Gosto do objeto livro. Ele pesa nas mãos; dá mais materialidade às palavras nele contidas. Então, enquanto lia Ursula K. Le Guin: a última entrevista e outras conversas (2026) – publicado há pouco pela Relicário Edições, com tradução de Adriana Lisboa –, não pude evitar sorrir, pensando em como, realmente, esse objeto é um relicário da autora estadunidense. Nele, o jornalista e editor David Streitfeld faz uma montagem de vários momentos da vida e do trabalho de Ursula Kroeber Le Guin (1929–2018), a partir das entrevistas que ela concedeu ao longo da vida.
Em “A última entrevista”, Le Guin admite preferir os livros aos e-books e diz que apreciava edições bem-feitas (creio que estaria contente com esse seu pequeno relicário). Ele contempla 40 anos de sua vida e, a cada entrevista, vemos um pouco mais dela como escritora, professora, mulher, mãe e outras tantas coisas que foi. Como bem diz Ana Rüsche na orelha do livro, Le Guin “é um dos nomes inafastáveis da literatura estadunidense dos últimos cinquenta anos”, e não deve haver dúvidas da relevância de conhecê-la, se a literatura lhe for um assunto caro.
As sete entrevistas do livro são guardadas por uma capa rosa e o sorriso da escritora em pose casual, numa fotografia de Marian Wood Kolisch (1920–2008), que nos convidam a conhecê-la. Entre cada um dos textos, uma folha preta marca o salto temporal entre eles. Para mim, sugere que uma imensidão de coisas poderiam estar ali, mas devemos descobri-las por conta própria. Dentro de cada conversa, há ainda uma página de destaque com citações de Le Guin que, se lidas juntas, resumem elementos de sua perspectiva como autora e leitora. Em conjunto com os paratextos, preciso comentar também quanto ao respeito dado à tradutora, a também escritora Adriana Lisboa, que teve seu nome gravado na capa para dar-lhe reconhecimento, algo que ainda não se tornou de praxe no meio editorial.
O livro começa com uma introdução de Streitfeld. Ele diz: “[Ursula] sempre tinha algo a dizer” (p. 7); é precioso como ele resgata Le Guin, ao apresentar trechos de outras entrevistas não incluídas no volume. Nos recortes, vemos a escritora bem-humorada, apegada à rotina, que sempre desejou a separação entre a Ursula pública e a privada, que desejou ter como legado a “irreverência contra a autoridade imerecida e respeito apaixonado pelo poder das palavras. Ah, e que meus livros continuem a ser impressos também” (p. 12).
Mas vemos também o apreço de David Streitfeld para com a obra da autora, ao contar a própria experiência com O feiticeiro de Terramar (1968) e as releituras que fez dele em sua vida. Na adolescência, o livro foi uma aventura heroica; adulto, lendo-o em cenário de guerra, tornou-se uma parábola de poder; quando pai, lendo para a filha, ouviu dela questionamentos, uma nova perspectiva, e percebeu o livro como um acerto de contas consigo mesmo.
A introdução é de uma beleza sutil. Tanto por perceber a multiplicidade da literatura e a vastidão da obra de Ursula K. Le Guin, quanto pelo atestado de cuidado e atenção dado à obra e à entrevistada. Ela traz uma visão panorâmica da autora, uma boa base para quem ainda não a conhece bem poder acompanhar, sem dificuldades, as entrevistas apresentadas na sequência, além de deixar em nós uma comichão, uma curiosidade de investigar as mais de dez entrevistas citadas, mas não incluídas, por Streitfeld. Ela certamente tem mais conversas espalhadas por aí.
