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Foucault leitor, Foucault escritor: uma celebração do centenário

Filósofo francês redigia seus textos como um anatomista que realiza uma autópsia.

Esta icônica fotografia de Michel Foucault foi tirada pelo célebre fotógrafo belga Marc Trivier, no início da década de 80. Fonte: Librairie le feu follet, reprodução.
Esta icônica fotografia de Michel Foucault foi tirada pelo célebre fotógrafo belga Marc Trivier, no início da década de 80. Fonte: Librairie le feu follet, reprodução.

No dia 15 de outubro de 2026, celebram-se cem anos de nascimento de um dos mais importantes pensadores do século XX: Michel Foucault. A divisão que boa parte de seus comentadores costuma fazer apresenta o arco de seu percurso iniciando-se com a análise das condições arqueológicas dos saberes, passa pela analítica genealógica das relações de poder e fecha com o interesse pelas formas por meio das quais os sujeitos se constituem. Não à toa, Foucault é lembrado como aquele que colocou em questão a psiquiatria, as ciências humanas, a sociedade disciplinar e as práticas antigas de cuidado de si.

Porém, é fundamental lembrar que a relação de Foucault com as artes também é uma das marcas de sua produção. Bastaria lembrar, apenas à guisa de exemplo, da deslumbrante análise de Las meninas, da ligação estético-filosófica com René Magritte e da curiosidade com o experimentalismo erudito do maestro Pierre Boulez. Nesse sentido, é importante recordar também que Foucault manteve uma ligação intensa com a literatura, e que ela ocupou um lugar particularmente caro em seu pensamento.

Foucault faz parte de uma geração de pensadores para os quais o capitalismo era um sistema sem fora. Se, para a geração anterior, era preciso tomar partido entre as três grandes maquinarias sociopolíticas que disputavam a internacionalização global desde as primeiras décadas do século XX – o fascismo, o capitalismo e o comunismo –, para ele, e para parte considerável de seus contemporâneos, a questão era outra. Tratava-se, em suma, da disposição paradoxal de buscar o fora daquilo que não tem fora. Autores como Gilles Deleuze e Felix Guattari entenderam que talvez essa disposição pudesse ser ativada na experiência esquizo. Foucault, ao menos em certo momento, vislumbrou essa possibilidade no espaço literário.  

Um exemplo decisivo disso é o livro sobre Raymond Roussel publicado em 1963. Longe de apresentar uma interpretação convencional, Foucault procura compreender os procedimentos formais e metodológicos que estão na base de sua escrita: jogos de palavras, aproximações sonoras, mundos distintos que surgem de pequenas diferenças e produzem uma cadeia inesperada de significações. Sob a pena foucaultiana, a literatura de Roussel evidenciava que, diferentemente do que pretendia Aristóteles, as palavras não possuem uma relação direta e natural com as coisas. Entre a linguagem e o real, existe um intervalo no qual se abre um espaço de invenção, deslocamento e estranhamento. Esse espaço era, para Foucault, o espaço literário. 

Assim, Roussel interessa a Foucault porque sua literatura permite pensar uma linguagem que produz efeitos próprios dobrados em si. A literatura deixa, assim, de ser uma representação – uma reapresentação – do mundo. Hölderlin, Mallarmé, Flaubert, Julio Verne e Breton, juntamente com Georges Bataille, Maurice Blanchot e Pierre Klossowski são, ao lado de Roussel, para Foucault, outros autores que permitem definir a literatura moderna como aquela que forja um modo de linguagem já não limitado a representar o mundo a partir e através de um eu cartesiano garantido e seguro de si. Por isso, chamavam sua atenção obras que exploravam experiências-limite como, por exemplo, a morte, a transgressão, o erotismo e a loucura. O que há nessa literatura é uma crise da ideia tradicional de autor e, consequentemente, do desfazimento de qualquer sujeito originário e de qualquer ordem garantida: transfiguração, mais do que reconhecimento. 

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“Entre a linguagem e o real existe um intervalo no qual se abre um espaço de invenção, deslocamento e estranhamento. Esse espaço era, para Foucault, o espaço literário.” – Danichi Hausen Mizoguchi

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Jorge Luis Borges é outro autor que ocupa um lugar decisivo na biblioteca foucaultiana. A análise do conto O idioma analítico de John Wilkins não apenas abre o prefácio de As palavras e as coisas como é declaradamente o dínamo que levou Foucault à escrita do livro – é nas primeiras linhas desse mesmo prefácio que ele afirma que a obra nasceu do riso promovido pelo texto do escritor argentino. O que impressiona Foucault é a classificação fantástica dos animais, cuja organização rompe com os critérios habituais pelos quais os seres são ordenados. A estranhíssima taxonomia supostamente retirada de uma enciclopédia chinesa contém categorias como pertencentes ao imperador, cães em liberdade, inumeráveis, desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo – e é disso que Foucault ri, e é isso que impele Foucault à escrita de um de seus livros mais importantes, belos e difíceis.

