
Amara Moira: ‘Povoar a literatura com o bajubá e resguardar a memória travesti’
Em entrevista à revista O Odisseu, Amara Moira compartilha sua relação com os livros e fala sobre como sua escrita se desenvolve entre o testemunho e a elaboração literária.
Foto: Fábio Audi (Divulgação).
Escritora, ativista e professora, Amara Moira é doutora em crítica literária pela Unicamp e uma das vozes mais relevantes da literatura brasileira contemporânea. Seus livros E se eu fosse puta (N-1 Edições, 2016) e Neca: romance em bajubá (Companhia das Letras, 2024) são referências para pensar a produção literária atual e a intelectualidade trans no Brasil.
Durante muito tempo, o mercado editorial relegou autorias trans, tratando suas narrativas como exceção ou curiosidade, e não como parte legítima da literatura nacional. Nomes como João W. Nery, Ruddy Pinho, Anderson Herzer e Loris Ádreon surgiram de forma tímida no século XX, abrindo espaço para discussões sobre identidade de gênero. No entanto, é a partir da década de 2010 que houve uma ampliação mais significativa da presença de pessoas trans nas editoras e no debate público, tendo como um dos grandes marcos o livro E se eu fosse puta. Na obra, Amara Moira narra sua experiência como trabalhadora sexual no início da transição de gênero para refletir sobre assuntos como prostituição, machismo, violência e o direito à autonomia de corpos trans.
Já em Neca: romance em bajubá, a autora utiliza a linguagem criada por mulheres trans e travestis durante a ditadura militar para relatar um encontro entre duas travestis. Entre a publicação de um livro e outro, Amara publicou diversos textos, colunas e participou de antologias e projetos ligados à comunidade LGBTQIA+ no Brasil.
Ao longo da entrevista, ela compartilha sua relação com os livros e como sua escrita se desenvolve entre o testemunho e a elaboração literária, refletindo tanto suas experiências pessoais quanto um compromisso mais amplo com a linguagem, a memória e as possibilidades políticas da literatura.

“Eu queria usar o bajubá na escrita desde que conheci as primeiras palavras da língua”, conta Amara Moira
Kaio: Quando foi seu primeiro contato com a literatura LGBTQIA+?
Amara: Não sei se houve um primeiro contato oficial, indiscutível. Creio que foram aproximações sucessivas, até que eu mergulhasse de cabeça nessas obras. Lembro, por exemplo, de ter conhecido o Marquês de Sade no começo da minha vida adulta e ter visto pela primeira vez personagens que não viam problema em ser ativos e passivos, em transar com mulheres e com homens. Foi libertador. Um pouco antes disso, lembro de ter me deparado com Corydon, de André Gide, uma espécie de tratado sobre a homossexualidade (mas que não me enchia os olhos, porque eu já me entendia como bissexual). Por fim, eu mencionaria o momento em que transformei a “sodomia nas cantigas trovadorescas” em tema de estudos ao longo da minha graduação em Letras. Acredito que foram esses os três marcos.
Kaio: Quando decidiu escrever seu primeiro livro E se eu fosse puta?
Amara: Foi acontecendo. Eu sempre quis ser escritora, então a escrita já acompanhava a minha vida. Daí, enquanto eu vivia as minhas primeiras experiências como trabalhadora sexual em Campinas, eu ia registrando num blog as minhas impressões.
O blog foi crescendo, ganhando repercussão, até que, em 2016, eu passei no Curso Livre de Preparação de Escritores (CLIPE), da Casa das Rosas, em São Paulo, e me mudo para a capital. O projeto aprovado foi justamente para transformar o blog em livro, dando a ele mais literariedade e diminuindo o aspecto militante. No entanto, antes mesmo das aulas começarem, já chegou um convite de uma editora para publicar a obra, o que acabou apressando bastante o processo… se não tivesse havido o convite, eu teria conduzido a reescrita com muito mais calma. De qualquer forma, eu amo o que o livro se tornou e até hoje sinto bastante orgulho em tê-lo escrito.
Kaio: Você esperava que E se eu fosse puta ganhasse tanta repercussão? Como foi lidando com o sucesso do livro?
Amara: É inacreditável o que eu vivi nesses dez anos. No princípio, as pessoas tinham um pouco de vergonha de comprar o livro com esse título, de serem vistas com essa obra, mas aos poucos foram tomando gosto e o livro foi ganhando mais e mais leitores. Atualmente, já são cerca de 10 mil exemplares vendidos, um terço deles por mim mesma, nas minhas palestras pelo Brasil e exterior. Além disso, preciso mencionar as traduções para o espanhol da Argentina em 2022 (com adaptação para o da Colômbia em 2024) e para o inglês dos EUA em 2025, permitindo que minhas palavras atravessem o abismo que separa o português dos demais idiomas. Também acabou de acontecer uma adaptação em formato documentário para o cinema, que deve estrear nos próximos meses.
