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Políticas Públicas e Cultura

Indígenas do Mato Grosso do Sul denunciam mortes e ameaças após derrota de Flávio Bolsonaro

Em entrevista à revista O Odisseu, Jânio Kaiowá, historiador, ativista e secretário do Aty Guasu relata o agravamento da situação.

Indígena no Mato Grosso do Sul sofre ataque (Gabriel Schlickmann/ Agência Pública).
Indígena no Mato Grosso do Sul sofre ataque (Gabriel Schlickmann/ Agência Pública).

Povos indígenas Guarani e Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, denunciam uma série de ameaças e episódios de violência contra suas comunidades. Entre as denúncias estão assassinatos, atropelamentos, perseguições e ameaças de envenenamento da água. 

A violência contra os povos indígenas no Mato Grosso do Sul não é recente. O estado possui histórico de conflitos territoriais, envolvendo fazendeiros armados e comunidades à espera da demarcação de suas terras. Entretanto, as ameaças se intensificaram após a derrota de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais. 

Em entrevista à revista O Odisseu, Jânio Kaiowá, historiador, ativista e secretário do Aty Guasu (Grande Assembleia do Povo Guarani e Kaiowá), relata o agravamento da situação.

“Essa perseguição e o ódio por parte dos fazendeiros já existiam, mas depois do resultado da eleição começaram a piorar.

O que está acontecendo aqui é preconceito. Quem está nos ameaçando está culpando a gente pela vitória do Lula, eles falam que são os indígenas que votam no PT.”

Mais de dez territórios indígenas da região estão em processo de demarcação. Enquanto aguardam o reconhecimento que é deles por direito, muitas famílias Guarani e Kaiowá permanecem às margens de rodovias e expostas à violência. A demora na demarcação das terras tradicionais contribui para a continuidade dos conflitos.

“Muitos territórios estão em processo de estudo e com a esperança da demarcação. 

Aqui no Mato Grosso do Sul, as estradas e rodovias passam no meio de comunidades indígenas. Eles começaram a causar atropelamentos, assassinatos e ameaças de envenenar a água.

Muitas comunidades não possuem água abastecida por empresas. Tem município que precisa de caminhão pipa. Estão ameaçando envenenar essa água e estamos com medo de pegar água do Rio.

Os direitos básicos estão sendo negados para os povos Guarani e Kaiowá, e também os Terena.”

(Continua após a imagem)

Jânio Kaiowá, historiador e ativista indígena (Reprodução das redes sociais)

Jânio também denuncia o racismo que estão enfrentando, e relata que ainda existem pessoas que acreditam que indígenas não deveriam ter acesso à eletricidade, geladeiras ou ao direito de votar.

“Muitos preconceitos ainda recaem sobre a gente. Ainda hoje nós somos olhados como se não fizéssemos parte da sociedade brasileira. Ainda tem gente que acha que não podemos votar, não podemos ter luz, não podemos ter geladeira etc.”

Ele também aponta fazendeiros e pistoleiros entre os responsáveis pelas ameaças, e o possível envolvimento de policiais e políticos. 

“No Mato Grosso do Sul tem muita gente que é anti-indígena, é um dos estados que mais tem conflitos territoriais. E é um estado muito bolsonarista também.

Dividiram o comércio da cidade entre ’esquerda’ e ’direita’, e só estamos podendo comprar no que determinaram que é de esquerda.” 

Perguntado sobre os riscos que comunidades indígenas correriam, caso Flávio Bolsonaro tivesse conquistado a eleição, Jânio respondeu:

“Durante a gestão de Jair Bolsonaro, muitas comunidades morreram. Se a extrema direita ganhasse outra vez, a gente seria massacrado.

Com o Lula, a gente sentiu que a FUNAI e a CESAI foram mais fortalecidas. E os direitos que temos hoje, garantidos pela Constituição, o direito à saúde, educação, reconhecimento do território tradicional, tudo foi reconhecido pelo Lula.

Mas, nesse novo governo dele, a gente espera ter mais políticas públicas.”

Diante da gravidade do que está acontecendo no Mato Grosso do Sul, ele pede que a sociedade brasileira ajude a divulgar as denúncias e pressione as autoridades para garantir a segurança dos povos indígenas. 

“A gente vai continuar lutando e acreditando no sonho do amanhã, mas ainda estamos lutando sozinhos, em pleno século 21. A sociedade precisa falar sobre isso. Nós que estamos na linha de frente nem sabemos o que vai ser de nós amanhã. A sociedade pode nos ajudar dando visibilidade e ajudando a criar estratégias e políticas públicas.”

Também está sendo organizada uma campanha de apoio às comunidades afetadas, que precisam de ajuda para enfrentar as dificuldades deste momento.

MAR ABERTO

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