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Entrevistas

Marcio Junqueira: “Gosto da aventura do não saber”

Em entrevista para O Odisseu, Marcio Junqueira fala sobre seu novo trabalho "Você com 24, eu com 42" e sua trajetória artística.

O poeta e artista visual Marcio Junqueira (@ricardoadantas_/ Divulgação).
O poeta e artista visual Marcio Junqueira (@ricardoadantas_/ Divulgação).

Nascido em Feira de Santana, na Bahia, Marcio Junqueira é poeta, artista visual, professor e pesquisador. Mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e doutor em Artes Visuais pela UFBA, desenvolve uma produção artística entre a literatura, o desenho e a performance, tendo como algumas de suas principais questões as masculinidades e subjetividades negras, homoerotismos, autoficção e memória da comunidade LGBTQIA+. É autor dos livros voilà mon coeur (Edições Mac, 2010), Lucas (Sociedade da prensa/edtóra, 2015) e Sábado (Riacho, 2019). Em 2027, irá lançar seu próximo livro, Você com 24, eu com 42, que também é o título de uma performance que Marcio Junqueira desenvolve atualmente. A obra marcará ainda a estreia de uma nova coleção de poesia.

Um de seus trabalhos de maior repercussão é Diário de pegação, série de desenhos desenvolvida entre 2014 e 2024, na qual o artista transformou experiências de encontros com outros homens em registros imagéticos. Nesse processo, Marcio encontrou uma maneira de investigar as relações homoafetivas e utilizar a própria produção como agente de intimidade e para potencializar a qualidade dos afetos.

Embora o homoerotismo esteja presente em grande parte de sua produção, Marcio questiona a necessidade de classificar trabalhos artísticos a partir da sexualidade de seus criadores, sobretudo quando essas definições costumam recair sobre artistas que não correspondem aos padrões brancos e heteronormativos. Da mesma forma, não se prende às divisões tradicionais entre as linguagens artísticas. Para ele, literatura, desenho e performance são formas de expressão que se atravessam e se complementam, permitindo explorar diferentes possibilidades de criação. Essa liberdade se manifesta em seu interesse por experimentar novos suportes e se aventurar por outros campos, sem a preocupação de estabelecer fronteiras rígidas entre as artes.

Em entrevista para O Odisseu, Marcio Junqueira fala sobre Você com 24, eu com 42, a importância da Bahia em sua produção e questiona a ideia de uma literatura universal que privilegia experiências brancas, masculinas e sudestinas. O poeta revisita os caminhos de sua formação literária, recorda os primeiros encontros com personagens e autores da comunidade LGBTQIA+, compartilha histórias de quando editava a revista de literatura do coletivo Bliss e reflete sobre o caráter autobiográfico de seus trabalhos.

 “Eu tenho um pouco de ojeriza a essa ideia de universalidade”, diz Marcio Junqueira

O poeta e artista visual Marcio Junqueira durante a performance Você com 24, eu com 42 (@ricardoadantas_/ Divulgação).

Você com 24, eu com 42 menciona bastante a geografia da Bahia. Qual é a importância desse território para o que você produz?

O território é fundamental, porque a experiência do território é constitutiva do sujeito.

Os modos como a gente se relaciona, a forma como a gente fala, como a gente negocia, os hábitos, isso tudo é constituído nas relações que a gente estabelece com o território. O território não é simplesmente uma paisagem. O território é produtor de subjetividades, de modos de vida, de modos de entendimento.

E aí entra numa questão que eu acho muito interessante. Porque o que é chamado de universal, de modo geral, está relacionado com a experiência  masculina, branca, cis, heterossexual, muitas vezes euro-estadunidense e, no caso brasileiro,  sudestina (especialmente Rio de Janeiro e São Paulo).

 Eu tenho um pouco de ojeriza a essa ideia de universalidade.

Me interessa mais uma literatura, uma experiência literária que seja situada, que seja localizada, porque a gente não vive solto no espaço. O fato de você nascer em Feira de Santana ou você nascer em São Paulo vai gerar impactos na sua subjetividade, nos acessos que você tem, nos modos que você se relaciona, nas estratégias que você vai desenvolver ao longo da vida.

No Você com 24 eu com 42, mas não só. Toda a minha obra é situada na Bahia. Em Feira de Santana, em Salvador, no Sul da Bahia, no Arraial d’Ajuda, Porto Seguro, Eunápolis, porque é o meu território, é o território onde eu circulo, é o território que me formou.

E que foi, ao longo dos anos, dentro da tradição literária brasileira, tomado como espaço exotizante. Tudo que não era o Rio de Janeiro, tudo que não era São Paulo era exótico. E eu tenho um pouco de vontade de exterminar essas definições ou esses a prioris.

