
“Fléti e Míris”: a coisa, a maranha e a inventividade cênica
Uma conversa lítero-cinematográfica com Fléti e Míris, romance de estreia Daniel Guerra.
Foto: Divulgação.
I – A coisa
“EU TE JURO”, disse o Leitor ao professor-narrador-personagem, na mesa de um bar, “enquanto olhava de canto de olho para o Caroço, que já nos trazia outra garrafa”. Eu também te juro, leitor, que, desde esse instante, sentei-me com eles, tomei um trago, acendi um cigarro e iniciei a travessia a qual, de forma para mim ainda misteriosa (e não faltam em toda a obra chamados para adentrar o Mistério e acessar, como nos diz o professor, “qualquer experiência […] de totalidade ou comunhão com qualquer outra coisa que não fosse eu mesmo ou minhas vozes internas”), Daniel Guerra me convidou, quando escreveu, na dedicatória de seu romance de estreia, “Fléti e Míris” (7 Letras, 2025): “Querido Arruda, que a coisa lhe trague sem volta”.
Fui tragado pela narrativa vertiginosa, pelas vozes que se misturam, pelo fluxo dos pensamentos, pelas ações e cenas que se abrem e se fecham e se abrem nos tempos e espaços que se entrelaçam enquanto vemos, ouvimos, tocamos, sentimos e nos envolvemos nas(s)/pela(s) trama(s) da obra. Mas fui tragado, principalmente, pela hábil forma como Guerra escreve e, sobre ela, o que consigo dizer é: perdi o fio da meada, no melhor dos sentidos; fui absorvido pela matéria em si – para mim, a essencialmente e verdadeira “coisa” do livro (para além da luz, como nos conta o Leitor, que, “suspensa acima da gente, havia chegado ao seu cume)”, seja: a palavra em seu estado de enigma e decifração; deixei-me emaranhar pelo “fio mágico que, longe de nos resgatar, nos conduz para cada vez mais longe em um labirinto de fábulas”, como precisamente escreveu Marcos Barbosa na orelha do livro.
Labirinto que nasce do encontro fortuito entre o professor que, de passagem pelo interior da Bahia para “resolver os imbróglios que iniciaram o processo de venda” da casa de seu avô, pai de sua mãe, depara-se com o Leitor, às voltas com o enfrentamento dos fantasmas do passado, principalmente o de sua falecida mãe, que se recusou a vender a casa para homens de negócio de uma mineradora enquanto ele, imaginando-a “expulsando-os a pancadas de vassoura”, disse sim, apenas um sim, seco, e nada mais”.
Sublinhei, circulei, puxei linhas, fiz círculos, quadrados, chaves, setas, arabescos, exclamei e comentei a obra quase toda. Conversei com ela. E não encontro outra maneira de tentar organizar meu pensamento para escrever este texto a não ser pelo caos, retomando, do início ao fim, minhas anotações. Assim mesmo, num vórtice palavreiro, tentando me colocar sobre a mesa do bar como um personagem intrometido que se faz corpo-palavra e se deixa embriagar pelo fluxo, misturar-se a ele:
oralidade destino anúncio do acontecimento memória espelhamento mistério místico inaudito tempo fluxo descrever na ação mistério ponto de virada família mãe o eu o outro família memória decadência ponto de virada moldura narrativa mudança no ritmo digressões oralidade fusão de histórias Rosa tempo mistura de vozes diluição o eu o narrador poesia trabalho impecável com a construção do tempo meta-texto poiesis paisagem sertaneja ação materialidade memória inaudito destino cena exemplar conflito espaço subjetividade mistura de vozes o eu o outro o olhar descrição poética a minúcia do olhar filosofia ironia processo de escrita Borges fabulação ensimesmamento espaço criação literária linguagem decifração espelhamento com o autor? contação de quem? o texto no texto reflexão interlocução motivo condutor metáfora para a vida cinema inaudito ouvinte observador virada transe retorno ao presente conexões machadiano o ouvinte diante do incompreensível Kafka mineradora recurso narrativo a voz testemunho morte da mãe cinema fusão de transes literatura causo grotesco poético nos convida o tempo todo ao processo de escrita contação família presentifica o passado memória o avô descrever na ação metanarrativa eu narratividade eu machadiano o livro dentro do livro a morte do eu início tempo eu travessia livro fim tecido imaginar memória filosofia política machadiano acaso tempo espelho…
II – A maranha
Logo após ter me sentado à mesa com o professor e o Leitor, pensei, quando este começou a arrastar aquele “para os círculos mais recônditos da sua infância”: Qual caminho o destino deles vai tomar? Se o juramento feito pelo Leitor ao professor convida-o a testemunhar sua vida, serei eu, também, testemunha desta história? Mas, uma vez invisível a ambos, ainda que intruso no meio das falas e dos gestos, como me posicionar diante das personas com as quais, já de imediato, me reconheço? Eu, que, assim como o professor, tenho os olhos muito parecidos com os do meu falecido pai? Que, como o Leitor, também presenciei, e de maneiras as mais diversas, a “chegada da luz”?