Além do riso, ou melhor, junto ao riso, o efeito dessa classificação é produzir um estranhamento diante daquilo que parece evidente: as categorias que utilizamos para organizar o mundo – ou, em outros termos, a nossa ordem das coisas. Com esse texto, Borges permite que Foucault perceba que toda ordem é artificial, e que aquilo que consideramos racional, natural ou necessário sempre dependerá de determinadas condições de possibilidade. A literatura funciona, nesse contexto, como uma experiência capaz de desestabilizar as formas familiares de pensamento, fazendo aparecer o caráter contingente dos sistemas de classificação e das relações entre as palavras e as coisas. Torna-se, portanto, uma espécie de máquina de estranhamento de nós mesmos.

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“Se há um Foucault leitor que impacta diretamente nos conceitos por ele criados, é imperativo perceber que há também um Foucault escritor para quem a forma textual não é em nada secundária em relação ao conteúdo.” – Danichi Hausen Mizoguchi

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Há, portanto, um impacto óbvio da produção literária na construção conceitual de Michel Foucault: muito especialmente nos anos 1960, ela funciona como matéria-prima para uma parte considerável de seus livros. Porém, há também um modo foucaultiano de escrita que funciona quase como condição para que a teoria se expresse a contento. Em outros termos: se há um Foucault leitor que impacta diretamente nos conceitos por ele criados, é imperativo perceber que há também um Foucault escritor para quem a forma textual não é em nada secundária em relação ao conteúdo.

 Seu estilo oscila como seus métodos e objetos. Nos primeiros livros que publicou, por exemplo, especialmente em História da loucura e As palavras e as coisas, percebe-se uma construção frasal serpenteante, com os volteios tipicamente franceses e uma prosódia sedutora, lenta e exigente. Posteriormente, marcadamente desde a publicação de Vigiar e Punir, e acentuadamente nos dois últimos volumes de História da sexualidade, vê-se uma textura mais próxima da redação clássica estadunidense, com frases curtas e precisas de um estilo que em muitos momentos pode fazer lembrar a pena de Ernest Hemingway.

A entrevista O belo perigo, concedida ao crítico literário Claude Bonnefoy, é o momento em que Foucault desenvolve com maior atenção o tema do estilo. Desde o início, Bonnefoy conduz a interlocução nessa direção, deixando claro que o que interessava naquela conversa era a relação de Foucault com a escrita. O entrevistador declara-se impressionado com um pensamento analítico preciso e penetrante sustentado por um texto cujas vibrações não são exclusivamente de um filósofo, mas revelam, também, um escritor, e afirma que o pensamento foucaultiano, stricto sensu, é inseparável de uma cadência. É como se em Foucault, diz Bonnefoy, a forma da frase participasse da própria construção do pensamento. Há, portanto, uma espécie de materialidade textual – uma textura do texto – que colabora para que Foucault seja o autor que é. 

Nesse sentido, as imagens metafóricas do veludo e do bisturi funcionam como sínteses de sua estilística. Foucault observa que os leitores costumam imaginar em sua escrita certa agressividade, mas que não reconhece essa violência em seus textos: escrever era uma atividade tão suave e discreta que dava, em muitos momentos, certa impressão de veludo. Porém, em um segundo momento, admite que aqueles que encontravam mordacidade e secura em seus textos é que tinham razão. De modo quase confessional, declara que talvez restasse em sua caneta a herança do bisturi afiado utilizado pelo pai e pelo avô, ambos médicos-cirurgiões, e que, assim, redigia seus textos como um anatomista que realiza uma autópsia.

As imagens dos materiais, mais dialéticas do que contraditórias, funcionam como condensação metafórica da poética foucaultiana: a suavidade e a sensibilidade, o corte, o risco e a ruptura. Na literatura, afinal, a beleza nunca foi o oposto do perigo. É justamente nessa tensão entre delicadeza e violência que a escrita encontra sua força de desestabilização. Escrever, nesse sentido, é escavar o que parecia intocável e abrir, na superfície do familiar, uma possibilidade de desvio. O escritor foucaultiano é, assim, uma espécie de artesão sensível do estranhamento.

A relação de Foucault com a literatura nos lembra que ler e escrever são maneiras distintas e complementares de colocar em risco as formas estabelecidas de pensar, falar e ser. Ao deslocar os limites do que pode ser dito e pensado, a literatura abre espaço para outras experiências de subjetivação. O espaço literário, tanto teórico quanto ficcional, é, assim, foucaultianamente, um dispositivo de transformação de nós e do mundo. Se, na famosa definição de Italo Calvino, um clássico é aquele que ainda não terminou de dizer o que veio dizer, é nos pontos de toque entre Foucault e literatura que se encontra um dos legados mais fecundos a serem celebrados e ativados no centenário de seu nascimento.

MAR ABERTO

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