
Nada vai embora acenando
A gente existe tanto na rotina que ela vai mudando tão aos poucos que mal sabemos dizer quando o típico virou memória.
Arte: ‘Batalha’, de Fábio Baroli.
Gostava mais de pique-bandeira do que de esconde-esconde. Achava mais emocionante. Sentia uma adrenalina diferente, fingia ser um soldado que iria resgatar a bandeira de sua nação no território inimigo em meio a uma guerra. Talvez tenha sido essa loucura das vozes da minha cabeça que me fazia entrar na brincadeira de forma tão séria que poderia até ser considerada boa. Imagina! Só que o pique-bandeira tinha uma logística de quantidade de pessoas e espaço muito complicada, ficava mais na escola. Em casa mesmo, o negócio era esconde-esconde. Só que em casa eu queria brincar de pique-bandeira, e na escola eu queria brincar de esconde-esconde. A justificativa era boa: imagina quão irado seria um esconde-esconde gigante valendo na escola inteira? Seria demais, fala aí?
Mas acho que é meio assim, não é? Quando a gente tem um, quer o outro e por aí vai. A sorte de ser criança é que o que quer que seja brincado vale a pena, seja esconde-esconde ou pique-bandeira. Tinha o problema quando chovia também e a mãe de alguém reclamava que fazia muita bagunça ficar correndo pela casa no esconde-esconde, e já era tarde, e tem aquela coisa também do barulho para os vizinhos… aí não era nem um nem outro. Inventamos o tal do “jogo da cadeira”, que era um esconde-esconde sentado com o modo ruídos no mínimo. Gostava do “jogo da cadeira” também. Gostava tanto, mas tanto, que não sei dizer ao certo quando deixei de gostar. Não sei dizer quando o “eu gosto” se transformou em um “eu gostava”. Não lembro nem mesmo quando brinquei pela última vez sem saber que era a última. Seja esconde-esconde, pique-bandeira ou “jogo da cadeira”.
Quem sabe, se eu soubesse que era a última vez que estava brincando, eu aproveitasse mais. Saboreasse mais. Brincasse mais. Mas eu não sabia e, no fundo, talvez essa seja a graça. A gente nunca sabe quando a última vez é de fato a última. Tem certas coisas na vida que o tempo só tira da gente, e a gente nem sente. Tem certas coisas que a vida nos arranca de forma tão sutil que a gente só se dá conta muito tempo depois de que passou a última vez. Às vezes a gente só cresce, os amigos de infância somem, o recreio acaba e a vida passa como um sopro.
Só que essa brisa fina da vida continua passando por nós, e mesmo crescidos a gente não se dá conta. A gente vai vivendo, vai perdendo os dentes, os sapatos, certas amizades, alguns interesses, certas paqueras… e a vida continua assoprando. É uma pena mesmo que, por mais que a gente viva, nunca consigamos sentir o gélido sopro da última vez. A gente existe tanto na rotina que ela vai mudando tão aos poucos que mal sabemos dizer quando o típico virou memória. Podemos até nos despedir de lugares, pessoas e objetos, mas o fato de dizer “adeus” é mais um presente do que um fim em si. Eu não pude dizer adeus à minha infância, e não é por isso que ela não acabou. Eu até pude dar adeus ao ensino médio, mas não é por isso que deixei de viver minha adolescência uma última vez sem saber que era a última, entende? O adeus só é a nossa chance de dar um tchauzinho e sentir o luto de um fim. É uma oportunidade, nada mais. A última vez, a última conversa, a última troca, o último riso, o último beijo… tudo isso já foi. E foi tão rápido que nem deu para saber que era a última vez.
“A infância não acabou de uma vez só. Ela foi sumindo devagar, como quem sai de uma sala sem fazer barulho.” – S. Ganeff
Hoje, talvez eu ainda brinque de outras coisas sem perceber. Brinco de ser adulta, brinco de saber o que estou fazendo, brinco de que estou no controle. Brinco de responder mensagens depois, brinco de fingir que certas ausências não doem, brinco de ser forte quando, na verdade, só estou aprendendo a não desabar em lugares públicos.
E talvez um dia, bem depois, eu olhe para isso tudo e perceba: também houve uma última vez em que isso foi leve. Uma última vez em que não pesava. Uma última vez em que eu ainda não sabia.
A infância não acabou de uma vez só. Ela foi sumindo devagar, como quem sai de uma sala sem fazer barulho. Como um vento que sopra tão leve que mexe apenas as pontas do lençol no varal. Talvez seja assim com tudo o que a gente ama: não vai embora gritando, vai embora se desfazendo. Vai aos poucos, esfarelando entre os nossos dedos sem nos dar a chance de perceber.
Se eu pudesse voltar para aquele quintal, para aquele recreio, para aquele “jogo da cadeira” improvisado em dias de chuva, eu não mudaria nada. Eu só ficaria um pouco mais. Só isso. Um pouco mais. Quem sabe não me esconderia em um lugar mais fácil no esconde-esconde? Porque no fim, talvez a única coisa que a gente realmente queria nas últimas vezes… é saber que elas eram últimas.

