Crítica Ficção estrangeira

Tentando contar palavras na língua materna: reflexões sobre morte e vida migrante em A estante dos últimos suspiros, de Aglaja Veteranyi

Romance da autora suíço-romena é o primeiro de três lançamentos pela Relicário Edições, com traduções inéditas do alemão assinadas por Fernando Klabin. 
Foto: René Oberholzer, 1994/ Reprodução.


Quantos romances escritos por artistas de circo você já leu? Se mais de um, provavelmente um deles foi escrito pela romena radicada na Suíça, Aglaja Veteranyi. Filha de um palhaço e de uma artista de suspensão capilar, a vida da escritora ocorreu entre diferentes países e diversas linguagens artísticas, do teatro à palhaçaria. Isso culminou na fabricação de uma literatura experimental que a coloca como nome notório da escrita europeia do final do século XX e do início do século XXI. 

Saída ainda criança da Romênia com os pais, no intuito de escapar da ditadura de Nicolae Ceaușescu nos anos 1960, a família de Veteranyi passa por alguns países e se instala na Suíça; nessa travessia, sua língua passa a ser o alemão. Essa história de nomadismo e vida circense é romanceada em Por que a criança cozinha na polenta. Publicada no Brasil pela DBA em 2004, a história é narrada pela ótica perversa e lírica de uma criança. Mais de 20 anos depois dessa primeira incursão nas livrarias brasileiras, uma nova tradução de um livro da autora circula no Brasil: A estante dos últimos suspiros é o primeiro de três livros da autora, todos traduzidos diretamente do alemão por Fernando Klabin e editados pela Relicário Edições. Este novo projeto de publicação nacional da obra de Veteranyi atualiza e amplia sua circulação no país. A primeira tradução de Por que a criança cozinha na polenta, feita por Fabiana Macchi, está há anos fora de catálogo.

A estante dos últimos suspiros é o primeiro de três livros da autora, todos traduzidos diretamente do alemão por Fernando Klabin e editados pela Relicário Edições”.

Nos anos 1990, Veteranyi foi uma das expoentes da nova literatura em língua alemã, representada por autores migrantes que passaram a escrever em alemão a partir da segunda metade do século XX. Por si só, a inserção desses autores na literatura da Alemanha é sintoma de uma virada na produção artística do país, em que confluem experiências de mundos e línguas distintos, o fantasma das guerras e do fundamentalismo e a própria condição de migrante ou de refugiado. Essas literaturas, então, incorporam contradições da identidade de um povo que pensa e escreve em alemão. Na Alemanha, a autora foi uma das organizadoras do grupo de literatura experimental Die Wortepumpe e do grupo de teatro Die Engelmaschine. Inquieta, publicou fragmentos e poemas em diversas revistas independentes e jornais literários, além de adaptar seu primeiro romance para o teatro. Em vida, só veria tiragem de seu primeiro romance e vários de seus fragmentos, de difícil classificação, publicados em periódicos literários. 

A estante dos últimos suspiros foi publicado logo após a morte de Veteranyi, em 2002, e é, assim como Por que a criança cozinha na polenta, um romance escrito em versos. É como se fosse a prosa tragada pelo ímã da poesia – incapaz de repousar, a forma prosaica se espalha como enjambement, organizada em versos. As formas fixas não são as mais adequadas para analisar e classificar a prosa da escritora romena; essa impossibilidade de classificação é gerada por um arranjo cujo experimento advém de uma proposição, como um ensaio, em que a organização do livro por versos assume (não por acaso) a densidade de uma acrobacia. 

