
Passeio entre tempos, passeio entre realidades: Sobre ‘Lá é o tempo’, de Maria Fernanda Maglio
Em Lá é o tempo, Maria Fernanda Maglio maneja os mistérios da escrita e traz à tona temporalidades outras, em que narrar é primordial para entender o que veio antes e o que ainda virá.
Foto: Renato Parada (Divulgação).
Quando foi convidada para discursar no Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria, realizado em 1975, em Bogotá, Clarice Lispector preparou duas versões da conferência “Literatura e Magia”, na qual associava o ato de escrever a algo místico e transcendente e apontava a relação entre inspiração e magia, temas recorrentes no campo literário. A primeira fala, mais breve, foi seguida pela leitura do conto “O ovo e a galinha”. A segunda, um pouco mais extensa, estabelece uma relação entre magia e cotidiano a partir de situações que ocorrem em sua vida. Uma chuva acompanhada de ventos fortes que a teria limpado energeticamente ou o momento em que, após pedir a Deus um sinal de paz num dia caótico, abre os olhos e encontra dois pombos.
A conferência sintetiza a ideia de uma magia que está próxima do sujeito, nesses sinais corriqueiros que atestam determinados desejos e desaguam no ato de criar. Em conclusão à parte mais ensaística de sua fala, Lispector afirma: “Escrever, e falo de escrever de verdade, é completamente mágico”. A magia está ali, costurada à sua produção literária, às personagens e às situações que alinhavam os enredos de seus contos, romances e crônicas.
Essa magia é o meu ponto de partida para elaborar uma leitura crítica do segundo romance de Maria Fernanda Maglio, Lá é o tempo (Todavia, 2026). A autora paulistana venceu o Prêmio Jabuti em 2018, na categoria Contos, com “Enfim, Imperatriz” (Patuá, 2017), e venceu o Prêmio Literário Biblioteca Nacional, em 2020, com o livro de poemas 179. Resistência (Patuá, 2019). O mais novo romance sucede Você me espera para morrer? (Patuá, 2023).
Na obra lançada em 2026, a narrativa apresenta dois momentos e múltiplas temporalidades entrelaçadas. No primeiro deles, que funciona como fio condutor do romance, o leitor acompanha André, um menino de 13 anos que recebe, na escola, a notícia do assassinato do mecânico Salu. Os dois mantinham uma relação de amizade fundamentada no aprendizado, já que André passava as tardes na oficina auxiliando Salu no ofício com os carros. A causa da morte é atravessada por rumores e fofocas; alguns dizem que Salu se envolveu com uma mulher comprometida, outros, que devia dinheiro a traficantes. O principal suspeito é Tino Lino.
Três meses depois, o suspeito é morto por sete tiros. Quem o mata é André, preso ainda nas imediações do crime. Levado para a Febem, posteriormente, mata a si mesmo. Sua morte também envolve incertezas, versões contraditórias e descrédito em torno das circunstâncias do ocorrido.
Acoplada a esse primeiro núcleo, surge a história de um escritor, narrada em segunda pessoa. Trata-se de alguém que, no passado, passava o tempo entre a escrita e o consumo recorrente de cocaína, até conhecer a atual companheira e deixar a vida de escrita e drogas para trás, assumindo uma vida comum: trabalha como professor, volta para casa e frequenta aulas de pilates. Tudo muda quando, durante uma de suas idas à padaria para tomar café da manhã, o escritor encontra uma senhora que lhe pede comida. Ao receber o pão, ela diz que precisa contar algo.
A história narrada por essa mulher envolve André, a morte de Salu e a vingança culminada nos sete tiros. Fascinado pelo relato, o escritor decide investigar: abandona o emprego, se afasta da companheira, que pretendia ter filhos, e sai em busca da reconstituição dos fatos. Nessas partes do romance, o leitor acompanha uma narrativa com foco no escritor e nos depoimentos gravados de pessoas que, de algum modo, estavam envolvidas no caso.
Nem tudo é retilíneo. Existe algo de estranho, fatos perturbadores que borram as fronteiras entre a realidade e o tempo. A senhora que pede comida ao escritor reaparece em outros momentos. Há também a história de uma cabana na floresta, contada pelo tenente responsável pela investigação, um lugar que leva as pessoas para outra dimensão, colocando-as em contato com histórias de criação e destruição, passado e futuro. Além disso, há uma sessão de jogo do copo em que o espírito de Salu se manifesta e uma visita ao cemitério para rezar pela alma do morto.
Mistérios há de pintar por aí
A reflexão de Clarice Lispector sobre a relação entre magia e cotidiano – presente nesses pequenos atos que fogem de uma organização sistemática da rotina e que atravessam sua obra, a ponto de alguns críticos a classificarem como “realismo mágico”, fato mencionado pela própria autora – ganha eco nas elucubrações da professora de Escrita Criativa Hebe Uhart, reunidas por Liliana Villanueva em As aulas de Hebe Uhart (WMF Martins, 2024).
Entre as muitas dicas e exemplos apresentados no livro, um capítulo é dedicado à relação entre linguagem e mistério. Nele, Uhart defende que nem tudo na literatura precisa ser explicado. Existe aquilo que se chama de “sentido do mistério”, que se contrapõe e, ao mesmo tempo, se amalgama ao “sentido da linguagem”. Resumidamente, esse sentido do mistério pode ser encontrado em determinadas passagens que parecem se situar para além da linguagem, para além daquilo que está escrito. Como afirma a autora, certas imagens não estão acopladas ao real, mas o extrapolam, ganhando novas possibilidades interpretativas.
