
Desfiando fios da memória para costurar a mãe: Sobre ‘Antes que apague’, de Natalia Timerman
Em Antes que apague, Natália Timerman alcança um novo patamar em sua trajetória literária. Arrisco dizer que este seja seu melhor romance até o momento.
Foto: Luiza Sigulem/ Divulgação.
I
Anos atrás, Natália Timerman veio a Salvador lançar seu romance As pequenas chances (Todavia, 2023). No encontro realizado na Livraria LDM, após algumas perguntas voltadas para a relação entre o que estava escrito e a realidade da autora, o público buscava fazer conexões e atestar uma “verdade” que o empreendimento autoficcional parece trazer à tona. Algo me chamou a atenção naquele romance: a morte do pai narrada no livro anterior. Perguntei, então, sobre a relação entre a autoficção produzida pela autora e sua pesquisa de doutorado – naquele período, Timerman ainda não havia defendido a tese, o que ocorreu neste ano de 2026 –, dedicada ao escritor norueguês Karl Ove Knausgård. Associei essa pesquisa ao primeiro livro da série Minha Luta, cujo mote dá título ao livro A morte do pai (Companhia das Letras, 2015).
A autora respondeu que existe, sim, uma relação de afinidade entre sua produção literária e a obra de Knausgård, afinidade que também estrutura sua pesquisa. Trata-se da relação entre literatura e ética, especialmente no ato de narrar pessoas próximas, colocando o leitor na parede em vista da veracidade dos fatos e utilizando mecanismos estéticos para além do uso da primeira pessoa do singular. Achei a resposta excelente, pois, em seu romance mais recente, Antes que apague (Companhia das Letras, 2026), Timerman retoma as questões levantadas na resposta daquela conversa e desenvolvidas em sua pesquisa. Agora, contudo, o foco cai sobre a mãe.
Natália Timerman nasceu em São Paulo, foi finalista do Prêmio Jabuti com o livro de contos Rachaduras (Quelônio, 2019) e publicou os romances Copo vazio (Todavia, 2021) e As pequenas chances (Todavia, 2023). Antes que apague é seu romance mais recente e gira em torno de uma narradora que não se nomeia, mas que escreve em primeira pessoa e acompanha o avanço da doença da mãe, diagnosticada com Alzheimer. À medida que a doença se agrava, essa filha presencia o findar da vida da mãe e, antes que isso ocorra, decide escrever sobre essa mulher. Para isso, empreende um périplo em busca de informações acerca da família materna, o período anterior ao casamento com o pai – seguido posteriormente pela separação e por um novo casamento –, a ida a Israel, o suicídio de um primo com quem se relacionou e a forma como, após o término do primeiro casamento, ocorre uma aproximação com sua religião, o judaísmo.
A protagonista narra a mãe e, consequentemente, narra a própria família: a imigração dos bisavós, a relação conturbada dos avós e as fissuras de sua linhagem familiar. Além disso, compreende as cisões ocorridas na família, fatos que não eram contados, mas que emergem com a busca para compreender a mãe e rememorá-la. Pari passu, a narradora tensiona as próprias escolhas de vida – ser psiquiatra e também escritora –, o labor literário, a função da literatura no contemporâneo e sua pesquisa de doutorado. Tudo isso é inserido no romance, no qual é perceptível que as fronteiras entre o público e o privado e até mesmo da categoria “romance” igualmente sofrem abalos e fissuras.
Antes que apague, de Natalia Timerman, ultrapassa a dimensão o âmbito individual
II
Por ser um romance narrado em primeira pessoa, o primeiro ponto que chama a atenção é a discussão sobre o que pode a literatura ou como dar conta de uma história de vida que corre o risco de cair no esquecimento. Questões como essas surgem no decorrer das páginas e, diante da aproximação entre personagem e autora, fazem o leitor questionar o quanto da vivência de Natália Timerman constitui a protagonista, se as pessoas citadas realmente existem e, caso existam, como fica essa relação tênue entre literatura e ética.
Na coletânea Eu escreve: dilemas das escritas de si (Editora Record, 2025), organizada pela própria escritora, Julián Fuks, em um ensaio intitulado “O direito à própria história e a ética do contar”, reivindica essa possibilidade, relacionando-a ao que denomina de “pós-ficção”. Segundo o autor, uma das características desse tipo de escrita é a “desconfiança recíproca” que ocorre entre leitor e autor quando a narrativa em primeira pessoa se ancora em aspectos da vida daquele que escreve.
