Marcelo Perícole é médico pediatra goiano e também escritor. Seu primeiro livro, “Água Negra” é um romance que, segundo o próprio autor, “nasceu de forma espontânea”. Com uma narrativa fluida, dividida entre duas vozes narrativas que se contrapõem entre si, Dante e Gaspar, o livro apresenta conflitos densos sobre a existência, a liberdade diante da necessidade de ser visto e aceito pelo outro, e a influência que as cicatrizes e traumas do passado assumem sobre a nossa vida. Assim, o leitor entra no texto um pouco perdido, mas vai se encontrando à medida em que vai montando o quebra-cabeças proposto pelo autor.
Publicado pela Patuá no ano passado, “Água Negra” é um livro que apresenta ao público leitor brasileiro um autor novo, cuja voz literária vem se formando a partir de influências e temas importantes. Na entrevista que publicamos agora no site da revista O Odisseu, Marcelo abre um pouco da sua caixa de influências, fala de como vê o seu primeiro romance como uma obra que poderia melhorar e daquilo que pretende escrever a partir de agora. Confira!

“A literatura é capaz de entreter, confortar, organizar ao mesmo tempo que subverte, provoca, desorganiza. Talvez uma de suas artimanhas mais belas seja o ato de nos colocar frente a frente ao desconhecido.”, diz Marcelo Perícole
O livro se desdobra principalmente pendulando em dois personagens: Dante e Gaspar. Gostaria que você começasse falando um pouco dos dois: como eles surgem para você?
A narrativa acaba por fazer um movimento pendular entre várias instâncias: Dante e Gaspar, presente e passado, o mundo real e dos sonhos, amor e horror, vida e morte.
Dante, no tempo presente, nasce a partir da fissura. Uma figura fragmentada, que carrega em si um sentimento de não caber nesse mundo, não apenas por não encontrar reflexo de sua imagem nele, mas pelas consequências da decisão que tomou no passado.
Gaspar surge a partir do contraponto de luz, da descoberta pelo novo, da liberdade de se permitir mergulhar no que o corpo deseja. Ele traz à narrativa a legitimidade do homem gay de desbravar as posições sociais que almeja, de se reconhecer como digno não apenas de existir, mas também de buscar a sua felicidade.
Seu livro possui muitas abordagens dentro de um só projeto. Entre elas, percebo uma aproximação do romance de cunho existencial, um romance que também está pensando a existência humana e o sentido da vida. O que você diz sobre essa minha leitura?
A construção do romance se deu de forma muito orgânica, em um campo pessoal e introspectivo. Inicialmente não havia planos de publicação. Sinto que os personagens ganharam vida e tomaram, de certa forma, as rédeas de seus destinos. Foi uma experiência interessante perceber, como autor, que eu não tinha o controle completo daquilo. Isso ficou muito evidente com o desfecho da personagem Clara que se revelou completamente para mim, assim como para o leitor, no final da narrativa.
Então sim. Há um cunho existencial onde os personagens não apenas amam, sofrem, constroem relações, enfrentam seus desafios, mas também refletem sobre como eles próprios se moldam ao mundo do qual fazem parte. Nem sempre no campo da lucidez, mas ocorre também no polo do inconsciente e dos sonhos.
Mas não tenho conhecimento acadêmico suficiente para enquadrá-lo em uma categoria. Penso, de certa forma, que a literatura não se encaixa no que esperamos dela. É sempre raso o ímpeto de reduzi-la a uma forma que agrade/desagrade apenas um grupo particular de pessoas. A literatura é capaz de entreter, confortar, organizar ao mesmo tempo que subverte, provoca, desorganiza. Talvez uma de suas artimanhas mais belas seja o ato de nos colocar frente a frente ao desconhecido. O desconhecido presente no outro, mas também aquele presente em nós mesmos. Quando refletimos sobre o que somos, encaramos essa espécie de abismo que exige de nós a coragem de tentar atravessá-lo em vida.
Ao mesmo tempo, também há uma reflexão sobre a sociedade em que vivemos e as relações interpessoais em tempos de afastamento. Fale sobre como foi para você desenvolver uma história em que as relações interpessoais ocupam um papel importante.
Acho que a narrativa evidencia um fator definidor de nossa humanidade: a capacidade de se conectar com o outro. Seja pela dor, pela violência ou pelo amor e compaixão. Como oncologista pediátrico, no tratamento de crianças com doenças graves, muitas vezes ameaçadoras à vida, percebo diariamente que as relações que estabelecemos são coluna dorsal de nossa autodenominação. Somente é possível ser humano, aqui na conotação adjetiva, quando estamos lidando com o outro. É preciso um segundo sujeito para isto.
Noto que o livro é dotado de um certo pessimismo também (ao menos no começo e principalmente no personagem Dante). Estou certo?
