
Verônica Coral: ‘Escrever foi um processo difícil e doloroso’
Em entrevista à revista O Odisseu, Verônica Coral, autora de “Os Jardins”, fala de como se deu o processo de criação do seu primeiro romance.
Verônica Coral demorou 26 anos anos para terminar a trilogia que abre com o romance “Os Jardins”. No meio de tudo isso, ela, que é professora de língua portuguesa e redação, passou por momentos densos, como a depressão e a crise de pânico. Neste sentido, a literatura também surge como uma espécie de elaboração e de vazão aos sentimentos. Em seu primeiro romance da trilogia, “Os Jardins”, a autora nos apresenta personagens complexos e questões existenciais densas.
A narrativa tem no centro a personagem Mia Duram, uma mulher brasileira que sofre um acidente grave na França e precisa retornar ao seu país, o Brasil, para buscar meios de seguir com a vida. Esse recomeço é marcado por descobertas de dores inconscientes e afetos atravessados. Para a revista O Odisseu, a escritora conta que se esforçou para fazer personagens que fossem reais e complexos, que trouxe referências d’A Divina Comédia e que se manteve guiada por uma escrita filosófica.

“Não consigo focar só na luz, eu enxergo as sombras das personagens”, diz Verônica Coral
Em “Os Jardins”, você nos oferece personagens multiformes, complexos e contraditórios. Conta um pouco como foi o desenvolvimento, em especial, de Mia e Maicon.
Em “Os Jardins”, apesar de ser ficção, eu quis deixar as personagens o mais humanas possíveis e, por consequência, são contraditórias e complexas, como nós, na vida real, que muitas vezes precisamos nos entender de diversas formas, como com terapia, por exemplo. Diante disso, decidi que a força deles estaria em ser verdadeiros. O processo durou cerca de 26 anos, pois a história foi escrita aos poucos em seus primeiros esboços. Mia surge em 2011 e Maicon em 2014, como uma forma de libertá-la das amarras sociais que Henrique representa.
A narrativa passeia entre temas muito densos, entre eles o luto, a perda de identidade e a violência psicológica. Foi, em alguma medida, também denso para você escrever sobre esses temas?
Em absoluto, foi um processo extremamente difícil e doloroso. A cada capítulo, eu tinha crises de choro ao terminar, porque sabia exatamente o que eles estavam sentindo e foi como desenterrar raízes e arrancá-las. No entanto, eu acreditava que era preciso enfrentar esse caos interno para dar voz a quem também passa ou passou por situações parecidas.
Na obra você abre muitos diálogos intertextuais com outras obras importantíssimas da literatura mundial, mas um deles se destaca, que é “A Divina Comédia”. De onde veio a ideia de trazer essa referência.
Em “Os jardins”, “A Divina Comédia” é a base estrutural, pois desenvolvi o livro em três momentos: inferno, purgatório e paraíso, assim como toda a trilogia que contém: “Os jardins”, “O espelho” e “A floresta”. No entanto, caberá ao leitor decidir em qual estrutura de interpretação cada uma pertencerá.
Não direi que foi uma ideia, pois a inspiração nasceu de forma orgânica. Em 2022, eu estava em depressão pelo luto, e o único livro que li e me enxerguei nas cenas foi a Divina Comédia, as outras histórias ou músicas etc, me davam crise de ansiedade e pânico. Portanto,quando voltei a escrever Os jardins em 2025, cada cena era visualizada na minha mente, como na Dante Alighieri. Costumo dizer que Dante gritava aos meus ouvidos o tempo todo.
Outro ponto é que a intertextualidade é muito presente em minhas aulas de português e quis trazer essa dinâmica para aproximar o leitor dos clássicos de forma contextualizada.
A música também estrutura a obra. Baseei-me em L’Inverno, de Antonio Vivaldi, que integra As Quatro Estações e é estruturado em três movimentos. Os Jardins também se constrói em três diferentes momentos emocionais. A música percorre a intensidade do frio e da tempestade, a serenidade contemplativa e o retorno ao movimento. O romance atravessa o silêncio, o abismo e a esperança.
A propósito, quais foram as leituras e obras que te inspiram enquanto autora?
Costumo ler muito e estilos diferentes. Me identifico muito com o Machado de Assis, com Eça de Queiroz e Dostoievski. Mas em termos narrativos, a literatura inglesa me atrai com Thomas Hardy.
Sou apaixonada por Quarto de despejo também, no entanto a forma como Hardy escancara a hipocrisia da sociedade me fascina.
Atualmente ando gostando de Bram Stoker e Jane Austen, mas Graciliano, Drumond, vivem no meu imaginário, pois formaram meu repertório desde a adolescência. Para ser honesta, nesta fase da minha vida, me identifico com os Russos.
Na narrativa, noto que há uma carga bastante psicológica também e, por vezes, se aproxima de outros gêneros, como o suspense ou o terror. Foi proposital?
Sim. Para além do suspense e terror, a estética gótica me atrai, assim como o silêncio do medo. Tudo foi planejado para a estrutura da trilogia. Não consigo focar só na luz, eu enxergo as sombras das personagens. Gosto de dizer que o começo dos Jardins aquece como um abraço e depois sentimos um frio que não passa. Esse é o verdadeiro suspense do meu livro, quem sorri, nem sempre está sorrindo e nem tudo é o que parece ser.
Ao mesmo tempo, também há algo de muito filosófico e quase espiritual no livro. Sinto que existe uma tensão entre o sentido das coisas e a própria existência. Faz sentido para você?
Sim, a minha intenção é realmente essa, causar uma inquietação pela busca de verdades interiores como fé, amor, lealdade, persistência e significado. “Não podemos passar ilesos pela vida e o que nos fere, nos transforma.”
O romance é baseado nessa filosofia: Se eu esquecer quem fui, sou outra pessoa? Se eu fizer outras escolhas, as minhas consequências mudariam ou eu ficaria feliz com o que tenho, mesmo que tenha sofrido pelo caminho?
Veremos isso no Livro 2 com mais força.
Causa, consequência ou destino ? O que faço com isso? Como lido com minhas frustrações? Eu sou um agente transformador ou mero ratinho nas roletas do sistema que vivemos?
Nosso leitor vai refletir sobre isso.
Um romance pode ser um gênero super desafiador, e você estreia justamente com esse gênero de narrativa longa e, ainda por cima, o início de uma trilogia! Em algum momento o gênero te deixou um pouco intimidada?
Em nenhum momento, porque é meu gênero favorito para ler e escrevo romances desde os 13 anos. Além disso sou professora de redação, leitura e português, já estou acostumada a lidar com as dificuldades e relutância para leitura e justamente por isso, vou nadar contra esse movimento da sociedade apressada, que quer tudo mastigado.
Após a leitura de “Os Jardins”, o que os leitores podem esperar dos próximos números da trilogia?
Os leitores podem esperar um mundo diferente, onde eles mesmos terão que montar esse quebra cabeças até chegarem à verdade.
O espelho vai exigir coragem para enfrentar os demônios internos causados por identificação.
A floresta vai nos curar, desenterrar o que está escondido e desmontar máscaras.
O inferno, purgatório e paraíso. São respostas que caberão ao individual, pois cada um de nós enxerga a vida de uma forma.

Os Jardins, de Verônica Coral
Kotter Editorial, 2026.