“Aquilo era uma consciência, tive certeza. Era um olho, um olho solto no espaço, não sei se você me acompanha.
Sim, eu estava com ele. Aliás, acho até que eu era ele.”
Nesse ponto, o crítico (sim, li com olhos atentos, já sabendo que escreveria esta resenha, que acabou virando resenha-crônica e, mais ainda, texto-diálogo com o qual tento uma possibilidade de ressignificação da forma, deixando-me guiar pelo fluxo da escrita), o crítico diluiu-se ainda mais: “Mal sentei, serviu-me um copo, que estranhamente estava ali como se à minha espera. Chegamos ao tema da poesia.”
Aqui, descubro que o professor lecionava história da arte (Guerra é escritor – autor de “O acontecimento cênico” (Kotter, 2023) -, editor, diretor teatral e crítico de arte), momento em que ele próprio descobre que o Leitor também era conhecido como Poeta, instante em que o cátedro nos diz: “De qualquer maneira, quero dizer, de uma maneira específica e totalmente inconsciente, aquela introdução havia me fornecido, de rompante, a chave imediata para que eu pudesse naturalizar prontamente, hoje eu sei, a profusão de palavras que saíam de sua boca, num ritmo intensivo e numa sintaxe peculiar, para dizer o mínimo”.
Para dizer o mínimo, a sintaxe peculiar que o autor constrói em “Fléti e Míris” não apenas é o ponto forte do romance como aquilo que o coloca, dentro do cenário da literatura contemporânea, em um lugar situado na contramão do que, sinto, tem sido exaltado e valorizado de maneira não raro ingênua: narrativas construídas com linguagem objetiva, contenção sintática, concisão formal e etcetera (nada contra, há excelentes livros que seguem nesta toada; só acho, e é apenas uma sensação, que em tempos de empobrecimentos dos discursos, resultantes de leituras cada vez mais superficiais, rápidas e imediatistas impostas pelas redes sociais, reduz-se a complexidade estrutural das narrativas em nome de uma certa tendência da atualidade).
Guerra, ao contrário, abusa (no melhor dos sentidos) dos períodos longos, da subordinação, dos verbos dicendi que, roseanamente, vão criando um emaranhado de histórias exemplares cujas molduras abrem cenas dentro de cenas, quadros dentro de quadros, imagens que se sobrepõem a imagens. Ele descreve na ação como quem, ao modo de um Borges, faz do caminho narrativo uma maranha romanesca de tessitura única em sua inventividade.
Nada melhor que o próprio texto para ilustrar a análise aqui apresentada: “É interessante, as pessoas do campo só precisam de um pequeno impulso para começar a desfiar a sua torrente de histórias que, enoveladas numa trama apenas aparentemente linear, dão notícias de sua origem mais remota até o presente”.
III – No centro das cenas
Em vários momentos da leitura, pensei: “essa cena no cinema ficaria belíssima”. Converso, a seguir, com duas das que, entre tantas, me marcaram. E digo converso, pois, como já mencionei anteriormente, a única maneira possível de falar sobre “Fléti e Míris”, pelo menos para mim, é me assumir como a terceira figura na mesa de bar, na qual me sento para escrever enquanto, sendo parte das construções cênicas concebidas pelos atores centrais do livro, exímios contadores de histórias, sou tomado não como espectador, mas, no mínimo, como um leitor a quem é dada a permissão de, também, atuar.
E foi assim que entrei na Festa junto com o professor que, após saber sobre o evento em uma conversa com o dono do bar, decide “passear a pé pela cidade, em cujas ruas só caminhavam gatos, cachorros e velhos bêbados voltando para suas casas. O mais impressionante era a qualidade das sombras, muito mais nítidas do que em qualquer outra cidade”. Destaco, aqui, “a qualidade das sombras”. Guerra constrói cenas com maestria. Não apenas pela engenhosidade, como dito, em descrever na ação, mas também pela maneira como cria as atmosferas que transitam entre o onírico carregado de poesia e o real em sua crueza mais pungente.