Em A teoria da bolsa de ficção, originalmente publicado em 1986, a autora escreveu: “Querendo também ser humana, procurei evidências de que eu o era” (2025, p. 16). Le Guin, como escritora, diz que faz isso escrevendo. E, na primeira das entrevistas, cedida à 10 point 5 Magazine, começamos a descobrir a fantasia de Le Guin, que usa a geografia dos lugares imaginários como paralelo da geografia do inconsciente – Ir descobrindo Terramar é ir descobrindo-se (2026, p. 27). Ter esta conversa como ponto de partida para nossa exploração das entrevistas não parece acidental; é o ponto ao qual retornaremos mais adiante no livro, e depois ainda…
Em A última entrevista e outras conversas, esse avanço no tempo fica marcado pela ordem cronológica, na qual as entrevistas foram dispostas. Vemos Le Guin envelhecer, tornar-se menos esperançosa, passar a escrever menos, mas manter-se bem-humorada, avessa ao capitalismo, começar a escrever blogues e seguir acreditando na espiral da vida.
“A última entrevista” foi cedida ao editor David Streitfeld e ganhou o subtítulo “de volta para casa”. A organização do texto nos permite sentirmo-nos aconchegados na sala de leitura da escritora. Nela, vários temas das entrevistas anteriores são retomados, novos assuntos são tratados, e a conversa torna-se exemplo de uma das ideias pelas quais Le Guin se guia: “Você nunca volta ao mesmo lugar, só volta ao mesmo ponto da espiral. Essa imagem está muito presente em meus pensamentos. Você não pode voltar para casa e nunca mais vai poder pisar no mesmo rio.” (p. 192).
A discussão sobre a essência espiralada, não circular, da vida, para mim, é uma verdade nas obras de Le Guin, que ela mesma estende à própria vida. As novas informações e a repetição de alguns dos temas em cada entrevista não são enfadonhas; sempre vêm diferentes, sempre acumulam, por vezes demonstram uma mudança de perspectiva da autora.
Destaco, também, as menções ao feminismo, Tehanu, A mão esquerda da escuridão e Malafrena, pois me fizeram lembrar de “Is gender necessary?” (1976) e seu “Redeux” (1988), que li em The language of the night: essays on fantasy and science fiction (1989). Em “Redeux”, Ursula se coloca lado a lado com si mesma, editando o próprio pensamento anterior, corrigindo-se quando necessário. Uma volta a um ponto anterior da espiral.
Le Guin era dada a isso; ela também, por exemplo, revisou e reescreveu o livro Como criar histórias: um guia prático para escritores (2024 [1998]). Nele, a escritora estadunidense consolidou ensinamentos de um workshop para escritores de 1998, mas o republicou com alterações em 2015 “para que ficasse mais claro, mais preciso e mais útil a quem escreve no século 21” (2024, p. 14–15).

última entrevista e outras
conversas. Ursula K. Le Guin.
Tradução de Adriana Lisboa.
Relicário Edições, 2026, 216 pp.
Foi um prazer participar como ouvinte destas conversas, aprender e relembrar mais da vida e da obra de Le Guin. Sua ficção carregada de psicologia e antropologia, conscientemente ou não, é necessária. A fantasia e a ficção científica, provavelmente a literatura como um todo, são muito proveitosas quando nos ajudam a enxergar o “outro”, e Ursula Kroeber Le Guin nunca se absteve de ir ao encontro dele – essa é uma maneira de conhecermo-nos a nós mesmos, afinal, é um dos grandes objetivos de Le Guin. Ah, e “nunca se esqueça: você está falando com uma mulher” (p. 171), que faleceu aos 88 anos – “se você virar os números de lado, são dois infinitos, um sobre o outro.” (p. 208) –, cheia de coisas que ainda poderiam ser ditas.
Referências:
Le Guin, Ursula. Como criar histórias: um guia prático para escritores. Tradução de Juliana Fausto. São Paulo: Seiva, 2024.
Le Guin, Ursula. A teoria da bolsa de ficção. Tradução de Isabele Diegues. Rio de Janeiro: Cobogó, 2025.
Le Guin, Ursula. A última entrevista e outras conversas. Tradução de Adriana Lisboa. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2026.
Leia também: 90 anos de Silviano Santiago, proseador on the road

Júlia Serrano é pernambucana, tradutora, revisora, mestre em Estudos da Tradução (PGET/UFSC) e, atualmente, caminha em busca do doutoramento pelo mesmo programa e instituição, estudando a ficção de Ursula K. Le Guin.
