Assisti pela primeira vez esses dias a adaptação para o cinema de “As Meninas”, clássico de Lygia Fagundes Telles. É uma boa adaptação que, entretanto, entrega muito da trama, sintoma de que o tempo no qual o livro foi escrito e publicado havia passado.
O livro, obra emblemática do período dos anos de chumbo no Brasil, é o retrato da “subvida” em tempos de opressão e totalitarismo. Isso porque, embora o nosso país vivesse, naquele momento, um de seus períodos de mais intensa violência e barbárie, a vida continuava acontecendo. Essa parece ser também uma característica dos regimes totalitários fascistas, a preocupação com a continuidade de um cotidiano aparentemente tranquilo. Assim, enquanto nos porões e masmorras do DOPs havia o constante derramamento de sangue inocente e a tortura gritante e enlouquecedora, no andar de cima, a nível do solo, as pessoas seguiam vivendo, comendo, casando, fodendo, fumando. Não por acaso, há quem diga que nem viu a ditadura passar, ou que aquele período nem tenha sido tão sombrio. O papel dos militares foi justamente o de varrer para debaixo do tapete a sujeira que produzia, numa ambientação de normalidade e de ordem enquanto a grande desumanização acontecia.
Os que sofreram na ditadura, os perseguidos políticos, os estudantes que se manifestaram, os artistas que exigiam liberdade, os parentes dos desaparecidos políticos sequer podiam falar que estavam sofrendo. Não havia lugar para o protesto. A troca dos cartazes, dos panfletos de uma revolução guerrilheira, aconteciam também na clandestinidade, para além dos grandes momentos de catarse social como a passeata dos cem mil. A ditadura produzia uma tortura sufocante, havia no ar a sensação de desesperança da dor desassistida que não podia ser reivindicada.
E como calar esse grito?
Na obra clássica de Lygia, não há a palavra ditadura (que já aparece no filme, realizado pós-ditadura). Esta palavra, que está tão viva no livro, não aparece na narração ou na boca de nenhuma das personagens. A autora realiza um discurso sobre totalitarismo nas entrelinhas, naquilo que não está dito, na conversa cortada, na pergunta sem resposta. Esse embate entre a necessidade de dizer e aquilo que não é dito aparece belíssimamente representado nas três personagens, as meninas que dão título ao livro: Lorena, Lia e Ana Clara.
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“Em ‘As Meninas’, Lygia Fagundes Telles apresenta outro panorama da ditadura daquele que estamos acostumados a ver nos filmes brasileiros de hoje”
Lia, a militante comunista, guerrilheira, representa diretamente a urgência de falar. Com o namorado preso pela ditadura, ela precisa continuar a vida como se este homem, o homem que amava, não existisse. Não era possível dizer o nome dele em voz alta e as notícias chegavam de canto de boca. E como continuar?
Lygia situa, não por acaso, o romance no emblemático ano de 1969, ano do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick. No livro, fala-se muito rapidamente que o namorado de Lia, ou Lião, como era chamada pelas amigas, seria liberado em troca desse tal embaixador não nomeado. A citação acontece tão rápido e está tão diluída dentro de problemas amorosos e discussões existenciais das meninas, que passou despercebido pela censura. Em vida, Lygia falava que os censores não perceberam o teor subversivo do livro muito provavelmente por não lerem todo ou por se perderam na discussão aparentemente inútil sobre Lorena e seu amor pelo homem casado, o médico M.N., e de Ana Clara, a modelo drogada dividida entre o amor que sentia pelo seu amante e o desprezo que sentia pelo seu suposto noivo, o homem rico que lhe daria a vida que queria.
Mesmo hoje, o teor subversivo deste livro pode não ser captado por leitores desatentos. Lembro que, quando presenteei um amigo com este livro, um amigo que não sabia nada sobre Lygia, ele me disse, quando estava na metade do livro, “e este livro está falando sobre o quê mesmo?”. “Sobre nada”, foi o que respondi e foi o que os censores pensaram.
Lorena, a menina rica, e o elo que une as três garotas estudantes da USP que moram em um pensionato de freiras, é ambivalente. Ela pode representar a alienação da classe média alta diante do horror. Enquanto a amiga próxima sofre pelo namorado que está preso, ela vive de amores imaginários por um médico casado, suposto amante a quem ela espera que largue a família para ficar com ela. Em um dos mais emblemáticos diálogos do livro, logo no começo, há um embate perfeitamente elaborado entre Lorena e Lia. Lia pede emprestado o carro da mãe de Lorena, fala que é algo urgente e que não pode falar o motivo pelo qual pede o automóvel (precisaria para resgatar o namorado ou fazer uma missão do grupo de guerrilha de que fazia parte — nada mencionado). Enquanto Lia precisa de uma devolutiva urgente, Lorena está o tempo inteiro desconversando, falando de M.N., discutindo sobre bobagens, como sais de banho ou perfumes. É a tentativa do grito diante da indiferença da classe média.
