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Faz-se caminho ao andar: lançamento da coleção ‘Abre Caminhos’ projeta novas vozes da literatura baiana

No dia 20 de agosto, foi lançada, de forma gratuita e virtual, a Coleção Abre Caminhos, que reúne livros de 16 estudantes cotistas da Universidade do Estado da Bahia, sob supervisão e curadoria da poeta Daniela Galdino. 

Fotos: Divulgação.


No mercado editorial contemporâneo, existe um empenho em descentralizar o campo literário, cujo locus sempre esteve concentrado nas regiões Sul e Sudeste. No entanto, autores do Norte e do Nordeste surgem e ganham espaço e, atualmente, com a implementação de políticas públicas voltadas para a cultura e a disseminação da literatura, esse espaço se configura como um campo cada vez mais plural, marcado pela presença de diferentes vozes e experimentações estéticas. 

Nesse caminho, a poeta baiana Daniela Galdino realizou a curadoria literária por meio do Programa de Arte e Cultura da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em parceria com a Fundação Pedro Calmon. Dessa parceria surgiu o edital Literaturas Negras e Indígenas da Bahia: a arte da palavra no risco da cor, que traça novas possibilidades e abre caminhos para autores estreantes.

Algo em comum entrelaça os dezesseis autores e autoras selecionados pela curadora: são estudantes cotistas (negros/as/es e indígenas) da UNEB. Daí surge a coleção Abre Caminhos, cujos livros, publicados pela Editora da UNEB (Eduneb), foram lançados na tarde do dia 20 de agosto, em formato e-book e com acesso gratuito, no terceiro andar da Biblioteca Central dos Barris. 

A coleção reúne uma constelação de autores contemplados com a publicação de livros de diferentes gêneros literários, que transitam pelo conto, pela poesia, pelas crônicas e pelos contos tradicionais (oriundos de narrativas orais de comunidades indígenas, quilombolas e de terreiro), que também apontam caminhos para o leitor compreender múltiplas vivências. Num breve relato, Nicolly Freitas, autora do livro As faces de fênix, abordou sua vida e a de outras mulheres trans como mola propulsora para a escrita do livro: “As Faces de Fênix é um misto de mim. É um livro que reúne poemas que dissertam sobre amor, escrita, ancestralidade, mulheridades trans, língua e linguagem, dores, dissabores, resistência e êxitos. É uma colcha de retalhos dos meus poemas, escritos desde a adolescência até hoje”.

Tom Santos, autor do livro Mergulhos poéticos, trouxe o conceito das águas para costurar seu livro de poemas, sem deixar de lado o entrelaçamento com a vivência LGBT+ e com a construção da capa, que dialoga com o que está no decorrer das páginas do livro: “Eu proponho uma jornada marítima que não apenas explora o universo aquático, mas também faz questionamentos à sociedade. A capa acaba ilustrando essa voz que surge nas performances e guia os poemas. Ela foi cuidadosamente ilustrada de forma a comunicar a essência do livro e das vídeo-performances, destacando esse corpo negro masculino, LGBTQIAPN+ e periférico, representando a figura de um jovem negro de cabelos loiros, o ‘pivete’ ou ‘muleke’, com o objetivo de desestigmatizar essa imagem associada à violência e aos estereótipos responsáveis pelo genocídio da juventude negra no Brasil”.

“Fazer parte da Coleção Abre Caminhos tem um significado muito especial para mim. A coleção reúne autores e autoras negros e indígenas e surge como uma política de valorização de vozes que historicamente tiveram dificuldade de acessar os espaços editoriais.”, diz Mailson Santos, autor de ‘Contos da memória de um preto’

Já para Mailson Santos, autor do livro Contos da memória de um preto, a literatura e a escrita dos 16 contos que compõem a obra foram importantes para entender seu lugar como um sujeito negro no mundo: “O próprio título carrega essa ideia. Durante muito tempo, ser preto foi algo que eu tentei esconder ou superar. Hoje, assumir essa identidade e escrever sobre ela é justamente uma forma de afirmar quem sou e de dizer que nossas histórias também merecem ser contadas”. 

Mailson Santos também pontua como a coleção é importante para dar voz a esses escritores e escritoras que, na historiografia da literatura nacional, são repetidamente relegados às margens e, por vezes, têm suas publicações interrompidas ou sequer concretizadas. Sobre a importância de compor a Coleção Abre Caminhos, ele afirma: “Fazer parte da Coleção Abre Caminhos tem um significado muito especial para mim. A coleção reúne autores e autoras negros e indígenas e surge como uma política de valorização de vozes que historicamente tiveram dificuldade de acessar os espaços editoriais. Para alguém que vem do interior da Bahia e que nunca imaginou, na infância, que um dia teria um livro publicado, ocupar esse espaço tem um significado enorme”.

Para além dos livros mencionados, a Coleção Abre Caminhos é composta por Apesar de amor e outros poemas, de Vilebaldo Santos de Jesus; As aventuras de Dandara, de Allane Mendes de Oliveira; Cartas de um caboclo apaixonado e outras prosas poéticas, de Jota; Chakras (des)alinhados, de Bárbara Taiane; Contos que contam: entre ser e não ser, existimos e resistimos, de Cleidson Alves Rosa; Escrevivências da cor, de Valterlucia Alves Martins; Em cada olhar uma crítica social, de Telma Maria de Jesus Santos; Negra rainha, de Vânia Maria Santos Lima Araújo; No silêncio do sentir: rascunhos da vida, de Roquilene Batista de Jesus; Payayágrafia, de Kota Botafogo Payayá – Marilene Pereira de Jesus; Poesia da alma: do choro ao sorriso, de Fábio Pereira Santos; Suniatá’xó Pataxó: awê-heruê pataxó, de Paulo Vitor Santos de Oliveira; e Voltar, de Gabriel da Paixão Oliveira. 

Para fazer a leitura dos livros de forma gratuita, basta acessar o site da Editora Eduneb, onde está disponível uma página dedicada à Coleção Abre Caminhos