Crítica Ficção estrangeira

A planta carnívora que nasceu da semente amarga: uma resenha de Terra de Empusas, de Olga Tokarczuk

 Novo romance da autora polonesa, ganhadora do Nobel de Literatura em 2018, parte do clássico de Thomas Mann para desafiar a hegemonia masculina. 

Capa: Łukasz Giza/ Reprodução


Quando comecei a ler Terra de Empusas (Todavia, 2026), o novo livro da polonesa Olga Tokarczuk, fiquei com receio de que a tarefa acabasse exigindo a leitura do calhamaço A Montanha Mágica (1924), o clássico de Thomas Mann. Isso porque a premissa do primeiro é justamente retomar o mote do segundo.

A autora nos embala no encalço de Mieczyslaw Wojnicz, um jovem estudante de engenharia de esgotos que sofre de tuberculose e está chegando a um sanatório localizado nas montanhas da região de Göbersdorf, na Polônia. Estamos no começo do séc. XX, em 1913, e ainda não há vacina para este mal. As esperanças medicinais apostam no ar puro, no repouso e em atividades como passeios e ingestão de doses homeopáticas de bebidas alcoólicas – tudo para ajudar o corpo a lutar contra a invasão fatal do bacilo de Koch.

Olga Tokarczuk, ganhadora do Nobel de Literatura em 2018, está apostando alto ao erigir seu projeto literário sobre uma espécie de paródia – regada com uma dose cavalar de ironia – de um cânone da literatura. Em A Montanha Mágica, o já engenheiro e também tuberculoso Hans Castorp mergulha em uma jornada de sete anos de tratamento em um sanatório. Ali, entre diálogos filosóficos e espirituais, ele e outros doentes examinam a fundo a sociedade europeia daquele tempo, seus costumes e as novas ideias a respeito de Deus e da humanidade. Olga toma essa ideia emprestada, mas transfere o sanatório da Suíça para o seu país, recriando na ficção o famoso espaço terapêutico criado por Hermann Brehmer, um influente médico alemão considerado o pioneiro no tratamento moderno da tuberculose .

Depois de avançar pelo menos um terço do livro de Olga, percebi que não apenas Terra de Empusas dispensava a leitura do clássico de Mann, mas também usava seu enredo como semente para plantar uma história anômala e potencialmente carnívora. A autora veste bem a roupagem de importância que o Nobel lhe trouxe, compondo uma trama inteligente e afiada ao abordar, com elegância e frieza, a forma de pensar misógina. Ela torce, de tal modo, a visão masculina do mundo, que parece mais importante ler o romance  duas vezes do que correr ao clássico para entender sua citação. O livro é um gesto de desafio, como disse Didier Jacob, do Le Nouvel Observateur, na contracapa da edição brasileira. E eu acrescentaria que é uma jogada daquelas em que se aposta tudo para ganhar de vez a partida.

Nosso Wojnicz se instala em um pensionato enquanto segue com os tratamentos e consultas, já que há uma fila de espera para as vagas internas no sanatório. Ali, vê-se na companhia de seis homens, quatro deles pacientes, além do proprietário do lugar e seu ajudante. A princípio, teríamos também uma mulher, Klara,  esposa do proprietário,  Opitz, mas ela amanhece morta por um suposto suicídio no segundo dia da estadia de Wojnicz.

Aos poucos, somos inseridos em uma atmosfera filosófica, amadeirada e esfumaçada. Homens cultos e importantes em seus ramos de atuação também são doentes que não poupam suas gargantas em longas conversas no jantar, ou durante passeios terapêuticos. Tokarczuk se dedica a nos mostrar como esses homens cheiram mal, tossem e elucubram ideias sobre o mundo e, especialmente, suas visões a respeito das mulheres. Entre as discussões estão a proximidade imanente da mulher com a natureza e sua distância da racionalidade. Um deles chega a dizer que as mulheres não pensam como nós, os homens, mas nos imitam a ponto de serem muito convincentes. Eles comem, fumam e tossem enquanto conjecturam sobre o tamanho dos cérebros de suas mães e babás, chegando a questionar se elas são ou não, pessoas. Lukas, apresentado na lista de personagens como “católico e tradicionalista”, é um dos mais vorazes no ataque aos seres “inferiores” e também reproduz ideias de raça e de superioridade ainda no começo do séc. XX afundariam mais a Europa em um lamaçal de crimes contra a humanidade.

Wojnicz, por sua vez, é um personagem belo e profundo. Aos poucos, descobrimos como é sensível, tendo sido julgado como afeminado desde a infância. Torturado por seu pai, que o fazia passar por testes e provações para fortalecer seu lado macho, trancou dentro de si os carinhos doces que recebia da governanta na infância. Aos poucos, compreendemos uma relação com o feminino violentada desde cedo. O rapaz, cuja mãe morreu no parto, ainda guarda um espírito afetuoso e alegre, sensível e até mesmo ingênuo. Se rebela quieto dentro de máscaras torneadas em bons modos, invisíveis e escancaradas. Ele transpira uma força reprimida que se revela durante o livro como uma flor que se abre em câmera lenta. Descobrimos a sua sensibilidade quanto mais ele se aproxima de Thilo, um jovem estudante de artes que tem sua estadia no sanatório sustentada por um rapaz de quem é amante. Pobre alma perdida naquele purgatório, é Thilo quem também começa a revelar mistérios que tensionam a história de forma sorrateira até seu clímax.

