
‘Armação de Guerra’, de Manoella Valadares: Uma ‘guerra’ em fotogramas
Em Armação de guerra, os poemas fluem como fotogramas de um filme, imagens encadeando-se num looping sensorial, capaz de vibrar qualquer elemento em aparente estaticidade e afunilar o tempo da palavra.
Foto: Divulgação.
Como se nos convidasse à minuciosa captura do contínuo e beligerante fluxo da vida, Armação de guerra, de Manoella Valadares (Telaranha, 2026), destrincha uma série de imagens, ora fragmentadas, ora justapostas, evocando uma materialidade corriqueira só apreensível para olhares “armados” e dispostos ao combate: “tudo é crepúsculo de frevo abafo / ferrolho mola parafuso locomotiva as cabeças na altura da / cintura suor mijo metal saliva gargalo – ali perdem-se todas / os matizes nem madeira que cupim não rói resiste”.
A poeta compõe, sempre com algum frêmito de tensão, uma estrutura feita de lampejos barulhentos, que ecoam num frenesi. As imagens se aglutinam em sentido de urgência, e não há modo de ignorá-las, já que a realidade, alheia a qualquer desvio, sempre se impõe em armadilhas e atritos. Resta-nos, então, escolhermos nossas armas; a de Valadares me parece ser a palavra pungente, a crueza do verso, sua absoluta realidade:
“CAVALO DO CÃO
ferrão de marimbondo
zanza e chispa
outra palavra
ferida
quara à pedra
rachadura acesa”
Armação de Guerra: Em busca do instante já

Embora, em muitos momentos, Valadares recorra ao passado, o movimento dos versos, na sua minúcia e agilidade, elabora um tempo que aparenta estar sempre no presente. Há uma lucidez pairando sobre elementos que, mesmo distantes, se materializam com tamanha concretude que poderiam ser vivenciados durante o próprio ato da escrita. Tal como Clarice Lispector em Água Viva (1973, atualmente publicado pela Editora Rocco), a poeta também anseia captar o “instante-já” das coisas, o momento exato, encharcado de vida, cujo impacto só pode advir da mais real e precisa captação, sem vernizes. Num exercício comparável ao de Valadares, o eu lírico de Água Viva descreve: “Fixo instantes súbitos que trazem em si a própria morte e outros nascem – fixo os instantes de metamorfose e é de terrível beleza a sua sequência e concomitância.”
Na primeira seção de Armação de Guerra, “O coração vou destrinchar”, os instantes ressoam, sobretudo, a partir da experiência individual e dos desdobramentos do desejo, “três da manhã / o lençol ofegante onde / a palavra sêmen ainda dorme / no travesseiro que escapa da fronha / gazes engolidas / para esquecer das bombas de sucção”. Já na seção “É no bando que se é”, há um interessante deslocamento para o coletivo e suas composições, “Ruth vendendo lacostes fakes em Toritama / Pernalonga assinando quebra de protocolos em Westminster / Laurette engolindo as chaves das cadeias de Wandsworth / Kelly dando de mamar a Enzo Gabriel no shopping Boa Vista / Kevinho fazendo o hit é muito explosiva não mexe com ela não / Alba cortando uma estrofe em skye / o menino assobiando igual ao concriz”.
Nas duas partes, o caráter narrativo de muitos poemas dá vazão a personagens que se repetem. Assim, “Lucian”, “Gilka”, “Louise”, “vacas” e “crocodilos” se apresentam, instigam e convidam à aproximação, imersos numa dinâmica de tensionamentos que, entretanto, não rejeita a diversão com o manuseio da própria língua:
“QUE
teve aquele dia não foi
que a gente foi junto no piquete do royal mail
que eu dancei dentro da fumaça rosa
que eu tive a certeza que a gente (nem sempre) é para o que nasce
que eu descobri como se faz iogurte e que às vezes
escrever com muito que é
feio mas eu gosto”
Em Armação de guerra, os poemas fluem como fotogramas de um filme, imagens encadeando-se num looping sensorial, capaz de vibrar qualquer elemento em aparente estaticidade e afunilar o tempo da palavra. A guerra empreendida por Manoella Valadares reúne matéria, experiência, memória e desejo na mesma trincheira, onde uma vívida imagética avança certeira.


