Entrevistas

Josélia Aguiar: “Djanira se espanta com um Brasil com o qual o próprio Brasil não consegue se espantar”

Em conversa para a revista O Odisseu, Josélia Aguiar conta um pouco dos bastidores da escrita da biografia de Djanira, uma das intelectuais mais emblemáticas das artes visuais brasileiras. Leia trecho gratuitamente.

Foto: Djanira e seus cães na praia de Corumbê, em Paraty. Foto do arquivo e pesquisa de Josélia Aguiar.


Foi na atmosfera ainda reverberante da Fligê 2025 que acompanhei, pela primeira vez, a escuta atenta das palavras de Josélia Aguiar, ao vê-la transitar entre “rios e matas na literatura de Jorge Amado” e os intrincados dilemas sobre “como se faz para escrever uma vida”. Transcorridos alguns meses daquele encontro presencial, nosso contato se renova agora à distância, desdobrando-se no diálogo sobre o seu mais novo empreendimento biográfico dedicado à pintora Djanira. O projeto surge como um movimento instigante de continuidade e deslocamento na trajetória da pesquisadora que, após se debruçar sobre a monumentalidade de um arquivo de proporções transoceânicas, volta seu olhar para uma criadora fundamental que viveu entre o grande prestígio público e o subsequente apagamento histórico.

Iniciada em 2016 a partir de um “entusiasmo bastante acima da média”, a investigação sobre a artista exigiu de Josélia um posicionamento narrativo bastante distinto daquele adotado para Jorge Amado. Diante de registros documentais mais fragmentados e de uma vida moldada por profundas vulnerabilidades sociais, a escrita biográfica precisou aprender a contornar opacidades constitutivas, interpretando os vazios não como meras falhas de arquivo, mas como escolhas da própria Djanira, a partir desse olhar de uma mulher que procurou construir e preservar sua presença no mundo. Nesse processo paciente de desvelamento, em que a personagem vai se revelando aos poucos como se estivesse guardada em um casulo, a pesquisa ultrapassa a reconstituição factual para compreender como marcadores de raça, classe e gênero atravessaram a construção de uma produção artística de força inconfundível.

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Casa de Djanira em Corumbê, Paraty, atualmente. Devorada pelo mato. Foto: Arquivo e pesquisa de Josélia Aguiar.

A própria estrutura do livro abandona o formato linear e assume uma dinâmica espiralar, retornando insistentemente às perguntas sobre vocação, reconhecimento e os caminhos que fazem alguém permanecer ou desaparecer da memória cultural de um país. Sob essa perspectiva, Josélia sublinha que a vasta obra pictórica de Djanira deixa de ser observada apenas como um objeto de análise estética para se converter em um indispensável documento biográfico, no qual cores, formas e mudanças de técnica revelam afetos, trajetórias, geografias e relações humanas que ajudam a preencher lacunas do passado. A articulação entre a análise técnica e os sentidos provocados pelo contato com os vestígios da pintora demonstra que o rigor documental e a sensibilidade afetiva caminha de mãos dadas no fazer literário.

Nesta conversa para O Odisseu, Josélia Aguiar detalha os bastidores dessa escrita dedicada a desvendar as ambivalências e os mistérios de uma das intelectuais mais emblemáticas das artes visuais brasileiras. Da luta pioneira contra a falsificação de seus quadros à devoção religiosa manifestada nos anos finais de vida, a trajetória de Djanira emerge como um espelho provocativo para o próprio país, revelando as contradições, as hierarquias veladas e as belezas de um Brasil que muitas vezes precisa reeducar o próprio olhar para reconhecer a grandeza de suas criadoras.

Josélia Aguiar: “O que faz alguém vingar ou desaparecer?”

Josélia Aguiar em Corumbê, em pesquisa para a biografia de Djanira.

Nélio: Transitar de Jorge Amado para Djanira é um movimento claro de ler a história à contrapelo, voltando o olhar para uma figura menos popular, mas fundamental para a nossa memória. Considerando que muitas biografias nascem de uma pergunta fundamental, aquela que orienta a investigação e distingue uma pesquisa de tantas outras possíveis sobre o mesmo personagem. No seu caso, qual foi a questão que inicialmente norteou a pesquisa sobre Djanira? Ao longo do trabalho ela permaneceu a mesma, ou as próprias fontes e descobertas acabaram redirecionando o percurso da investigação?

Josélia: A depender do lugar de onde se observa, Jorge Amado também nos leva a uma história a contrapelo: ele não é apenas um escritor do nordeste brasileiro, como também é um escritor que se dedica a trazer o seu território multirracial para os romances. Djanira também se interessava pelo Brasil popular. A visibilidade que ela teve entre as décadas de 1940 e 1960 foi notável, claro que em proporção muito diferente da dele. A certa altura passou a viver muito bem da venda de seus quadros e teve prestígio em seu grupo de artistas e intelectuais, o mesmo de Jorge Amado, aliás – sobretudo no Rio. Enquanto fazia o livro sobre Jorge Amado, acordei um dia com Djanira na cabeça. Ainda não tinha uma pergunta formulada, era mais um entusiasmo bastante acima da média. O que entendi, mais adiante, é que podia cercar muitos mistérios da natureza humana a partir de sua trajetória: a vocação de alguém é algo que já se carrega desde a infância, ou algo construído como uma espécie de decisão que se toma? É possível alguém se fazer sozinho? E, se não, o quanto depende da simpatia dos outros? O que faz alguém vingar ou desaparecer? Essas são perguntas que decidi dirigir a essa artista brasileira do século XX, entendendo que o jogo da pesquisa e escrita se tornaria bastante desafiador.

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