— Lorena, me empresta um lenço, estou resfriada — digo e tenho vontade de esfregar esta cara molhada de lágrimas. Mas que lenço? Não quero lenço, quero o carro. — Quero o carro, Lorena. Posso contar com você?
— Tenho branco, rosa, azul e verde-malva. Ah, e um turquesa, olha que lindo este turquesa. Então, Lia de Melo Schultz, que cor a senhora prefere? (Trecho do romance “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles).
Lorena poderia ser só isso, o que seria pouco complexo, algo que Lygia não faria. Ao mesmo tempo que a personagem performa uma preocupação vazia, ela também não escapa do mundo seu redor. Lorena, apesar de toda a sua paixão pelo improvável e desejo pelas pequenas coisas, empresta o carro para Lia e se preocupa com Ana Clara, que está cada vez mais sumida e cada vez mais drogada (o que lhe rendeu o apelido de Ana Turva).
Ana Clara parece corresponder a essa classe emergente. Não se preocupa mais com o que acontece exteriormente. Está miserável na divisão entre o desejo de ficar rica e vingar a sua origem pobre, e o desejo de liberdade. Representa uma frustração diante da impossibilidade da ascensão de classe, a urgência por uma vida que não fosse tão escassa (como era o país na época da ditadura, para os milhares de brasileiros para quem o milagre econômico não chegou) e o muro que era concentração de renda na mão de poucos. Se dizia e se pensava disposta a fazer todo o necessário para ascender de classe, mas provou o contrário. Sua morte de overdose, narrada de forma tão poética, parece ter sido sua última fuga contra o destino de infelicidade que lhe era reservado.
Naquela altura, o livro de Lygia apresenta outro panorama da ditadura daquele que estamos acostumados a ver nos filmes brasileiros de hoje. É um recorte sobre como o totalitarismo reverberou nos afetos, na vida das pessoas, na dor não escutada, no desejo de fuga e na alienação compulsória. O momento da narração do relato real de tortura, uma carta lida por Lia a uma das madres do pensionato, logo após a uma conversa sobre violência, dor e Deus, é de fato o ápice do livro, por ser o único momento em que a violência se revela. Ao invés de recorrer às fórmulas baratas da repetição incansável e dessensibilizante das imagens de violência, Lygia escreveu um livro contido que, justamente por essa característica, consegue imprimir, ao momento da violência, o espanto necessário.
Relendo os trechos depois de assistir ao filme, eu tremia e suava. Como pode um livro em que a palavra repressão não aparece, ainda assim, conseguir transbordar a atmosfera bélica daquele tempo? Neste momento, em que vivemos um tempo também bélico, um desdobramento da Guerra Fria que acontecia no momento em que Lygia escreveu e publicou o livro, penso em como a violência também tem atravessado nossos afetos e como eu mesmo me sinto como Lia diante de Lorena pedindo que ela empreste o carro enquanto ela está preocupada com lenços umedecidos, perfumes franceses, banho de banheira e o amor impossível. Perceba: são duas temporalidades diferentes, algo semelhante ao que desenvolve H. Bhabha ao escrever sobre o estranhamento da narrativa pós-colonial, que desafia justamente o tempo hegemônico a partir do discurso do subalterno e da minoria. É a história que a História não conta. É aquilo que está escondido debaixo da camada de normalidade, é o grito rouco de quem sabe que não será ouvido.
— O Bezerro de Ouro está instalado na praça e a senhora me fala em espiritualidade. Os adoradores não são espirituais porque são adoradores, entende? O povo não é espiritual porque o povo quer fazer parte da adoração e não pode nem chegar perto, está desesperado, aquele brilho, aquele exemplo de conforto, gozo. Esses desastres, esses crimes, tudo isso é desespero, o povo está sem esperança e nem sabe. Então fica subindo nos postes, dando tiro à toa, bebendo querosene e gasolina de aflição. Medo. Eu estava assim desorientada. Agora sei o que fazer.
— Violência, também?
Não consigo mais ficar sentada, me levanto. Assumo o risco. — Não, Madre Alix. Confesso que estou mudando, a violência não funciona, o que funciona é a união de todos nós para criar um diálogo. Mas já que a senhora falou em violência vou lhe mostrar uma — digo e procuro o depoimento que levei pra mostrar ao Pedro e esqueci. — Quero que ouça o trecho do depoimento de um botânico perante a Justiça, ele ousou distribuir panfletos numa fábrica. Foi preso e levado à caserna policial, ouça aqui o que ele diz, não vou ler tudo: (Trecho do livro ‘As Meninas’ que antecede o relato real de tortura na ditadura militar).
A conversa continua
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