
Um animal que escreve
Novo filme de Pedro Almodóvar – Natal Amargo – propõe discussões sobre liberdade criativa e ética do autor.
Por Fabiano Oliveira.
Os escritores são seres perigosos, afirma Pedro Almodóvar, em uma entrevista recente1. Perigosos não exatamente para qualquer um, mas para quem está próximo deles, completa. Por poderem usar, como material de criação artística, os acontecimentos – felizes ou trágicos – experimentados por conhecidos, esses seres detêm um poder e uma responsabilidade especiais. É por esse caminho que segue a discussão central de Natal Amargo (Amarga Navidad), filme mais recente do diretor espanhol. O longa-metragem parte de um conto de mesmo nome escrito pelo próprio Almodóvar (no livro O último sonho2). Em um certo momento do conto, a protagonista Elsa demonstra satisfação por seu namorado Beau acompanhá-la enquanto está com crise de enxaqueca no hospital: “Beau fala pouco, e eu fico agradecida, em momentos como esse o importante é estar presente, acompanhar, como fazem os animais.” Em Natal Amargo, percebemos que o ofício do autor é similar, indo além da presença atenta, pois se trata de um animal que escreve e que tem na escrita uma necessidade.
Logo no início do filme descobrimos que assistiremos a duas narrativas. Em um nível, que se passa em 2004, temos Elsa (Bárbara Lennie), uma diretora que não obteve sucesso de grande público e passou a trabalhar numa agência de publicidade, atividade com a qual consegue ter uma vida confortável financeiramente. Ela e as pessoas com quem se relaciona são na verdade personagens de um roteiro que Raúl (Leonardo Sbaraglia) está escrevendo. Ele é um diretor renomado que passa por uma crise criativa, em 2026, e busca inspiração para um novo filme. Apesar de uma narrativa conter a outra, podemos dizer que correm em paralelo pela maneira como assistimos a elas, ocupam o espaço do filme da mesma forma, não havendo marcadores visuais claros separando os dois universos. Transitamos entre o ambiente do “tempo real” da ficção – com Raúl e seus dilemas de criação – para a ficção dentro da ficção – onde Elsa lida com suas crises de enxaqueca – sem nada além de um corte seco; é como se fossem orações assindéticas, mas, mesmo sem o uso das conjunções, não temos muito trabalho para saber onde estamos.
A impossibilidade de escrever sem usar elementos da vida é uma boa discussão presente em Natal Amargo.
Esse procedimento é interessante por nos demonstrar a força da ficção: é claro que metade do filme é invenção dentro da invenção e, mesmo assim, somos guiados por essa segunda história, queremos saber o que vai acontecer, levamos essa ficção interna a sério tanto quanto a história de primeiro nível. Podemos lembrar aqui de Animais Noturnos (2016), outro longa-metragem que conseguiu um efeito notável com esse expediente, baseado no romance Tony e Susan, de Austin Wright. É instigante também assistir ao longa buscando essas relações entre os dois universos. Por exemplo, depois de sermos informados de que Elsa trabalha dirigindo comerciais, há uma tomada que mostra Raúl escrevendo e, atrás de si, uma estante, onde vemos um livro de lombada grossa que ostenta o título Advertising Today (Publicidade hoje, em tradução livre).
Em um certo momento, tanto na ficção dentro da ficção quanto no “tempo presente”, os autores percebem que acontecimentos graves ocorridos com pessoas próximas podem ser o estímulo de que precisavam para destravar a criatividade. Elsa vê na crise do casamento de sua amiga Patricia (Victoria Luengo) um motor de escrita, enquanto Raúl se dá conta de que problemas de saúde da namorada de sua ex-assistente Mónica (Aitana Sánchez-Gijón) são uma fonte profícua de inspiração.
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Se os autores, então, conseguem a partir das histórias alheias dar vazão às suas próprias necessidades criativas, a reação das pessoas envolvidas nos episódios não é amistosa. Patricia e Mónica rejeitam o status de material bruto, sentem que suas histórias foram roubadas, que estão sendo expostas sem consentimento. A impossibilidade de escrever sem usar elementos da vida é uma boa discussão presente em Natal Amargo. No longa-metragem, elementos da vida dos autores, e principalmente de pessoas ao seu redor, são pontos de partida para a criação ficcional, sem serem meros decalques. Tanto Elsa quanto Raúl se defendem dizendo que se trata de ficção, que os acontecimentos reais não estarão lá ipsis litteris, que se inspiraram nos ocorridos para criarem coisas diferentes.
Aqui chegamos a outra questão interessante apontada pelo longa: por que incomoda ter a própria história posta em um contexto de ficção? Se a ficção é o espaço do inventado, o que reside nela não deveria ser entendido como a história real; então, qual seria o problema? A questão não é tão simples justamente por causa do status instável da ficção. Antes de tudo, não se trata de um gênero, mas de uma “categoria ontológica”, como formulou Terry Eagleton3: uma obra será ficcional a depender da maneira como a tratamos, a depender do que esperamos dela. Grosso modo, se entendemos que um texto, por exemplo, conta uma história cujos acontecimentos só se passam naquele mundo do texto, temos ficção; se, por outro lado, existe a expectativa de que o relatado tenha se passado fora do texto, temos não ficção. Textos que chamamos atualmente de autoficção são um exemplo de expressões que tornam essas fronteiras claramente instáveis, a ponto de um autor como Édouard Louis afirmar que o livro O fim de Eddy foi marcado pela vontade de “dizer a verdade” (dire le vrai), que foi “o resultado de uma busca pela verdade por meio das ferramentas da literatura” (le résultat d’une recherche de la vérité par les outils de la littérature)4. Se essas experiências de ficções autobiográficas apareceram como possibilidade de expansão da forma romanesca, como aponta Julián Fuks5, talvez hoje estejamos experimentando uma saturação de vontade de verdade, inclusive dos leitores, com relação à ficção.
O filme estimula a pensarmos qual é o status da ficção hoje: sua força está na capacidade imaginativa ou em ser uma tentativa de decalque da realidade? Infelizmente, parece que vivemos a segunda opção.
Em Natal Amargo, Mónica parece ser a personagem que mais incorpora as contradições na relação com o universo ficcional. Tendo sido assistente de Raúl por 20 anos, ela sabe como ninguém como funcionam as engrenagens criativas do diretor e apresenta avaliações diferentes sobre o valor da ficção, a depender do contexto. Quando descobre que há, no roteiro, acontecimentos de sua vida, ela confronta o antigo chefe e afirma que aquilo “não é ficção”. Quando Raúl responde “autoficção”, ela rebate: “Uma merda”. Mas já ao fim do filme, Mónica dispara contra o diretor: “Quem você pensa que é para salvar alguém? A ficção não tem esse poder.” O filme, portanto, estimula a pensarmos qual é o status da ficção hoje: sua força está na capacidade imaginativa ou em ser uma tentativa de decalque da realidade? Infelizmente, parece que vivemos a segunda opção.
(Continua após a imagem)

