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Ensaio

A TOKENIZAÇÃO DO VOTO: eleições 2026, pilhagem epistêmica e criptomoedas

Quem envolveu as crianças negras africanas do grupo de dança de Kampala na propaganda da extrema direita nesse momento tão sensível das eleições?

Se “a política é a guerra por outros meios” na reversão que Michel Foucault propõe da célebre frase “a guerra é a mera continuação da política por outros meios” do general prussiano Carl von Clausewitz, quero aqui apresentar uma breve leitura da microfísica dos poderes em jogo nas trincheiras das eleições presidenciais de 2026 no Brasil, em especial sobre o recente episódio das crianças ugandeses do grupo Hyper kids Africa dançando e pedindo voto no segundo turno para o candidato da extrema direita Flávio Bolsonaro, caso que envolve, sobretudo, uma estratégia clássica do que eu chamo de pilhagem epistêmica, ou seja, um tipo específico ainda mais perverso de epistemicídio dessas crianças ugandenses sob a égide de um processo de tokenização do voto no Brasil. Aliás, elas são amplamente conhecidas no Brasil, por causa de seus vídeos virais nas redes sociais e suas aparições em programas televisivos como em 2023 no Domingão com o Huck fazendo a coreografia da música Zona de Perigo de Léo Santana. Desejo, pois, também discutir, ainda nesta chave, esses “outros meios” da guerra contemporânea que se constituem em outra arena no cenário mundial, a exemplo do mercado das criptomoedas memecoins. A extrema direita no Brasil, seguindo a lição clássica de Sun Tzu, deseja vencer nesse território digital sem sequer desembainhar a espada, por isso é muito importante compreender as regras desse jogo bélico para saber como guerrear, senão a derrota pode vir sem se entender nem onde se devia travar a batalha.

A memecoin é uma criptomoeda que tem uma natureza singular, pois ela é criada a partir de memes, piadas ou tendências da internet. Geralmente, a memecoin é capitalizada monetariamente em valores baixos, mas não apresenta uma utilidade prática no mundo real, diferente do Bitcoin, do Ethereum, da Solana e de outras criptomoedas que têm finalidades específicas de transação ou de fluxo financeiros voltados a pessoas e/ou instituições (bancárias). As memecoins, diferente das criptomoedas tradicionais citadas aqui, não têm nem fundamento técnico de propostas tecnológicas, como viabilizar a transferência internacional de grandes somas monetárias num tempo infinitamente inferior que as vias bancárias tradicionais, nem de contratos complexos inteligentes que as lastreie. Além disso, ela pode ser facilmente criada por qualquer pessoa ou grupo, mesmo que não se tenha nenhum conhecimento de programação. A “narrativa” forjada em torno de cada cripto é que pode propiciar seu crescimento, sua expansão e consequentemente sua valorização. No entanto, sua principal característica é a volatilidade: no universo de milhares memecoins existentes e criadas o tempo inteiro algumas oscilam de maneira tão radical que são logo extintas (é um mercado altamente instável e dominado por ferramentas de automação e especulação), mas outras fazem milionários a quem consegue mapear a moeda correta com potencial de variação brutal para cima de uma hora para outra. O mercado das memecoins dentro das criptos é o mais arriscado, o mais variável, dificílimo de gerar liquidez, mas também aquele que pode enriquecer ou tornar ainda mais rico uma pessoa se o investimento certo for feito no momento exato. Claro, isso é muito difícil, mas alguns contextos, às vezes, dão as dicas dessas probabilidades. Tudo isso é lícito, é um circuito financeiro legal, mas como é novo, ainda carece mundo afora de um entendimento e uma regulamentação mais precisos, lidando com muitos impasses. Países como os Estados Unidos já possuem uma reserva estratégica de suas economias estimada em 20 bilhões de dólares em Bitcoin desde 2025 por ordem de Donald Trump e outras nações organizam-se para seguir essa tendência. Toda essa explicação é importante para que vocês compreendam a escolha dos Hyper Kids Africa que têm a própria criptomoeda $HYPERSKIDS como plataforma de divulgação da extrema direita brasileira em 2026 associada a nova cripto eleitoreira $B22, no caso que nos propomos a analisar aqui. 

