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Entrevistas

“A fotografia e a escrita tornaram-se, para mim, uma ferramenta de aproximação”: Entrevista com Marcio Pimenta sobre o livro ‘Encontrando Darwin – Uma expedição pelos confins do mundo’

Em entrevista à revista O Odisseu, Marcio Pimenta fala da ascensão da narrativa de viagem no mercado editorial e seu mais recente livro.

O fotógrafo e escritor Marcio Pimenta, por Diorginis Pandini (Divulgação)
Diorgenes Pandini / Assessoria

Nos últimos anos, existe um interesse dos leitores e do mercado editorial por narrativas que abordam as aventuras e andanças de pesquisadores, fotojornalistas e profissionais em suas mais variadas experiências pelo mundo. Esse nicho ganha novos contornos com o livro do Marcio Pimenta, Encontrando Darwin – Uma expedição pelos confins do mundo (Solisluna, 2026). O autor, que nasceu em Salvador e hoje mora em Florianópolis, é National Geographic Explorer, título concedido pela revista e que oferece bolsas e financiamento para explorações. Além de ser membro do The Explorers Club, sociedade fundada no início do século XX, voltada para pesquisas de campo e exploração científica. Formado em Economia, Marcio possui pesquisas nas áreas de Relações Internacionais e Estudos Americanos. Contudo, abandonou a vida acadêmica em 2013 e começou a produzir projetos voltados à exploração e à documentação de zonas ambientais remotas e áreas em conflitos de guerra. Hoje em dia, ele possui trabalhos publicados em veículos nacionais e internacionais.

O livro Encontrando Darwin tem como ponto de partida a viagem que Charles Darwin, pai do evolucionismo científico, fez para a Patagônia, localizada entre Argentina e Chile, quando tinha apenas 20 anos. Marcio Pimenta refaz os caminhos do cientista inglês em uma expedição financiada pela National Geographic Society. Estas explorações dão origem ao livro Encontrando Darwin – Uma expedição pelos confins do mundo (Solisluna, 2023). Para Pimenta, o ponto de refazer esses passos consiste em compreender como o tempo, vivendo em um território-outro, modifica nossas formas de ver o mundo e nossas perspectivas. Há, assim, uma mistura de gêneros para descrever as experiências vividas nesse percurso de 11 mil quilômetros. 

O livro tem seu lançamento na capital baiana no dia 8 de outubro de 2026, às 18h30, na Livraria Terra Libris (Cine Glauber Rocha), com sessão de autógrafos e bate-papo com o professor do Instituto de Biologia da UFBA, Charbel El-Hani. O evento é gratuito e aberto ao público. 

Com a aproximação deste retorno à sua terra natal para lançar um livro, fiz perguntas para o autor Marcio Pimenta, tratando da sua trajetória, da ascensão desse tipo de narrativa no mercado editorial e da escrita durante o trajeto percorrido na Patagônia.

Marcio Pimenta: “Me sinto atraído pelo movimento. Pelo deslocamento.”

O escritor e fotógrafo Marcio Pimenta. Foto de Diorgenes Pandini / Assessoria

Douglas Sacramento: Para começo de conversa, conte um pouco da sua trajetória até chegar ao fotojornalismo.

Marcio Pimenta: Eu cresci em Salvador, onde me formei em Economia e fiz um mestrado. Ainda na carreira acadêmica, segui para Santiago (Chile) para um doutorado em Estudos Americanos. Morei lá por cinco anos. Dei aulas de Economia em uma universidade e fiz um estágio em Comércio Internacional na CEPAL/ONU (Comissão Econômica para a América Latina). Um dia, entrei na sala do meu orientador da tese e, por alguns minutos, observei-o atender a uma outra aluna. Fiquei pensando que, se eu continuasse a minha carreira acadêmica, um dia eu iria ocupar a sala dele, iria orientar outros alunos e iria escrever teorias e teses sobre pessoas e lugares que eu não conhecia. Peguei um avião e voltei para Salvador para um ano sabático. Comecei a fotografar e, aos poucos, fui percebendo que, em meu trabalho em comércio internacional e na pesquisa do doutorado, era muito fácil categorizar pessoas e problemas através de métodos estatísticos. As pessoas, objetos de nossos estudos, não possuíam nomes; eram apenas linhas em tabelas onde fazíamos cruzamentos com outros dados frios. Para fotografar, era necessário ir a campo, me aproximar das pessoas, conversar com elas, tomar notas, entender suas complexidades. De perto, descobri, é mais difícil sustentar preconceitos. A fotografia e a escrita tornaram-se para mim uma ferramenta de campo, uma ferramenta de aproximação.