A autoria de Olga Tokarczuk é gigantesca. Uma vencedora do Nobel de Literatura, que elabora de forma nua e crua, em prosa virtuosa, personagens que exprimem sistematicamente a base do pensamento misógino. A jogada de mestre fica ainda mais poderosa quando consideramos que Olga deliberadamente fez seus personagens parafrasearem ideias reais de autores que englobam épocas e campos de pensamento completamente diferentes, mas cujas percepções a respeito da mulher se mantêm alinhadas independentemente do anacronismo. No final do livro, uma nota da autora traz a lista completa dos homens parafraseados na boca de seus misóginos: vamos de Santo Agostinho a William Burroughs, de Émile Durkheim a Ezra Pound, de Friedrich Nietzsche a Platão. Não à toa, os homens na hospedaria também falam de gregos, de Deus e do diabo, discutem democracia e filosofia, enquanto bebem um licor feito de cogumelos com efeitos alucinógenos, bebida cuja importância no romance só cresce à medida que ele avança. 

No estilo, Olga saúda e, ao mesmo tempo, eviscera a literatura canônica, sem deixar de inserir-se nos ecos do romantismo, pincelando, com sabores góticos, a sua prosa sempre muito nítida e, talvez por isso mesmo, tão tocante. Ainda assim, Terra de Empusas pode causar uma boa dose de chateação e, em alguns momentos, chega a se tornar um pouco enfadonho, especialmente quando a misoginia e a política acabam se alongando naquele ambiente sufocante. Nesse sentido, já é um livro de horror, com muitos momentos de desconforto.

Tokarczuk já explorou o formato do thriller em seu Sobre os Ossos dos Mortos (Todavia, 2019), famoso por um plot twist avassalador e trama complexa. Aqui, acompanhamos os passeios noturnos destes homens que parecem dormir mal, enquanto arranhões e grunhidos soam sem sentido no sótão da hospedaria. Também ouvimos boatos noturnos sobre mortes misteriosas na floresta, incluindo pacientes do sanatório. O tom de mistério vai sendo ampliado graças à narração, que é feita no plural e por vozes femininas que, por vezes, se deslocam das personagens, comentam a história e operam movimentos que articulam pontos de vista inusitados, transitando entre os espaços e repletas de intencionalidade.

O recurso narrativo, além de equilibrar a ausência de mulheres no cerne da trama e a constante degradação delas pela tradição intelectual daqueles homens, nos dá o vigor e o compasso necessários para mostrar que, ao menos desta vez, são elas que contam a história dos misóginos. É evidente, no decorrer do livro, que vemos tudo acontecer pelos olhos das mulheres. Além disso, as vozes que narram ganham função ainda mais ampla na história, já que as Empusas, bruxas que dão título ao livro, foram perseguidas e mortas naquela região no séc. XVII. Acredita-se que muitas delas teriam fugido para os bosques e florestas sem nunca retornar. Quando Thilo começa a falar que a paisagem ali é assassina, sentimos a presença destas sacerdotisas e guardiãs, cujas vozes ecoam nos bosques e arranham os telhados. 

O final do livro começa a oferecer um plot twist capaz de adoçar um pouco a leitura, ainda que para apreciar tenhamos que gostar do sabor agridoce. A fórmula do suspense é aplicada com uma habilidade fluida e livre, ao mesmo tempo em que opera verdadeiras metamorfoses que brotam das páginas. O tom beira o psicodélico e me lembrou até mesmo o da literatura travesti de Camila Sosa Villada. É bonito acompanhar como desabrocha a relação de Wojnicz com Thilo e também com Klara, a mulher “suicidada” no começo do livro e cuja memória o protagonista não deixa morrer.

A revelação que se dá através do mistério é múltipla e anômala. O instinto assassino dos homens, sua raiva e seu ódio pelas mulheres não têm outra direção senão a natureza – a natureza da qual eles são constituídos e da qual tentam desesperadamente se apartar, enquanto a desejam desesperadamente, a violam e vacilam para se justificar em palavras sem sentido. A vingança de Olga é muito menos contra seus pobres personagens, marionetes de grandes ideias, e muito mais contra a história do pensamento masculinista que engendra o feminicídio em suas mais variadas faces. Sentimos que a pequenez e o desejo de importância dos grandes homens estão distorcidos em miasmas que revelam o vazio de que são feitos. Quando nus, são pobres coitados, amedrontados e perdidos. 

A verdade do livro se escancara como em uma viagem enteogênica, capaz de romper as ilusões mais básicas e, por isso mesmo, tão perigosas. As Empusas, criaturas que mudam de forma, se misturam às sombras, aos galhos e às árvores, e têm sede de engolir e regurgitar a vida, são a natureza e a força de metamorfose que escorre do feminino como a seiva. Assim, Olga Tokarczuk vence gloriosamente o desafio que propôs a séculos de grandes homens.

Terra de empusas. Olga Tokarczuk. Tradução de Luiz Henrique Budant. Todavia, 2026, 336 pp.

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