Maria Fernanda Maglio dilui o que é dito como real. A irrealidade transpassa personagens, espaços, temporalidades narrativas e os enredos que conectam André ao escritor. Ainda assim, esses elementos estão inseridos no cotidiano: o escritor está imerso na reprodução automática de sua rotina – sair de casa, ir à padaria, tomar café e trabalhar –, e isso é interrompido pela aparição da senhora pedinte.
E ela [a velha] demorou muito para comer, tanto tempo que o zumbido foi ficando mais e mais alto e suas pernas e seus pés, que agora tinham vontade própria, foram amolecendo. Você não dormiu, mas era como se tivesse dormido. Você estava em um lugar que não era mais a calçada, o cimento, era um quarto com paredes feitas de gordura e carne. Era escuro e salgado, e você estava submerso. (p. 20)
Outro exemplo dessa inserção do mistério no dia a dia surge no próprio título do romance. André percebe a palavra “Lá” escrita no teto da oficina de Salu. Já a expressão “é o tempo” aparece num banheiro de rodoviária, quando o menino, a caminho da Febem, entra no local.
A neblina que cobre o real está presente em toda a construção do romance, colocando em prática aquilo que Uhart identifica como “sentido do mistério”. Algumas imagens, passagens e personagens parecem exigir isso. É o caso da história da cabana, contada pelo advogado a partir do que ouviu do tenente, da idosa, dos homens que narram histórias imemoriais e de tempos vindouros com vozes de animais. Todos esses elementos refletem na busca do escritor por uma verdade e deságuam no desfecho de André, uma possível solução para os furos que sua narrativa procura preencher.
[…] É um círculo, entende? Um cachorro tentando pegar o próprio rabo, nunca vai alcançar, mas também nunca vai desistir. Isso não acaba, a todo momento o tenente tá na cabana e na mata, neste exato instante em que a gente tá aqui conversando o moleque tá em cima da árvore e também descarregando um trinta e oito na cabeça de um bandido e o tempo inteiro esse bandido tá morrendo e também matando o borracheiro e o borracheiro tá fazendo não sei o quê. A eternidade desse bandido é morrer com sete balas e matar o borracheiro e a eternidade do tenente é ficar preso na cabana e a do moleque é matar. Fico pensando na minha eternidade, a minha eternidade é ouvir essa história da velha, do fazendeiro, o sapateiro descalço, o tenente, o moleque, tudo isso. (p. 45)
Em ‘Lá é o tempo’, Maria Fernanda Maglio dilui o que é dito como real.
A linguagem e a estrutura do romance corroboram para que as fronteiras do real se diluam. Esse efeito ocorre de forma tão latente que se torna necessário para o ritmo da narrativa. A estruturação dos elementos contribui para uma leitura mais acelerada e enigmática. Os parágrafos curtos, o adiamento de informações importantes e a suspensão de respostas deixam o leitor em estado de expectativa para entender os acontecimentos e conectar as diferentes camadas da história.
Se o escritor procura um livro que não acontece, enquanto escreve e cheira pó, a linguagem contribui para que o leitor perceba o deslocamento dessa personagem, tanto em relação a si mesma – reforçado pelo uso da segunda pessoa – quanto diante dos acontecimentos que investiga. Por outro lado, as temporalidades se organizam de modo não linear. O romance começa com André descobrindo a morte de Salu, mas apenas próximo ao final é que o leitor se depara com o capítulo que narra a morte do menor assassino.
Para além desse tempo que vacila entre o passado e o presente, existe um tempo mítico que estrutura o romance. André e o escritor parecem inseridos num looping, um eterno retorno que evoca os pensamentos de Mircea Eliade. Esse choque entre temporalidades resulta nos mistérios que surgem na narrativa.
O mágico surge não como ornamento ou elemento acessório, mas como insumo para compreender o fazer literário. Há algo de mágico na escrita, porque ela rompe o ordinário representado e aproxima o lá e o cá.
André está de volta a um instante embrionário, um lugar no qual nunca esteve antes, ainda assim, é um regresso. Um prólogo que gesta palavras extintas e as que ainda vão existir, e também o silêncio. Um útero que forja e extirpa mecânicos, pilotos do globo da morte, meninos que matam, meninos que morrem, pastéis de quermesse, sapateiros descalços, balas de chocolate, chás de nomes impronunciáveis, personagens de videogame, espíritos, copos de requeijão, flores de cemitério, escritores, tenentes, carros que chiam e bolas de pilates. Uma fábrica de vida e morte. André está no estômago de um lugar que ainda vai existir. E ele não se lembra nem mesmo de que se chama André, de que é um menino de treze anos, de que tem dois braços, dois pés e um pênis que está vivo, mesmo que ele esteja morrendo. (p. 130)
Em Lá é o tempo, Maria Fernanda Maglio maneja os mistérios da escrita e traz à tona temporalidades outras, em que narrar é primordial para entender o que veio antes e o que ainda virá. O romance não explica tudo, e ainda bem que não explica. Em vez disso, deixa imagens, lacunas e um quebra-cabeça que convida o leitor a pensar, interpretar e decifrar as páginas lidas.

