
A cidade é mesmo um lugar de sonhar
O busão era uma pequena cidade. Havia uma forma de abraçar e repelir. De lembrar e esquecer. De agir e sonhar.
Foto: Gustavo Minas. Reprodução.
Estendo a mão para procurar uma música no som do carro, mas me distraio olhando pela janela um ônibus cheio, no semáforo. Enquanto esperamos, lembro, nítido: até completar 15 anos, eu tinha amigos que nunca haviam colocado o pé nas áreas turísticas da cidade. Muitos de nós conhecíamos apenas a Salvador das novelas, da televisão. A gente meio que vivia sob a mitologia do bairro longe do centro. Lembro que quando entrei na antiga quinta série, comecei a pegar ônibus sozinho. A distância era grande e, em dias de chuva, chegávamos a ficar por horas dentro do buzão.
Pegar ônibus era atravessar as idades. Sim, porque se você já anda pela cidade de ônibus sozinho, está inserido em uma parcela da vida adulta e conquista até um certo respeito dos outros. Em cada parada, um por um puxava a cordinha para descer rumo ao seu destino. O Colégio Sagrado Coração de Jesus era o meu. Por isso eu segurava o medo do desconhecido que me arrepiava a espinha quando me via completamente só, diante de um derrame de gente nos movimentos internos do coletivo. O buzu esvaziava e enchia diversas vezes, natural e pulsante. Parecia um coração ventilando todas aquelas vidas para a matéria do dia.
Lembro que me chamavam de Sagrado. Estava lá o nome da escola estampado no emblema sobre o peito. Sagrado para lá, para cá, e assim fiquei conhecendo o Cobra, o Piloto, o Pastor, o Cantor, dona Esperança, que trazia lanche, e João Rico, que completava sempre a passagem de algum necessitado. As pessoas se estudavam, mas depois se aceitavam. Aquilo durava uma viagem, porque na próxima, se você não tivesse um nome, ganhava um de imediato. Hoje vejo que as alcunhas eram mais uma forma de verdade.
“O instante suspenso que regia a vida dizia que a grandeza das coisas só pode ser medida pelo sonhar.” – Tiago D. Oliveiras
O busão era uma pequena cidade. Havia uma forma de abraçar e repelir. De lembrar e esquecer. De agir e sonhar. Como no dia em que uma carteira sumiu e alguém, tentando fugir, foi amarrado até o ônibus passar na frente da delegacia. Ou do surto que Viuvinha deu depois de ver seu finado marido abraçando outra no Campo Grande. Ou da primeira vez que Robertinho segurou na mão de Vivaldo e o Cobra pediu uma “salva de palmas”. Do olho de vidro de seu Homero rolando pelo chão de ferro e geral comovido. E o ferro e o vidro se condensam, sorriam. Estava tudo em sua rotina, mas de repente aquela paz poderia se converter em um caos selvagem que se organizava no balançar dos corpos e dos sonhos. Eu aprendi a sonhar ali, entre os bairros, ouvindo e vendo aquelas pessoas.
Sonho era o que Maria tinha: o que queria mesmo no amigo-secreto era arrumar um amor. Depois de toda a resenha e da troca de presentes entre os passageiros costumeiros – eu ganhei um livro que carrego comigo sempre que viajo, a poesia de Pessoa -, percebeu-se no ar uma palavra ou outra, mais carinhosa, um olhar que crescia dentro de seu próprio eixo. É que apareceu José, um rosto novo. Depois foram as balinhas no saquinho, os bilhetes em papel perfumado, o pedido de namoro sob a luz das telas de celular. E, por fim, ajoelhado, anel, silêncio dos falantes, música de fundo e uma parada estratégica na frente do Dique do Tororó, com os Orixás e sua iluminação noturna, veio a clássica pergunta seguida do “Sim, eu aceito!”. Aí Salvador veio abaixo: cabeças para fora nas janelinhas dos outros coletivos, toda a gente nas ruas, os carros, os pedestres. O instante suspenso que regia a vida dizia que a grandeza das coisas só pode ser medida pelo sonhar.
Sinal verde. Volto ao presente com os carros atrás buzinando. Volto e me vou.


