
Figurar um mundo desconexo: entrevista com Ismar Tirelli Neto
Em entrevista para o n30 da revista O Odisseu, Ismar Tirelli Neto fala sobre os aspectos temáticos e formais de sua nova obra poética, Me pergunto quem são. Leia trecho inicial da entrevista gratuitamente.
Foto: Luiza Sigulem/ Divulgação.
Ismar Tirelli Neto (Rio de Janeiro, 1985) se prepara para lançar Me pergunto quem são (Editora 7Letras, 2026), o nono livro de sua carreira. Seus poemas partem da inadequação como maneira de estar no mundo, sobretudo diante do cinismo e da violência de concepções idealizadas de cidadania, relacionamento, saúde e trabalho. Formalmente, constrói métricas tão inusitadas quanto seus personagens, burilando desde estilos mais prosaicos até a colagem, numa dicção, a um só tempo, distinta e comprometida com o ritmo. O seu interesse pela catástrofe, assim, está bem longe da rigidez, coligando formas bastante elásticas a um humor de temperatura variante. No tratamento da domesticidade ou da vida pública, dimensões que marcam um regime interessado por micro e macroescalas, a obra de Ismar é um lembrete de que lidar com o desajuste e a debilidade pode ser algo sorrateiro, entretanto permite observar o mundo em suas camadas de dissimulação. Nesta entrevista, demos uma quantidade absurda de risadas e falamos sobre os aspectos temáticos e formais do lançamento.
Ismar Tirelli Neto: “Corro o risco de parecer meio formalista quando, na verdade, eu sou um zero à esquerda em termos de tecnologia do poema”
nilson: Bem-vindo, Ismar. Vamos começar com a pergunta da audiência, que eu estou adorando que seja o primeiro quadro aqui das entrevistas. A pergunta de hoje é da Júlia Manacorda: Por que levar apenas um Kenneth Koch para uma viagem?
Ismar Tirelli Neto: Tá. É que, quando ela esteve comigo da última vez, eu ainda estava em processo de arrumar as malas. Eventualmente foi mais coisa, mas sim, foi há dois anos e viajei por conta de uma bolsa de criação. Um período bastante conturbado da minha vida. Eu passava por questões de saúde e alucinava de dor o tempo todo. Eu tenho uma artrite autoimune, atualmente sob controle. Só que, naquele momento, eu não tinha ainda o diagnóstico e estava à mercê de dores incapacitantes enquanto organizava essa viagem e tentava me livrar da minha biblioteca. Eu voltaria e não teria mais casa; estava me desfazendo do apartamento. Caos. Fiz um bazar e a Júlia foi. E lembro que ela levou umas Grace Paley, inclusive.
n: Sim, até sei quais são, ela já me mostrou. Tinha umas perguntas mais sacanas também, como “qual seu Ashbery favorito?” e eu disse que não ia te perguntar isso.
ITN: Talvez porque seja o Glazunoviana, do Some Trees (Yale University Press, 1956), mas tudo bem…
n: Ok, agora sim agradamos a audiência. Foi bom você falar da Grace Paley. Eu percebo que os seus primeiros trabalhos tinham um tom mais prosaico, compreende? Não só um tom, formalmente era mais prosaico mesmo. Em algum momento da sua carreira, acho que você deu uma abandonada nisso e agora, no Me pergunto quem são, há algumas retomadas. Queria entender como foi esse movimento.
ITN: É curioso porque eu acho que também dá para pensar essas questões em relação com o entorno. Quando a minha geração [tosse] estava começando a se manifestar, havia, acho, um certo impulso… não quero dizer de rebeldia, mas, pelo menos, de contestação em relação àquilo que a gente percebia como a tônica dominante de uma geração pregressa, que era um trabalho de linguagem encruado, muito voltado para si e para questões propriamente de linguagem. Então, a minha geração (e acho que não é descabido formular as coisas de forma tão esquemática assim) queria acrescentar dados de cotidiano, vivências um pouco mais imediatas, uma expressividade que, de alguma forma, convida à prosa. Talvez uma prosa mais de crônica, não tão preocupada com narrativa, mas preocupada com uma certa clareza de situação. E isso eu acho que definitivamente se perdeu no meu trabalho.
n: Você acha? Eu acho que você mantém algumas coisas, como um senso de domesticidade e de intimidade que ainda comparecem nesse livro novo, entende?
ITN: É, essas coisas não se perderam. Isso, de fato, participa de um certo núcleo de obsessões em termos de figuração, mas eu tenho a impressão de que, pelo menos nesse primeiro momento, havia uma maior preocupação da minha parte em me fazer entender e, por conta disso, um certo recurso à prosa ou a procedimentos identificados à prosa. É curioso porque acho que, com o passar do tempo, eu me tornei uma pessoa muito sozinha, muito isolada, mas tento prestar alguma atenção no que está se passando ao meu redor e a situação muda muito desde esse início. Parece que o discurso prosaico agora tem se tornado a tônica dominante, de tal modo que penso que a nossa influência em termos geracionais foi um pouco tóxica [risos]. Existe uma perda de felicidade no sentido dos encontros inesperados de vocábulos e de formulações mais faiscantes, sabe? Corro o risco de parecer meio formalista quando, na verdade, eu sou um zero à esquerda em termos de tecnologia do poema, mas me parece que o conceito de verso inexiste em alguns trabalhos e desconfio muito de certos conceitos de frase. Percebo uma expressividade que está muito a serviço de um certo conteúdo… À medida que isso foi crescendo ao meu redor e, de alguma forma, se estabeleceu como diretriz ou como normativa, me deu uma puta vontade de tentar caminhar para o lado contrário, pensar mais o que é específico da poesia e deixar o discurso prosaico para quando eu escrevo prosa. A gente estava falando da Grace Paley e ela é uma das favoritas daquela autora Gabrielle Lutz, que tem um ensaio muito foda chamado A frase é um lugar solitário. Basicamente, ela coloca a frase como um espaço de detenção. Quando se escreve, é grande a tentação de você querer dar cabo de uma frase para poder ir para a outra. O que a Lutz fala é de como as palavras de uma frase podem acabar de alguma forma se familiarizando e fazendo parentesco, de modo a construir um todo equilibrado e escultórico. Desculpa a digressão, mas isso tudo para dizer que até o prosaico me parece que também poderia ser muito mais burilado.
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