Velô da Dicção

No dia 13 de maio em Santo Amaro: o Bembé do Mercado

No Bembé do Mercado, compreende-se que reunir-se em festa na data da abolição talvez seja justamente um sinal de que a luta política e a alegria popular podem e devem caminhar juntas

Fotografia: André Cherri.


Santo Amaro ergue-se às margens do rio Subaé, a cerca de oitenta quilômetros de Salvador, no coração do Recôncavo Baiano. Durante o período colonial, a cidade desempenhou papel econômico relevante, sobretudo em razão da produção açucareira. Hoje, com aproximadamente sessenta mil habitantes, permanece singular e vigorosa culturalmente: terreiros de candomblé, sambas de roda, feiras livres e um expressivo patrimônio arquitetônico católico – composto, entre outros marcos, pela Basílica de Nossa Senhora da Purificação, fundada no século XVII, e pelas igrejas de Nossa Senhora do Amparo e Nossa Senhora do Rosário – conformam a paisagem da pequena e bela cidade.

Não muito distante da praça principal, a poucos metros da casa de Dona Edith do Prato e diante da casa de Dona Canô, placas homenageiam dois dos mais célebres filhos da terra. Em uma delas, lê-se: “Caetano Veloso, poeta da terra, menino da gente, nós amamos você”. Na outra: “Bethânia, de tuas cordas vocais emerge esta gente bonita; tua voz é a melhor notícia da terra que te gerou”. A partir do espetáculo Opinião, em 1965, e da apresentação de Alegria, alegria no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967, os irmãos ajudaram o Brasil a inventar sensibilidades estéticas em que se percebem delicadamente vincos de Santo Amaro. 

Talvez não houvesse nem Tropicália nem Carcará sem a nutrição criativa que a Universidade Federal da Bahia, sob a reitoria de Edgar Santos, apresentou aos jovens que viviam em Salvador em meados do século passado. Mas também não existiriam, por exemplo, nem Araçá azul nem Pássaro proibido sem a ambiência santamarense e lugares como o Ginásio Teodoro Sampaio, o Cine Subaé e o bar do Bubu. Santo Amaro não foi apenas origem biográfica: tornou-se matéria estética, ética e afetiva de uma imaginação brasileira hoje incontornável. 

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O dia 13 de maio de 1888 marca um dos momentos mais importantes e belos da história do Brasil: a assinatura da Lei Áurea e o encerramento formal dos mais de três séculos de escravidão em nosso país. A pressão revolucionária que fez o sistema escravocrata ruir de dentro para fora libertou cerca de setecentas mil pessoas através da pena da Princesa Isabel e da luta de nomes como André Rebouças, Dragão do Mar, José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, Maria Tomásia Figueira Lima, Adelina Charuteira, Maria Firmina dos Reis e Luís Gama. Uma conquista arrancada pela luta de negros escravizados e libertos, intelectuais, jornalistas, trabalhadores e militantes abolicionistas.

As imagens da multidão reunida diante do Paço Imperial testemunham aquilo que Machado de Assis, em sua coluna intitulada A Semana, publicada na Gazeta de Notícias, definiu como “o único dia de delírio público” de que se recordava verdadeiramente ter vivido. O Bruxo do Cosme Velho escreveu que houve sol, “e grande sol, naquele domingo de 1888, em que o Senado votou a lei, que a regente sancionou, e todos saímos à rua. Sim, também eu saí à rua, eu, o mais encolhido dos caramujos; também eu entrei no préstito, em carruagem aberta, se me fazem favor, hóspede de um gordo amigo ausente; todos respiravam felicidade, tudo era delírio”. 

É o mesmo sol e a mesma alegria recordados por outro gigante negro de nossa literatura, Lima Barreto – aliás, nascido num 13 de maio: “Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão. Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles milhares de pessoas o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenço, vivas… Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria”. Sobre os dias seguintes, marcados por festas populares e celebrações religiosas, Barreto escreveu que lhe pareciam “uma visão da vida inteiramente de festa e harmonia”. A fotografia de Luís Ferreira provavelmente foi tirada momentos após a Princesa Isabel aparecer no famoso balcão do Paço Imperial:

Antonio Luiz Ferreira. Assinatura da Lei Áurea no Paço Imperial, 13 de maio de 1888. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS.

Da missa campal realizada em São Cristóvão, a qual compareceu com o pai, diria ainda que era “como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez”. A fotografia, feita por Antonio de Barros Araújo e encontrada recentemente pelo historiador Carlos Lima Junior no acervo do Musée Louis-Philippe, no Castelo d’Eu, embora esmaecida, registra a multidão:

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Em 13 de maio de 1958, Carolina Maria de Jesus escreveu em seu diário: “Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpático para mim. É o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos”. Mesmo sob carestia e céu fechado, diferentemente da felicidade e da luminosidade narradas por Machado de Assis e Lima Barreto, Carolina mandava os filhos para a escola e saía para buscar sustento vendendo ferro-velho e catando papel. Sofria diante da fome das crianças e frequentemente precisava pedir aos vizinhos um pouco de banha ou arroz. Reta final de outono, proximidade do inverno: com a chegada do frio tudo se agravava, a necessidade de comida aumentava e os recursos diminuíam. No septuagésimo aniversário da Abolição, Carolina afirmava lutar “contra a escravatura atual — a fome”.