(Continua após a foto)

As crianças do grupo Hyper Kids Africa (Reprodução das redes sociais)

Quem intermediou do lado ugandense e sobretudo brasileiro essa articulação da $B22 aos Hyper Kids usando também esse contexto da memecoin $HYPERSKIDS?

A $HYPERSKIDS tem uma natureza muito específica dentro do universo das memecoins, porque foi criada com um objetivo, com o argumento, com a “narrativa” de auxiliar as crianças do grupo de dança homônimo de Kampala (Uganda) que vivem em uma situação de pobreza, reunindo num só lugar o que há de mais radical do capitalismo selvagem contemporâneo, a criptomoeda, com o discurso da “assistência social”. No plano prático, essa cripto que opera literalmente com o valor de “microcentavos” (1 centavo de dólar hoje equivale a 150 tokens da $HYPERSKIDS) teve uma variação acumulada de mais de 370.000% (não, você não leu errado, essa foi a valorização alcançada entre fevereiro e abril de 2025 após esse grupo de dança infantil participar do programa America’s Got Talent). Quem comprou uma boa quantidade dessa memecoin ainda mais barata antecipadamente no formato de token (isso quer dizer que antes mesmo da moeda ser capitalizada e colocada disponível para aquisição nas principais corretoras essas espécies de ações da moeda são vendidas amplificando exponencialmente a margem de lucro, caso ocorra algum rendimento significativo quando ela for para o mercado no futuro) ou antes dessa valorização de 2025 e a viu avançar abruptamente casas decimais acima, enriqueceu, ganhou milhões, mesmo que a moeda estivesse ainda na casa dos “micro centavos” de dólar. A $HYPERSKIDS é um case comprovado de grande sucesso econômico de uma memecoin no mercado de criptos e, portanto, mesmo que a repetição exata de êxito nesse grau para ela seja difícil, ela não se constitui uma escolha meramente aleatória para a difusão da campanha de Flávio Bolsonaro por agentes que ainda não foram formalmente identificados, mas em um exercício bem hipotético podemos imaginá-los. Ah! Essa é outra característica desse mercado: a proteção, o sigilo de quem opera, porque aqui é possível transitar uma boa quantidade de dinheiro de forma discreta, anônima em muitos casos. 

A distribuição dos tokens da criptomoeda $B22 aos usuários que fizerem propaganda do voto 22 em Flávio Bolsonaro nas redes sociais vinculada ao apoio ao grupo de dança Hyper Kids, mas também ao contexto da memecoin $HYPERSKIDS, neste momento da campanha eleitoral brasileira em que mais de 56 milhões de pessoas votaram em Flávio Bolsonaro no primeiro turno é estrategicamente auspicioso para hypar a nova moeda com uma potencial aderência maciça dos apoiadores do candidato da extrema direita no turno decisivo das eleições e criar uma onda que traga ainda mais eleitores-investidores (se, por exemplo, apenas 1% desses eleitores de Flávio do primeiro turno, ou seja cada uma das 560 mil pessoas, adquirissem alguns tokens dessa moeda já teríamos um impacto significativo para que ocorresse algum grau de sua valorização). Ao aliar a divulgação do voto no 22 no segundo turno em Flavio Bolsonaro à aquisição do “token promissor” da $B22 associado à $HYPERSKIDS, vincula-se, indevidamente, porque é ilegal, porque estamos falando literalmente de token de criptomoeda com potencial valor monetário, “comprando digitalmente o voto”, o acesso ao poder presidencial à possibilidade de lucro aos que apoiarem esse golpe político digital, ou seja, a extrema direita, mesmo que aqui seja um gesto em princípio supostamente só de apoiadores, quer vencer a guerra, sem sequer desembainhar a espada, sem discutir plano de governo, sem debater de fato política, atropelando o processo eleitoral. Nas palavras do próprio site da Brasil 22 Token este é um “movimento que une apoio ao voto 22 e a proposta de ajudar as HypersKids a concluir sua casa em Kampala”.