Se a gente pensar na própria história da literatura brasileira, o modernismo dos anos 30, quando sai do Rio e de São Paulo, ele é lido como literatura regional. Jorge Amado, Zé Lins do Rego, Graciliano Ramos, todos os autores altíssimos, são lidos como autores regionais, como se aquela experiência situada só fosse interessante ou só fosse interessada naquele espaço. Como se uma história que pudesse ser universal só fosse narrada no Rio de Janeiro.

Acho isso chato, acho isso cansado, acho isso ultrapassado até. E não tenho muito interesse também nessas experiências que parecem descarnadas, que parecem que poderiam acontecer em qualquer lugar. Uma coisa que pode acontecer em qualquer lugar, para mim, não merece acontecer em lugar nenhum, é desinteressante.

Acredito que está todo mundo muito cansado dessa ideia de universalidade branca, masculina, sudestina. E digo isso inclusive  porque, se você pega os best-sellers brasileiros dos últimos anos, são todos muito situados. Torto arado (Itamar Vieira Junior), O avesso da pele (Jefferson Tenório), A palavra que resta, do maravilhoso Stênio Gardel.  São historias que só poderiam acontecer naqueles territórios, onde a geografia não é só cenário, é também um agente ativo no processo de significação. 

Eu tenho uma sorte enorme de ter nascido na Bahia. É um lugar muito abençoado, muito complexo também. As relações coloniais aqui foram muito fortes, o racismo aqui é uma coisa muito entranhada. Mas, ao mesmo tempo, é um lugar onde você ser preto tem nuances muito diferentes da experiência de ser preto em Minas, ou em São Paulo ou no Rio Grande do Sul.

O fato de a gente ter tanta gente preta e os modos de vida que foram plasmados, foram construídos por essas pessoas pretas, eu acho finíssimo. Pouca gente vai ter essa alegria de ter nascido nesse território e de receber esse caldo cultural já no leite do peito da mãe. O fato de a gente comer comida de dendê, as relações que a gente estabelece com os avós, com os pais, a própria ideia de ancestralidade, que não é um conceito aprendido via academia, mas aquilo é uma relação direta.

Ancestralidade é minha vó Maria me ensinando que você toma chá de boldo para o estômago. Não é uma ideia descarnada. Aquilo tem a densidade da vida, tem a densidade das relações, como se estabelece.

Então, na minha obra inteira, a relação com o território é muito marcada. No Você com 24, eu com 42, muito, mas em todos os meus livros.

Sábado, que é o meu segundo livro de poemas, publicado em 2019, embora não seja nomeado, a história se passa em Feira de Santana. Tem uma passagem em que eu descrevo um trecho que sai da escola onde eu estudava até a casa dos meus pais. E lá eu falo de uma vizinha da minha mãe, Dona Santinha. Eu tenho um orgulho enorme de botar Dona Santinha no poema, e lembro que minha mãe, quando leu, deu muita risada e falou: “mas, menino, até Santinha tu botou no poema”.

Para mim, isso é o que serve da literatura. Poder botar Dona Santinha no poema, poder trazer essa experiência miúda, uma literatura menor, talvez, mas que dê conta das nossas particularidades, da nossa subjetividade, e sem transformar isso em exotismo, pensando a partir desses territórios, pensando a partir dessas subjetividades produzidas por esses territórios.

Como tem sido unir literatura, performance e artes visuais?

Internamente não tenho uma clareza tão grande dessas divisões da arte, de gêneros. Embora, como professor e como pesquisador, eu entenda essas divisões, como artista, eu não tenho isso tão claro. 

Acho que a base do trabalho, em geral, tem sido a escrita e o desenho. E o desenho até mais como método de investigação do que como produto final. 

E, se a gente pensar bem, escrever também é desenhar, porque a gente desenha as letras. Então, o gesto de desenhar e de escrever, para mim, são gestos muito parecidos. Não vou dizer que é o mesmo gesto, porque acho que tem algumas sutilezas. Eu me sinto menos angustiado, por exemplo, para desenhar uma coisa do que me sinto para escrever. Embora eu também não me sinta muito angustiado para escrever. Mas eu sinto que a escrita pede uma temperatura diferente.

A performance, acho que ela vem um pouco desse gesto da escrita, e talvez seja até anterior ao próprio gesto de escrever. Porque eu gosto muito de ler, é uma das coisas que eu mais gosto, e de falar textos. Eu gosto muito de ler textos em voz alta. Sempre tive esse hábito.

E, na Bliss, a gente tinha uma pesquisa grande sobre essa coisa de oralização do poema.  Me aprofundando mais nas artes visuais, isso passa a ser um campo possível de atuação, de investigação, de como falar o poema, em que lugar cabe o poema.