“As ruas estavam alegres e, vez por outra, as luzes vermelhas, verdes e amarelas dos fogos de artifício iluminavam os paralelepípedos centenários, ao mesmo tempo que conferiam ao céu uma profundidade muito clara e efêmera e, por isso mesmo, assustadora. As famílias, arrumadas e perfumadas como raramente se davam ao luxo durante o ano, saíam das suas casas para ver a santa”. O clima, as nuances criadas pelo autor, a maneira como ambienta o evento (e, aqui, não posso deixar de mencionar o quanto o romance de Guerra me remeteu, em alguns momentos, a cenas de “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez) são bons exemplos do que ocorre em diversos momentos da narrativa: estamos na cena, vivenciamos o narrado, presentificamos os acontecimentos tão de perto e intensamente que fica difícil (ainda bem!) nos distanciarmos deles.
Outra sequência da Festa: “Foi através do olhar e do breve sorriso torto de uma dessas pessoas, uma senhora escondida sob um lenço branco vestido como capuz, que me dei conta da chegada da Maria dos Inocentes, ao mesmo tempo que a fanfarra emitia em uníssono uma nuvem metalizada de vibração harmônica.” Note-se o quanto a construção da cena se dá por meio da aproximação com o mínimo, tal uma câmera que traz em primeiríssimo plano a expressão do personagem, aqui marcada pelo olhar e pelo sorriso, para, então, abrir-se para a procissão, “formada por não menos que quinhentas pessoas, entre moradores, fotógrafos e turistas”.
A segunda cena: a do enterro da mãe do Leitor, ao qual ele pôde acompanhar por ser “o seu único parente vivo àquela altura […], contanto que aceitasse o lugar que me cabia, ao lado dos homens, como qualquer outro homem”. Jogada de mestre do autor: o testemunho daquilo que ao Leitor não foi possível ver se dá pelo olhar de outra personagem e, na narrativa, pela literal fusão de vozes: “Na noite anterior à vigília, disse a amiga da minha mãe, disse o Leitor, as doze mulheres do culto, e apenas elas, construíram, longe da vila, um barracão de madeira e palha de aproximadamente vinte metros quadrados”.
Caríssimos Guerra, Leitor e Professor,
Tomo, aqui, a liberdade de materializar o antes apenas dito: “essa cena no cinema ficaria belíssima”.
INT. NOITE. BARRACÃO DE MADEIRA
“As cordas da rede, amarradas a duas grossas vigas de madeira opostas, sustentavam o corpo paralelamente ao eixo norte-sul”.
AMIGA DA MÃE DO LEITOR
“Era necessário. Absolutamente necessário
que a cabeça da morta apontasse para o norte,
e os pés, para o sul”.
“Da viga norte pendia um enorme relógio antigo, de madeira escura e esculpido em curvas rococó, no topo do qual queimava uma grossa vela amarela. […]
O corpo deitado na rede, cujas cordas estendidas dividiram o barracão ao meio, estava encoberto por uma fina camada de cal.
[…]
Depois do último Glória, as quatro mulheres, antes ajoelhadas e agora de pé, passavam, uma para outra, através de suas respectivas velas, o fogo retirado da vela acesa acima do relógio, até que a chama atingisse primeiro a vela do homem e depois a rede. Nesse momento, por causa da enorme labareda deflagrada, a roda se desfazia rapidamente para os extremos do barracão e, numa tranquilidade profunda, as pessoas iam saindo do lugar, uma por uma, em fila indiana”.
CORTA PARA:
INT. NOITE. BAR
LEITOR
“Lá fora desenhou-se um novo círculo,
dessa vez muito mais amplo,
em cujo centro queimava imensa uma fogueira
onde crepitava não somente o corpo da minha mãe
como todo o barracão e, por que não, o mundo”.
FUSÃO PARA:
EXT. NOITE. EM UM LUGAR PERTO DA VILA
Enquanto vemos o fogaréu, ouvimos a conversa entre o Leitor e o professor.
LEITOR (V.O)
“Eu não saberia com que palavras explicar a você
o que eu senti depois de testemunhar tudo aquilo”.
PROFESSOR (V.O)
“Tampouco eu. Eu não saberia explicar como consegui
voltar ao carro e dirigir até a casa da fazenda”.
FADE TO BLACK
Finalizo minha participação em “Fléti e Míris” primeiramente respondendo ao autor: sim, Guerra, fui tragado sem volta. Entorno, então, mais um trago e, com ele e outro cigarro aceso, bebo das palavras do professor:
“Talvez para uma pessoa que, assim como eu, gosta da ficção pelo fato de ela ser ficção, e que por isso está sempre com os dois pés bem fincados no mundo concreto e prático, esse tipo de coisa pareça exagero de uma mente propensa a malabarismos e circunvoluções”.

Guerra/ Editora 7Letras,
2025/ 160pp.