O próprio Joaquim Nabuco, em Minha formação, pouco mais de dez anos após a promulgação da Lei Áurea, previu que a escravidão permaneceria por muito tempo como a característica nacional do Brasil. A liberdade jurídica de 1888, afinal, não foi acompanhada de políticas de inclusão social, distribuição de terras, acesso à educação ou integração econômica da população negra. Também por isso, a data, que foi feriado nacional até meados da década de 1930, parece esvaziada, quase apagada do calendário cívico nacional. 

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Em uma canção gravada em 2000, no álbum Noites do Norte, Caetano Veloso celebra o Bembé do Mercado: “Dia 13 de maio em Santo Amaro
Na Praça do Mercado / Os pretos celebravam / (Talvez hoje inda o façam) / O fim da escravidão / Da escravidão / O fim da escravidão / Tanta pindoba! / Lembro do aluá / Lembro da maniçoba / Foguetes no ar / Pra saudar Isabel / Ô Isabé / Pra saudar Isabé”.  O eu lírico da composição talvez habite a lembrança da infância, quando, assim como Lima Barreto diante do Paço Imperial ou na missa campal em São Cristóvão, Caetano era conduzido pela mão do pai ao festejo em sua cidade natal. Mas a homenagem não se reduz a um memorialismo íntimo: ela preserva também a dimensão ético-política daquele que talvez seja o único lugar do Brasil onde a abolição é celebrada anual e ininterruptamente desde seu primeiro aniversário – quando, sob a liderança do preto malê, escravo forro e babalorixá João de Obá, o espaço do mercado de Santo Amaro foi ocupado para festejar a liberdade negra.

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É alvorada. Pontualmente, às cinco da manhã, foguetes rompem o silêncio da cidade para anunciar o início do evento com a lavagem do busto de João de Obá, exposto no centro da praça do mercado e cercado de flores e oferendas. O sol, como naquele 13 de maio de 1888 no Rio de Janeiro, brilha sobre o céu de Santo Amaro. Crianças, adultos e idosos chegam aos poucos. Ao final da manhã, porções de passarinha e garrafas de cerveja Crystal ocupam as mesas de plástico sob o teto de zinco. Os atores do Nêgo Fugido, uma das mais contundentes manifestações culturais do Recôncavo, circulam com rostos pintados e figurinos dramáticos. A poucos metros dali, a feira livre exibe pilhas de amendoim, quiabo e banana-da-terra. 

No começo da tarde, há estúdio fotográfico itinerante, roda de capoeira e apresentação da Filarmônica Filhos de Apolo. À noite, sob folhas de pindoba, defumação de ervas e atabaques, a praça se enche de corpos, música e alegria: é o xirê em honra a Xangô. Como cantou a Beija-Flor de Nilópolis no carnaval deste ano, “deixa girar que a rua virou Bembé”. Há anduzada, maniçoba, xinxim de bofe e cachaça. Talvez haja aluá. Há Caretas de Acupe, Mandus e Bombachos. Há sambas de roda e maculelês. Há ebós de Oxalá. Há caminhões com caçambas cheias da gente que segue para a entrega dos presentes a Iemanjá. Há mergulho no braço de mar. Há festa, memória e continuidade. Há sol, alegria e a certeza de que tudo retornará novamente no próximo 13 de maio, em Santo Amaro, na praça do Mercado – o único lugar onde os pretos ainda e sempre celebram o fim da escravidão.

Fotografia de André Cherri.

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No Bembé do Mercado, compreende-se que celebrar o 13 de maio não significa, ingênua ou maliciosamente, negar a permanência da violenta desigualdade brasileira. Não denota acreditar que tudo vai bem ou que a democracia racial foi levada a termo. Ao contrário: reunir-se em festa na data da abolição talvez seja justamente um sinal de que a luta política e a alegria popular podem e devem caminhar juntas como forças contrárias à permanência das estruturas escravocratas, mais ou menos modernas, que insistem em nós e entre nós. A festa, afinal, é o oposto do esquecimento. Se hoje é necessário falar em uma segunda abolição, é porque houve uma primeira. E mesmo que tenha sido incompleta, insuficiente, tardia e inconclusa, não pode ser desprezada nem esquecida. Santo Amaro continua emitindo sinais, em 1889, na década de 1960 e agora – e talvez, se soubermos ouvi-los, deles poderão nascer outros sóis e outras alegrias para o Brasil.