sobre o que está em jogo na narrativa, mas o livro se revela tão multifacetado que seria insuficiente afirmar que se trata apenas de um romance sobre as tragédias contemporâneas da Covid-19, ou sobre os ecos da ditadura, ou ainda sobre o assassinato de pessoas que tentam transformar o mundo. A obra perpassa por todas essas questões, mas não se limita a nenhuma delas. Trata-se de um romance de camadas, no qual a violência histórica, a perda íntima, a precariedade urbana e o luto coletivo se entrelaçam, num amálgama contemporâneo tão genuíno quanto triste.
Nesse sentido, Gaiolas de concreto armado me remeteu ao ensaio A teoria da bolsa de ficção, de Ursula K. Le Guin (Cobogó, 2025). Assim como propõe Le Guin, aqui não há um único herói, um centro absoluto da narrativa ou uma trajetória heroica tradicional. Há, antes, muitas vidas, muitas histórias, muitas dores e desejos que se acumulam como dentro de uma bolsa narrativa. O romance de Paula Novais parece operar como um grande rizoma: não há hierarquização rígida entre as histórias, pois todas importam. Por isso, nos apaixonamos por mais de um personagem; os bons e até mesmo os nem tão bons assim, se é que podemos reduzi-los a um único adjetivo, pois são complexos, contraditórios e, por isso mesmo, cativantes.
Entre as questões sobre as quais o romance se debruça estão as perdas familiares vividas por milhões de brasileiros entre 2020 e 2022, durante a pandemia de Covid-19, citando inclusive a morte prematura do ator Paulo Gustavo, assim como a lembrança do assassinato brutal de Marielle Franco. Ao tocar nesses acontecimentos, Novais não transforma a literatura em panfleto, mas em espaço de elaboração simbólica. A autora sabe aproximar o trauma coletivo da experiência íntima, fazendo com que a história recente do Brasil trespasse corpos, casas, famílias, relações.
‘Gaiolas de concreto armado’, de Paula Novais, parece operar como um grande rizoma: não há hierarquização rígida entre as histórias, pois todas importam.
Paula Novais estreia no mundo literário com uma voz própria, e essa força me lembrou também O riso da Medusa, de Hélène Cixous (Bazar do Tempo, 2022). Nesse ensaio, Cixous afirma que é preciso que a mulher se escreva, que escreva sobre a mulher e que faça as mulheres retornarem à escrita da qual foram violentamente afastadas; por fim, arremata sobre a necessidade da mulher se colocar no texto, no mundo e na história por seu próprio movimento. De modo que, muito me alegra ver surgir uma escritora que parece compreender essa urgência: Novais escreve sem pedir licença, recusando os caminhos previsíveis e encontrando sua própria sintaxe.
Essa verdade literária também pode ser pensada a partir de Elena Ferrante, quando ela afirma no ensaio Frantumaglia (Intrínseca, 2017) que a verdade literária é aquela desencadeada exclusivamente pela palavra bem usada. E é justamente isso que Paula Novais realiza de modo honesto e vigoroso em sua obra: uma escrita que não se apoia apenas nos temas fortes que aborda, mas na eficiência da linguagem com que os encena.
Ao longo das páginas, o leitor também é surpreendido por momentos de humor muito bem dosados, que aliviam, sem apagar, as tensões e tristezas da narrativa. Esse humor funciona como respiro, mas também como estratégia literária: ele impede que o romance se torne maçante e revela a inteligência da autora ao lidar com assuntos dolorosos sem cair no excesso de solenidade. Sua escrita rejeita a docilidade esperada, bem como a personagem feminina ordinária. Ao contrário, aposta na ambiguidade, no desconforto e na contradição, como neste trecho:
Me afastei, procurando onde sentar, mas só havia um pufe molenga, estampado de zebra, no canto da varanda. Fui tragada pela bolha de espuma até meu traseiro tocar o chão. “O que posso fazer por você, minha querida?”, o síndico se agachou com as mãos nos meus joelhos. O perfume era de matar, o tipo que empesteia o elevador. Levantei de arranque, me desvencilhando dele e do pufe, a musculatura fadigada. Mas ele veio atrás e insistiu que eu tirasse a máscara, que ficasse à vontade. “Não está me incomodando”, eu disse e a ajustei no rosto com firmeza, “prefiro ir direto ao ponto.” Expliquei que precisava de um empréstimo pra quitar o condomínio: “Prometo que não vou enrolar, estou pra receber um extra.” A cara do homem ficou murcha. Mais murcha ainda, quero dizer. (p. 12).
Gaiolas de concreto armado se afirma como um romance de estreia vigoroso, entremeado por questões urgentes do Brasil contemporâneo, mas sustentado sobretudo por uma escrita literária consciente de sua própria força.
Ao ler o romance de Paula Novais, encontrei personagens que não se deixam decifrar por completo. São figuras que parecem guardar sempre uma zona de sombra, impossível de o leitor decifrar totalmente. Mas penso que é justamente essa opacidade que as torna tão cativantes: elas não existem para confirmar uma moral ou cumprir uma função previsível dentro da narrativa, mas para tensionar o que pensamos sobre elas.
Mas gostaria de me ater um pouco mais na narradora-protagonista. Nerissa foge completamente do estereótipo da heroína simples, apenas boa ou facilmente decifrável. Ela é controversa, opaca, ou seja, humana. Convida o leitor a experimentar emoções diversas — empatia, incômodo, curiosidade, estranhamento — enquanto avançamos pelas páginas. Essa complexidade faz com que o romance ganhe força, pois não nos oferece figuras prontas, mas pessoas em conflito com suas histórias, seus desejos e seus limites. Na página dezenove, por exemplo, Nerissa ganhou minha simpatia quando, honestamente, confessou: Aos poucos, fui me lembrando de como fazia com as clientes da joalheria: esses brincos ficaram um escândalo, combinam com o tom dos olhos da senhora. Cafona, eu sei. O pior é que levei pouco tempo pra aprender a me fazer de tonta. Quando me ouviam dizer que ainda estavam no auge da beleza, as ricaças não hesitavam em abrir a carteira. Não fui a primeira a lucrar assim, nem vou ser a última.
Há algo de muito interessante nessa passagem porque Nerissa não tenta se absolver, tampouco se apresentar como vítima pura das circunstâncias. Ela reconhece o jogo social em que está inserida e admite ter aprendido rapidamente a desempenhar um papel dentro dele. Sua esperteza, nesse caso, não aparece como traço moral condenável, mas como estratégia de sobrevivência diante de um mundo desigual. Ao mesmo tempo, a frase carrega humor e um tanto de autocrítica: Nerissa sabe que há algo de cafona, teatral e até moralmente ambíguo naquela performance, mas não finge estar acima dele. É justamente essa sinceridade desconcertante que a aproxima do leitor.
É dessa maneira, portanto, que Gaiolas de concreto armado se afirma como um romance de estreia vigoroso, entremeado por questões urgentes do Brasil contemporâneo, mas sustentado sobretudo por uma escrita literária consciente de sua própria força. Paula Novais constrói uma obra em que a cidade, a memória, o luto, a violência política e a intimidade se enredam. Mais do que contar uma história, o romance cria um espaço onde muitas histórias podem coexistir: sem heróis absolutos, mas com pessoas inteiras, falhas, vivas e inesquecíveis. Por isso mesmo, sei que, qualquer dia desses, irei tomar um chopp com Nerissa e Alzira num quiosque de Copacabana. Se vou!