DS: Atualmente, você é explorador na National Geographic, uma das revistas mais importantes no mundo. Além disso, você possui trabalhos publicados em outros veículos internacionais. Como se deu essa inserção no mercado internacional?

MP: Quando abandonei a carreira acadêmica, eu não tinha a menor ideia do que estava fazendo, mas tinha um compromisso claro comigo mesmo: eu não podia deixar para trás os anos dedicados aos meus estudos nas ciências sociais e internacionais. Me comprometi a cobrir histórias que considerasse relevantes para compreender a jornada humana. Isso me levou à guerra do Iraque contra o Estado Islâmico em 2016 e 2017, à cobertura das Olimpíadas do Rio (não nos esportes, mas no Complexo do Alemão), à Amazônia, ao Pantanal, ao trabalho escravo, à cultura brasileira (em especial da Bahia), etc. Então, eu enviava para editores aqui no Brasil, mas também para o exterior, porque eu também queria que a cultura brasileira fosse vista lá fora para além da violência e da política. Foi assim, por exemplo, que escrevi e fotografei a incrível história da saga dos charutos baianos – uma história internacional e pouquíssimo conhecida mesmo na Bahia. A publicação dessa história foi um sucesso em Portugal, por exemplo.

DS: A partir dessa introdução sobre sua vida, quando surgiram e quais foram as motivações para realizar a jornada de Charles Darwin na Patagônia, na qual você percorreu 11 mil quilômetros? 

MP: Me sinto atraído pelo movimento. Pelo deslocamento. Pessoas que fazem isso naturalmente já conseguem a minha atenção. Foi assim que o livro com os diários de viagem de Charles Darwin chegou às minhas mãos. Li e fiquei estupefato por diversos motivos: a juventude do jovem Darwin, a curiosidade, a capacidade ímpar de abandonar certezas para dar lugar às dúvidas, a aventura, a exploração em seu significado mais nobre. Tudo isso me atraiu muito. Procurei novos livros e artigos sobre essa viagem de Charles Darwin e percebi que todos os biógrafos e estudiosos do tema estavam mais interessados nas histórias do Charles Darwin mais sábio, mais famoso e consolidado. Eu, por outro lado, gostei do Darwin vulnerável, receoso, humano, errante, explorador, que estava aprendendo a olhar para a vida e o mundo. E fiquei ainda mais espantado ao perceber que, em sua viagem de cinco anos de volta ao mundo a bordo do Beagle, ele ficou na Patagônia por três anos. A Patagônia foi uma escola para Charles Darwin. Quando ele chegou nas Ilhas Galápagos (lugar que ficaria famoso por causa da teoria dele), ele já estava formado com o que havia aprendido em um dos lugares mais inóspitos do mundo. Formado em todos os sentidos. E isso foi muito pouco explorado ou publicado. E ninguém havia refeito essa viagem duzentos anos depois. E estava tão perto de mim, e então me perguntei: “Por que não ir?”. E a National Geographic Society concordou comigo.

Diorgenes Pandini / Assessoria

“A fotografia me abriu muitas portas, mas foi escrevendo que consegui ir mais longe”, conta Marcio Pimenta para a revista O Odisseu

DS: Como se deu o processo de escrita do livro Encontrando Darwin – Uma expedição pelos confins do mundo durante e após a jornada? 

MP: Eu adoro escrever. A fotografia me abriu muitas portas, mas foi escrevendo que consegui ir mais longe. Por isso, tenho o hábito de tomar notas durante as viagens. Naquela expedição, meu compromisso com a National Geographic era essencialmente fotográfico: produzir imagens a partir das descrições que Darwin havia deixado sobre sua passagem pela Patagônia. O livro ainda não fazia parte do plano. Mas eu seguia anotando, anotações em estilo diário, sem qualquer compromisso com ninguém. Tudo desordenado, sem qualquer estrutura ou ambição. Concluí meu trabalho fotográfico e, em junho de 2023, entreguei o relatório para a National Geographic e segui a vida. Em dezembro daquele mesmo ano, o jornal The Guardian (Inglaterra) mostrou interesse na história, em especial da relação de Charles Darwin com os povos indígenas. Recorri às minhas anotações e escrevi a história para eles. Percebi que eu tinha algo interessante em mãos, talvez para um artigo maior. Mas, mais uma vez, segui a vida, deixei de lado. Em agosto de 2024, eu perdi a minha mãe para o câncer. E, alguns meses depois, perdi o meu pai para as saudades que ele sentia da minha mãe. E então fiquei órfão. Agarrado apenas pelas lembranças, me recordei de que o meu pai me dizia: “você escreve melhor do que fotografa”. Essa memória me derrubou. Fui ao fundo do poço. Percebi que a fotografia havia aberto janelas para mim, havia me aproximado das pessoas, mas até mesmo ela possuía suas limitações. E a expedição Encontrando Darwin era maior do que as possibilidades oferecidas pela fotografia. Eu precisaria escrever, ir além. Honrar o meu pai. Foram meses escrevendo com base em minhas notas de viagem, em bibliografias, artigos, reuniões, entrevistas e consultas com especialistas e pessoas que eu havia conhecido durante a expedição. Tive ainda a assessoria indispensável do Ronaldo Ribeiro, que foi editor da National Geographic Brasil por quase 20 anos. Eu escrevia, ele revisava, apontava, corrigia. Com tudo escrito, uma nova fase de revisão, agora junto à editora Solisluna, que apostou na história. Mesmo processo: leitura, revisão, correção.