Natal Amargo apresenta outra questão derivada desse incômodo de estar na ficção: trata-se da disputa sobre a posse de uma história. Há uma tensão entre liberdade criativa e responsabilidade ética que se desenrola com os protestos dos personagens. Raúl deixa clara a sua necessidade, em um diálogo com Santi (Quim Gutiérrez), seu novo assistente e com quem tem um relacionamento amoroso não exatamente bem resolvido: “Ainda tenho que lhe explicar, a esta altura, que só consigo escrever tendo a mais absoluta liberdade?” Santi retruca: “Doa a quem doer.” Em outro momento, Elsa evidencia, durante uma conversa com Patricia, a autoridade que entende ter como autora: “Você está esquecendo que é uma ficção e sou eu quem escolhe o final.” A menção, no universo ficcional, a pessoas que existem fora dele acumula um histórico de conflitos. É notória a proibição feita pela ex-esposa de Emmanuel Carrère de qualquer menção a ela e à filha do casal no livro Ioga; em solo brasileiro, Cidade de Deus rendeu processos judiciais de moradores por terem sido colocados na obra.
Se o autor ocupa uma posição inegável de poder, cabe a ele também refletir sobre isso. O próprio Almodóvar, refletindo a respeito do trabalho do diretor, indica que se trata de uma questão complexa e aponta um caminho de autocontenção. Ele afirma que, se por um lado o ato de escrita é algo egoísta, no qual só importa a vontade do autor, terminado o texto, é preciso analisar se há algo passível de dano ali: “Acredito que os limites são aqueles do diretor, de acordo com a sua sensibilidade moral, sua ética de trabalho”6. Afinal, autores são animais que escrevem, mas não precisam necessariamente atacar.

Fabiano Oliveira (Nova Iguaçu, 1991) é jornalista (TV Globo) e doutor em Ciências Sociais (PPCIS – Uerj). Publicou o livro de poesia Impressões da beirada (M.inimalismos, 2024) e poemas em revistas como Ruído Manifesto e Figueira.

- https://www.youtube.com/watch?v=vgXdXo8EQtk. ↩︎
- O último sonho. Tradução de Miguel Del Castillo. Companhia das Letras, 2024. ↩︎
- O acontecimento da literatura. Tradução de Thomaz Kawauche. Editora Unesp, 2024. ↩︎
- https://edouardlouis.wordpress.com/2015/08/. ↩︎
- A era da pós-ficção: notas sobre a insuficiência da fabulação no romance contemporâneo. In: Ética e pós-verdade. Dublinense, 2017. ↩︎
- https://www.youtube.com/watch?v=vgXdXo8EQtk. ↩︎