Os primeiros momentos do livro se passam durante o processo de produção da coliva, espécie de bolo de trigo feito cuidadosamente para homenagear os mortos. A morte, uma convidada recebida com curiosidade e hipérboles, será o centro do romance; os movimentos em torno da morte constroem um pacto comunitário entre os vivos, que performam em torno do morto uma coreografia instintiva e mandatória.  Em um trecho do romance, lê-se que “Os parentes choravam o ano todo pelos já mortos e pelos / mortos vindouros. Derramavam vinho na terra e embebedavam os túmulos. Escreviam à tia, gastamos nosso último / dinheiro com a comida dos mortos. Todos os parentes gastavam todo domingo seu último dinheiro com os mortos.” A koliva é preparada por Costel, uma das únicas personagens com nome em todo o livro: a maioria das personagens será chamada apenas de “a mãe”, “o pai”, “o tio” e “a tia”. Nomeados, apenas o tio Petru, companheiro do também nomeado Costel, e Engel (anjo, em tradução direta), personagens secundários, que surgem contextualmente, sem muita profundidade. O que é relatado ao longo do livro – pegajoso em sua mímica do adoecimento e do fim de uma vida, baseado na morte da própria tia da autora, – é o modo como a tia, em seu leito de morte, participa de uma vida coletiva voltada ao espetáculo e ao exagero, cheia de banquetes e copos de vinho. É também uma vida marcada pelas consequências dos arroubos autoritários na Romênia dos anos 1960, em que todas as famílias carregam em seus núcleos as chagas causadas pelas garras do regime. 

“As formas fixas não são as mais adequadas para analisar e classificar a prosa da escritora romena; essa impossibilidade de classificação é gerada por um arranjo cujo experimento advém de uma proposição, como um ensaio, em que a organização do livro por versos assume (não por acaso) a densidade de uma acrobacia”.

Os mortos (antigos e futuros) exigem pratos elaborados, pimentões e peitos de pato recheados, vitelas cozidas com molho de tangerina, em um gesto que converte a senha da passagem para a morte em uma ativação dos sentidos ocupados por essa cozinha que se multiplica. No livro, os banquetes, preparados diariamente para a tia até o dia de sua morte, são gestos finais de compartilhamento; uma forma de aterrar e situar o sujeito naquele mundo que fica para trás. O mundo é uma Romênia que permanece no corpo das pessoas; apesar da prisão; apesar do exílio; apesar da fuga. Ser migrante é também migrar até mesmo pela morte – de que forma passar para o mundo dos mortos ainda sendo romena? Apesar de assumir a língua alemã, o principal impacto da obra de Aglaja Veteranyi se dá na disposição do texto, tentando encontrar lugar entre as formas, entre línguas e modos de vida. Falar da Romênia em alemão é um modo de fazer aquela memória não perecer, se estender, se multiplicar. Falar da vida romena em outro país é também multiplicar seu país de origem e torná-lo fronteiriço a todos os lugares – a extensão da vida romena carrega-se nos corpos migrantes. 

Em um dos momentos em que tenta revisitar a memória de seu país por meio do pouco que consegue acessar, Aglaja grafou: “A Romênia não se chama mais Paris.” Quando indaga onde está a real fronteira, diz: “Um país termina no meio de uma rua. / A rua para a fronteira é outra, embora seja a mesma. / Antes de uma fronteira eu prendo a respiração. Depois da / fronteira eu expiro de novo./ Importação-Exportação”. Mais de uma vez, ela diz que tenta contar quantas palavras sabe de seu idioma materno. Nesse processo interno, a morte da tia é também uma experiência de fim das sobras do que significa a Romênia para a autora. Era um símbolo de despedida daquele mundo que está sempre do outro lado, esquecido na fronteira que deve ser atravessada para que se sobreviva além. A estante dos últimos suspiros é um pouco dessa carta de adeus. Não por acaso, é o último livro em que Aglaja trabalhou – a autora se suicidou ainda com o manuscrito final por entregar, com poucas anotações nas provas da versão final do romance. É também um testemunho de uma literatura que verga gêneros e entorta formas fixas, com uma autora cuja voz continua nos assombrando. Essa nova aparição de Aglaja nas estantes brasileiras é um reencontro com uma literatura cujo mistério não cessa. A bem cuidada edição faz jus a essa aparição curiosa e circense, tão singular quanto uma mulher barbada – ou uma que se suspende pelos cabelos. 

A estante dos últimos suspiros, Aglaja Veteranyi. Tradução de Fernando Klabin.
Relicário Edições, 2026, 120 pp.

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