DS: Como você enxerga o consumo atual de livros com a temática da jornada, da exploração e da viagem para lugares não convencionais, como os de autoria de Tamara Klink? 

MP: O Brasil, não sei exatamente o porquê, historicamente, não desenvolveu uma tradição tão forte de literatura de viagem quanto os Estados Unidos e alguns países europeus. Temos escritores extraordinários em inúmeros gêneros, mas relativamente poucos autores associados à narrativa de viagem e exploração. Isso é uma questão cultural, não de capacidade. Rapidamente me vêm à memória dois livros brasileiros extraordinários em que território, deslocamento e descoberta são fundamentais: Os Sertões, de Euclides da Cunha, e A Marcha para o Oeste, dos irmãos Villas-Bôas. Há outros, sem dúvida.

Viajar hoje é relativamente fácil. E, com as mídias sociais, temos acesso instantâneo a imagens de praticamente qualquer lugar do planeta. Surgiu também uma indústria de influenciadores de viagem que muitas vezes transforma o mundo em cenário: chega, fotografa, faz um vídeo, recomenda cinco restaurantes, ensina “o que fazer em três dias” e parte para o próximo destino. Produz conteúdo sobre o lugar sem necessariamente conhecê-lo.

O explorador trabalha na direção oposta. Ele precisa permanecer, observar, escutar, errar e aceitar a complexidade das pessoas e das culturas locais. Precisa chegar suficientemente perto para estar disposto a abandonar os próprios preconceitos e certezas. Explorar não é colecionar destinos, é permitir que o território transforme aquilo que você pensava saber.

Essa diferença também aparece na literatura. Uma boa narrativa de viagem não serve apenas para contar onde alguém esteve ou o que fez. Ela precisa levar o leitor para dentro daquele território e, de alguma maneira, devolvê-lo diferente. Creio que existe hoje, no Brasil, um interesse crescente por histórias capazes de fazer isso. Depois de tanta viagem transformada em conteúdo, existe espaço novamente para a viagem como conhecimento.

DS: Seu livro é composto por uma mistura de gêneros diversos: há descrições, a narrativa do que aconteceu e partes ensaísticas. Foi intencional? 

MP: Ótima pergunta. Sim, foi absolutamente intencional. Encontrando Darwin é um livro de muitas facetas, porque havia muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo: a viagem de Darwin, a minha própria viagem, a história da Patagônia, a ciência, os encontros, as paisagens e as questões que surgiam no caminho. E aí encontrei também o limite da fotografia. Tantas histórias cruzadas e contadas por mim, que eu pensei que não havia outro jeito de contar essa história. A própria forma do livro acabou refletindo a experiência que tive no território. Porque toda expressão é também reflexo de quem está se expressando. Eu me formei em Economia, fiz dois mestrados, doutorado, abandonei tudo, me tornei fotógrafo, produzi e dirigi um filme documental, escrevi esse livro. Nunca me interessou muito permanecer dentro das fronteiras de uma única linguagem. Cada história exige uma forma diferente de ser contada. E algumas, como esta, exigem várias ao mesmo tempo.

DS: Por último, quais os próximos passos e aventuras? Pode contar e adiantar algo? 

MP: Pretendo voltar à Patagônia. Encontrando Darwin, terminou como livro, mas não encerrou minha relação com aquele território. Há outras histórias que encontrei pelo caminho e que ainda quero investigar. Histórias sobre a vida selvagem e a jornada humana. Também quero ir à África, o berço da nossa espécie. E adoraria fazer um trabalho profundo no Recôncavo Baiano, minhas origens.

Encontrando Darwin: Uma expedição pelos confins do mundo, de Marcio Pimenta/ Solisluna, 2026/

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