A história de Dante, narrada em tempo presente, tem como partida os eventos que sucedem o trauma. A partir daí acompanhamos o personagem atravessar, nem sempre de forma linear, as fases psicológicas de negação, raiva, barganha, depressão culminando no seu arco dramático e desfecho. Então o pessimismo presente, sobretudo no início, reflete a vida desse personagem que tenta construir ferramentas para a travessia deste evento traumático, impondo a princípio a reclusão para então expandir suas fronteiras não só no mundo externo, mas também internamente.
A propósito, quais foram as influências literárias que você mapeou para construir a sua voz literária?
Como disse anteriormente, a construção se deu sem muito trabalho de organização prévia. Grande parte da pesquisa ocorreu no mesmo momento da escrita, por exemplo. Eu sentava à frente do computador e o texto fluía. Então, quando faço este movimento de mapear minhas influências, acaba por ser totalmente retrospectivo.
Dito isto, longe de me comparar, consigo enxergar uma importância muito grande de Hermann Hesse na forma como ele faz da literatura ferramenta de investigação da psiquê humana. A dicotomia em Demian com seu jogo de luz e sombra, bem e mal, infância e vida adulta tem paralelo nos movimentos pendulares que sustentam Água Negra.
Na relação do personagem com o espaço, numa cidade que sufoca, oprime e também constrói um clima de sombras e mistério enxergo como referência a obra de Ruiz Zafon. Apesar de perceber correlações pessoais ao tempo em que vivi em São Paulo, tive dificuldade de nomear este espaço na narrativa. Um certo receio de que isto pudesse, de certa forma, reduzir a capacidade do leitor de criar uma dimensão de espaço única que conversasse com a vida e sentimentos de Dante.
E por fim, na construção e trabalho da linguagem, enxergo referência da Carla Madeira. Apesar de perceber, na atualidade, uma vertente de críticas voltadas a esta questão, gosto de trabalhar com a forma, conectar as palavras, trazer sonoridade ao que escrevo.
” Tenho certeza de que a medicina me ajuda como escritor na mesma proporção que a escrita me ajuda como médico.”
Com “Água negra” você entra em uma linhagem super interessante de escritores médicos. Você acha que o exercício da medicina de alguma forma te ajuda como escritor?
Sem sombra de dúvidas. O exercício da medicina me possibilita adentrar em histórias reais, conectar à dor e alegria, expandir minha compreensão da vida e exercitar dia a dia a tarefa da empatia. No campo dos sentimentos, muitas vezes, ela me obriga a refletir sobre o que é meu e o que vem do outro. A profissão me dá substrato para a escrita porque ela me provoca a todo tempo. Todos os dias ela espera algo diferente de mim. Tenho certeza de que a medicina me ajuda como escritor na mesma proporção que a escrita me ajuda como médico. Porque foi sempre através da escrita que consegui me organizar psiquicamente, refletir sobre os dilemas da profissão, da nossa existência e sobre meu lugar nesse mundo.
Outra coisa que notei, é que também existe uma ambientação psicológica, sobretudo na narração de Dante que é em primeira pessoa. O romance psicológico enquanto gênero também pode ser pensado para o seu livro?
Dante faz a travessia do trauma em dois polos distintos. O primeiro configura o mundo real, a consciência, os fatos. Onde ele se conecta pouco a pouco com as personagens de Dona Agnes e Lila que o apresentam novas visões de mundo, abrindo possibilidades de cuidado e transformação. O segundo polo de travessia vem do inconsciente, dos sonhos, do corpo que sente sem racionalizar. Acredito que é impossível separar mente e corpo no enfrentamento do trauma. Então, provavelmente, há sim um flerte com o gênero de romance psicológico.
A cidade, o ambiente urbano, também aparece em seu livro associado a uma sensação de solidão. Qual função o espaço da cidade exerce em seu livro?
A cidade acaba por ser um espelho do mundo interno de Dante: fragmentada, incoerente, dúbia, onde o belo e horror, a luz e a sombra, o passado e o presente se misturam. Ela é talvez um retrato do humano com suas contradições. Vive-se aqui sob um sistema de opressão onde o bairro envelheceu, as condições sociais são precárias e as relações interpessoais fraturadas. Mas ao mesmo tempo, é através dessas fraturas, que Dante encontra oportunidades de reconstrução através da conexão estabelecida com o outro.
Depois de “Água Negra” você vem pensando em outras obras?
Uma voz já surgiu. Uma senhora de idade avançada que não mais se reconhece entre aqueles que deveria amar.
“ Dizem que na demência verdadeira, aquela em que se esquece do passado, deixamos de reconhecer nossos entes queridos. Eu vivo uma certa demência às avessas, posso assim dizer. Pois apesar da memória lúcida, não reconheço em nenhuma dessas pessoas alguém que me seja querido.”
Quero curtir o processo da escrita e aprender com ele. Penso que fui precipitado em alguns aspectos com “Água Negra” por desconhecimento. Não entendia como funcionava os trâmites de publicação. Enxergo no meu primeiro romance oportunidades de melhora da mesma forma que também reconheço o seu valor, sobretudo na capacidade de prender a atenção do leitor e de emocioná-lo em certa medida.

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