Mas há um outro lado, que é o da exposição. Quem lê o livro me acompanha em momentos de grande intimidade e creio que eu ficarei marcada pelo resto da vida por essa obra. É algo sobre o qual tenho refletido, pensando que talvez eu prefira, daqui em diante, explorar mais a ficção ou autoficção, pelo menos, para me sentir menos exposta.
Kaio: Neca é um livro inteiramente escrito em bajubá. Como surgiu essa ideia?
Amara: Eu queria usar o bajubá na escrita desde que conheci as primeiras palavras da língua, mais de vinte anos atrás, quando eu namorei uma travesti. No entanto, foi só depois da minha transição em 2014 (momento em que comecei a trabalhar com prostituição também) que eu tive oportunidade para, de fato, aprender a língua. Eu já havia escrito poemas usando palavras isoladas, mas experiências mais densas e cifradas foram só a partir do meu blog. Nele, surgiu o primeiro parágrafo do Neca em 2015, e aí um desafio da revista Serrote me levou a escrever as primeiras três páginas em 2018, que viraram dez na antologia A resistência dos vagalumes em 2019, e assim foi crescendo até chegar às 120 páginas atuais. Às vezes, eu até ficava na dúvida se a trama não era mera desculpa para que eu utilizasse o máximo possível de palavras.
Um detalhe interessante: meu editor na Companhia das Letras me lançou o desafio de usar o máximo possível de palavras, mas fazendo com que o leitor pelo menos achasse que estava entendendo. Não era uma censura, era um pedido de cuidado, para que a experiência de leitura fizesse sentido para um público mais amplo. Só que, um ano e meio depois, com a acolhida que a obra teve, já dá até pra começar a imaginar experiências mais radicais com o bajubá.
Amara Moira: “A boa literatura é sempre uma forma de ativismo”
Kaio: Sua literatura é também uma forma de ativismo?
Amara: A boa literatura é sempre uma forma de ativismo. Como dizia Ezra Pound, a literatura tem por objetivo manter a comunicação eficiente, precisa, clara, com o que estou plenamente de acordo. Temos nossos temas preferenciais, podemos nos engajar em causas que estejam fervilhando por agora, mas é a linguagem o que interessa no final das contas. É ela que fará com que o livro reverbere mesmo quando esses temas e causas deixarem de fazer sentido. Sinto que a crise que vivemos tem a ver com o fato de só nos importarmos com as historinhas contadas, perdendo de vista o trabalho mais profundo de depuração e aperfeiçoamento da linguagem. Por isso, vai se tornando comum tratarmos os clássicos como o puro suco da opressão e acharmos que não temos nada a aprender com esses Homeros, Dantes e Shakespeares da vida. Creio que é uma das formas de entender porque viramos presa fácil da desinformação.
Mas, sim, há outros ativismos na minha escrita também. Fico pensando no papel da literatura em resguardar a memória travesti, daí o esforço em povoar minhas obras com o máximo de palavras do bajubá, por exemplo. É diferente do que um dicionário e um glossário fazem, pois a literatura mostra a palavra em uso, contribui para a expansão do próprio português. E, nesse sentido, é possível que a sociedade comece a nos ver com outros olhos e a própria transfobia vá perdendo força.

Kaio: Você e o Renan Quinalha administram um clube do livro. Como surgiu essa ideia?
Amara: Clubes do livro são formas poderosas de chamar a atenção para determinadas questões e obras. Pensando nisso, a proposta para esse primeiro ciclo foi de, por um lado, usar a literatura para provocar discussões LGBTI+ e, por outro, mostrar o protagonismo que a temática LGBTI+ vem assumindo na literatura brasileira contemporânea. Queremos propor ciclos diferentes a cada conjunto de meses, abarcando a pluralidade de produções LGBTI+ que existem no campo da literatura.
Kaio: Desde a publicação do seu primeiro livro, o mercado editorial tem dado mais abertura a autorias trans? Ainda existe resistência para o reconhecimento da intelectualidade produzida por pessoas trans no Brasil?
Amara: Creio que, agora, há um desejo expresso do nosso mercado editorial de publicar pessoas trans. Às vezes, até com demasiada pressa, sem submeter a obra a revisões que a tornariam muito mais potente. Somos uma categoria que, até pouco tempo atrás, não tinha quase nenhuma entrada nas universidades, então é comum que demore um tempo até produzirmos intelectuais de peso, capazes de transformar o debate público. Mas, estão surgindo sim, e ouviremos falar muito de intelectuais trans daqui em diante.