Esses “estremecimentos” ocorrem constantemente no romance, que insere na narrativa outros elementos que servem para alimentar desconfianças, como as mensagens trocadas entre a autora e médicos ou pessoas que cuidam da mãe, além das entradas de um caderno de anotações cuja função é registrar o processo de agravamento da doença. Em alguns momentos, essas anotações antecipam e atestam ao leitor um luto vivido ainda em vida pela protagonista. Também surgem diálogos com outras obras e com a crítica literária, compondo a maneira como essa personagem-escritora costura seu romance e insere no livro um tom ensaístico.
Escrevo na primeira página do caderno:
vou juntar as falas da minha mãe
recolher sua memória gasta
apreender os vazios
do que ela já esqueceu
vou fazer dela personagem
[…] vou escrever minha mãe
para que não seja mais minha
e eu possa acompanhá-la
enquanto ela vai
embora de si (p. 26-27)
Ao final de seu ensaio, Fuks afirma que a leitura calcada nessa pós-ficção está na relação entre o outro e si mesmo e que o objetivo dessa escrita é produzir afetações na vida. Logo, o narrar sobre a mãe, proposto por Timerman, está costurado ao seu próprio pensamento sobre a produção literária e a escrita de si, instaurando, em muitos momentos, uma discussão metanarrativa. Ao recolher os fios da memória da mãe, a protagonista tece uma colcha sobre essa mulher e sua árvore genealógica – ao final, uma investigação que servirá também para cobrir a si própria, pois a memória da mãe e a luta contra o esquecimento falam sobre a narradora igualmente.
Escrevo estas palavras para escapar ao seu vaticínio. Nunca foi fuga, mãe. É o que preciso provar a você e a mim, apertando na sala de emergência a sua mão rígida que involuntariamente me aperta de volta. Escrevo a fuga da fuga, enquanto sua artéria é enfim puncionada e você, agora sem dor, volta a deixar os olhos boiarem no entorno.
Escrevo para você, mãe; contra você. Também por você. (p. 13)
Entretanto, o romance ultrapassa o âmbito individual. A narrativa é atravessada pela imigração, pela questão judaica, por ser mulher no século XX, pelas renúncias e pelas subjetividades marcadas por relações violentas e ásperas. Há, portanto, o medo de que a morte da mãe represente também a perda de parte da história da sua família e de vivências importantes para que essa filha compreenda melhor a figura materna e uma história maior do que a da própria família.
Escrever sobre si perpassa pelo outro. Timerman deixa evidente que esse “eu” não é individualista; ao contrário, estamos diante de um empreendimento literário em que a primeira pessoa reverbera um “nós”, com base nas especificidades e na escavação dos arquivos familiares. Por isso, é muito significativo quando a mãe afirma que a filha lê para fugir da vida, como se houvesse nesse ato um individualismo. Ao término do romance, contudo, encontramos reflexões sobre o campo editorial, sobre o quanto é exaustivo trabalhar com literatura e sobre o papel que ela desempenha ao causar incômodo e estranhamento no leitor. Existe, assim, um projeto literário que vai além da fruição.
Lembrar, dizer, honrar memórias. Não adubar a nossa dor com o silêncio.
Mas nesse caso a dor não é minha, não diretamente. Como escrevê-la? As memórias não são minhas. Mas também já não podem ser da minha mãe. É aí que cabem minhas palavras.
A escritora Neige Sinno diz que uma pessoa só consegue formular uma experiência traumática quando já está um pouco salvo. Quem escreve já saiu do inferno, afirma ela, e só por isso consegue escrever. (p. 145)
Assim, ao longo das três partes do romance, acompanhamos as idas e vindas no tempo dessa filha enquanto mapeia os estágios em que a doença da mãe se faz presente. Se, nas duas primeiras partes, o leitor compreende as demandas e as escolhas da protagonista ao escrever sobre essa mulher, na última parte surge o que faltava para completar essa narrativa: a ordem cronológica dos fatos envolvendo a viagem para fora do país, o romance com o primo e, principalmente, a descoberta dos poemas escritos pela mãe, o que aproxima de algum modo as duas. À primeira vista, esse recurso pode parecer miraculoso, mas não deixa de ser mais uma forma de borrar as fronteiras entre o real e o ficcional, estratégia desenvolvida de forma consistente em todo o romance. É a própria literatura fazendo surgir aquilo que parecia perdido: “Mesmo que escreva sobre mim, é sobre outro que escrevo.” (p. 187).
Em Antes que apague, Natália Timerman alcança um novo patamar em sua trajetória literária. Arrisco dizer que este seja seu melhor romance até o momento. Nele, a autora aponta sua escrita para pontos importantes e em voga no contemporâneo. A autoficção empreendida ganha maior densidade ao narrar a mãe e evidencia a urgência de escrever sobre essa mulher num tempo no qual memória e esquecimento travam uma luta constante, numa sociedade cada vez mais acelerada e difusa, em que o passado é sempre posto à prova.