Para ocupar devidamente a trincheira nessa batalha nada inócua, pois instituiu silenciosamente outra arena da arte da guerra, é preciso fazer de forma incisiva as seguintes perguntas, ainda que o TSE tenha decretado no dia 9/10/26 a suspensão imediata do site Brasil 22: Quem está por trás da $B22 lucrando politicamente e financeiramente com tudo isso? Há grandes compradores ou adquiridores dos tokens da $B22 em termos de volume nesse curto período ou, no criptodialeto, na gíria desse mercado, há eventuais “baleias” envolvidas na obtenção de tokens dessa criptomoeda? Se sim, quem são? Quem intermediou do lado ugandense e sobretudo brasileiro essa articulação da $B22 aos Hyper Kids usando também esse contexto da memecoin $HYPERSKIDS? Mais grave ainda: quem envolveu as crianças negras africanas do grupo de dança de Kampala que não têm qualquer relação com a política brasileira com a propaganda da extrema direita nesse momento tão sensível das eleições?

Essas respostas devem ser perseguidas, pois invariavelmente elas apontarão essa trama nada aleatória, nada incidental, que resultou nesse processo de pilhagem epistêmica (apropriação epistemicida indevida do saber e da produção da arte corporal das crianças negras de Uganda que encantam o mundo e sempre tiveram grande repercussão positiva no Brasil) associada a uma tentativa de lucro dentro do mercado global, bem como de intervenção na eleição presidencial através da emulação da empatia da dança pueril que nada tem a ver com a extrema direita brasileira. Vejam: mais que a proposição da venda de tokens da $B22 ligados a $HYPERSKIDS, há um inédito processo de tentativa de tokenização do próprio voto no Brasil no qual convergem os interesses das big techs, de outros governos e governantes (um dos grandes investidores nominais de cripto é um certo presidente do norte global que já disse que está de olho nas eleições brasileiras e a extrema direita bolsonarista já fez juras de amor a ele), bem como a criptomoeda é o capital por excelência da extrema direita no mundo, pela dificuldade também de rastreamento. Parafaraseando Chico Science, se os “computadores fazem hoje a arte da guerra”, e “artistas, digo políticos, fazem dinheiro”, é preciso entender que as Fake News, os robôs de impulsionamento, a neocensura digital sistemática feita à esquerda nas redes sociais pelas big techs, os algoritmos viciados como aponta em seus estudos o Prof. Julio Araújo, os hackeamentos e, claro, o novíssimo mercado das criptomoedas integram uma mesma arena digital na qual se conciliam imperialismo, extremismo e pós-verdade, daí ser urgente nossa disposição ao combate também nesse território, pois o plano de Flávio Bolsonaro no segundo turno concilia-se perfeitamente com o projeto em curso de tokenização do mundo da extrema direita global: da proposta de que o trabalhador “negocie” diretamente com o patrão suas horas trabalhadas e ganhe exclusivamente por elas sem o guarda-chuva das leis trabalhistas e da CLT à mensuração literal do voto como memecoin por seus apoiadores como vemos agora. 

A luta pela manutenção à democracia nesse exato momento exige de nós atenção também a essas novas formas de sujeição da liberdade, dos direitos adquiridos, bem como da monetização digital até do próprio voto tornado commoditie pela extrema direita: votar, nessa perspectiva, tornou-se ipsis literis um investimento em criptomoeda colocando o sistema eleitoral brasileiro, a própria constituição de 1988 e acima de tudo nossa possibilidade de sonhar mundos em torno da utopia de um Bem Viver coletivo em risco.

MAR ABERTO

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