
Leda Maria Martins: “Eu sempre fui uma pessoa da voz e da palavra – no estado escrito e no estado oral”
No segundo dia do Melanina Acentuada – Ano VIII, a intelectual Leda Maria Martins passeia por sua trajetória pessoal e acadêmica, abordando a estreita relação entre vida e pesquisa, corpo e performance, poesia e escrita.
Foto: Laboratório Z (Divulgação).
No segundo dia do Festival Melanina Acentuada, em sua oitava edição, a programação da tarde contou com a primeira Entrevista Pública do evento, que foi com a intelectual Leda Maria Martins, mediada pelo autor, ator e produtor Tom Borges. A pesquisadora mineira, um dos principais nomes dos estudos sobre teatralidade e performance negras no Brasil, pesquisou, em sua tese de doutorado, o Teatro Experimental do Negro (TEN), cujo idealizador, Abdias do Nascimento, é homenageado nesta oitava edição do festival. A tese de Leda Maria Martins, posteriormente publicada em livro pela Editora Perspectiva sob o título de A cena em sombra, apresenta um estudo comparado entre as teatralidades do Brasil e dos Estados Unidos. Ao analisar as peças brasileiras, a autora dedica especial atenção às produções do grupo fundado por Abdias do Nascimento, como a peça Sortilégio.
Após a entrevista, aconteceu o lançamento do livro mais recente da autora, finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico. Na obra, Leda Maria Martins retorna aos seus principais conceitos teóricos, discutindo as relações entre corpo, oralidade e literatura (oralitura) nas expressões culturais negras, além de analisar textos teatrais produzidos do pós-abolição até a contemporaneidade.
Quando a conversa se direciona para sua trajetória pessoal, a pesquisadora destaca a importância de ter, desde a tenra infância, um diálogo entre a oralidade e a escrita, experiência que contribuiu para sua formação intelectual.
“O corpo-tela é gnose, e também é sofia”, explica Leda Maria Martins no festival Melanina Acentuada

A partir desse mote, Leda falou sobre sua infância no Rio de Janeiro, seu estado natal, sobre a mãe, que era passista, e sobre como o samba (um saber de cultura Bantu) foi fundamental para sua posterior inserção no Reinado, manifestação na qual hoje exerce a função de Rainha.
A pesquisadora também atestou que existe uma modificação no entendimento do corpo negro quando ele é pensado a partir das expressões culturais e artísticas desse coletivo, distanciando-se da concepção moderna e ocidental de corpo. Como concluiu: “O corpo como lugar do júbilo. O corpo como lugar de conhecimento é diferente do corpo sacrificial europeu”.
Ao final da entrevista, o mediador pediu que a autora comentasse alguns de seus principais conceitos teóricos. Leda Maria Martins passeou por contribuições como a encruzilhada, desenvolvida no livro A cena em sombra; o tempo espiralar, presente em Afrografias da memória; e o conceito de corpo-tela, elaborado em Performances do tempo espiralar. Sobre esse último, explicou: “O corpo-tela é gnose, e também é sofia”, ou seja, produz conhecimento por meio de suas múltiplas performances.
A programação encerrou o segundo dia do Melanina Acentuada – Ano VIII. Nos próximos dias, o evento continuará voltado às produções artísticas, tendo como um de seus principais eixos a celebração dos 80 anos do Teatro Experimental do Negro.
Para mais informações e acesso ao cronograma completo, com locais e horários das atividades, consulte o Instagram do evento @melaninaacentuada.