Nesse momento, por exemplo, construindo essa performance do Você com 24, eu com 42, tem sido um movimento muito interessante de pensar como transpor aquilo do livro para o palco. Tem coisas que no livro soam de um jeito e que, na voz, no corpo, você faz uma inflexão diferente, aquilo já ganha um sentido um pouco mais irônico, um pouco mais trágico ou mais engraçado.

Mas, internamente, não vejo tantas diferenças. Acho que tudo me influencia e tudo me dá vontade de fazer. Tenho vontade de fazer muitas coisas, tenho vontade de escrever um roteiro de história em quadrinho, tenho vontade de compor canções, e já compus algumas, mas tenho vontade de compor mais canções, com parceiros e sozinho.

E acho que esse lugar de poeta também, e falo desse lugar de poeta porque, quando a gente pensa num trabalho de um artista, seja ele um músico, seja ele um cineasta, seja ele um escritor, a gente fala da poética de um autor. Para mim, esse lugar da poesia e da poética é um lugar muito aberto, que tem muitas portas, tem muitas possibilidades de entendimento, de tratamento. E acho que, no campo das artes visuais, isso me deu mais liberdade de pensar suportes, de resolver os trabalhos de modos distintos.

Lembro muito de uma fala do Fábio Moraes, numa gira de literatura expandida. O Fábio Moraes é um artista visual que eu gosto muito, mas que essencialmente trabalha com escrita. Ele tem um trabalho bem pouco retiniano. O Fábio disse que, como ele não é escritor, ele pode ter uma frase e aquela frase ser o trabalho. Ele pode fazer uma bandeira, ele pode fazer um stencil, ele pode fazer uma faixa, ele pode fazer um grafite com aquela frase. Se ele fosse escritor, talvez ele tivesse que esperar aquela frase se juntar a outras frases, compor um corpo para ele poder fazer um livro, uma plaquete, um volume.

Para mim, as artes visuais me dão um pouco esse retorno, essa possibilidade de entender o trabalho nessas dimensões todas.  Gosto de artistas que misturam coisas, que se aventuram por campos que não dominam exatamente.

Eu também não tenho muita vontade de fazer alguma coisa que eu já domine plenamente. Eu acho um pouco entediante. Na Bliss, a gente tem um pouco esse slogan, dizendo que a gente só faz o que a gente não sabe fazer. Se a gente souber fazer, a gente já não tem mais interesse em fazer. Me identifico totalmente com isso. 

Gosto da aventura do não saber. 

“Comecei a fazer arte homoerótica quando comecei a fazer arte, embora não ache que eu faça arte homoerótica. Acho que o que eu faço é só arte.”

O poeta e artista visual Marcio Junqueira durante a performance Você com 24, eu com 42 (@ricardoadantas_/ Divulgação).

Sua obra se relaciona bastante com o homoerotismo, que é mais evidente em Diário de pegação. Quando começou a fazer arte homoerótica? Existe uma barreira maior ao trabalhar com esse tema?

Comecei a fazer arte homoerótica quando comecei a fazer arte, embora não ache que eu faça arte homoerótica. Acho que o que eu faço é só arte.

Porque, embora eu ache que, para às vezes ter legibilidade no mercado ou para ser mais facilmente compreendido pelas pessoas, a gente vai um pouco se auto-objetificando, vai se etiquetando, vai aceitando as etiquetas que as pessoas colocam na gente. Mas, por exemplo, eu não vejo ninguém dizer que o trabalho do Carlito Azevedo é poesia cis-heterossexual,  aquilo  é tratado simplesmente como poesia, como literatura.

Mas sabemos que todos os outros sujeitos que não são homens cis, brancos, heterossexuais (e no caso do brasil, sudestinos) eles são marcados. Enfim, é uma questão complexa. Acho que é importante a gente pontuar isso, porque senão fica parecendo que só a gente é marcado e os outros não. Então, o trabalho de Lucian Freud é o quê? É arte cis-heterossexual? E o trabalho do Francis Bacon é arte homoerótica? Suspeito que seja tudo arte.

Mas acho que eu começo a fazer arte homoerótica quando eu começo a fazer arte, porque acho que as condições subjetivas do sujeito, as escolhas, tudo que forma o sujeito, é filtrado pelo trabalho artístico, pela poética, pelo modo como a gente se coloca.

E, sim, acho que existe uma barreira maior em trabalhar com esse tema. A gente ainda vive em uma sociedade que é bastante racista, que é bastante LGBTfóbica, que é bastante xenofóbica (basta a gente ler os comentários sobre o nordeste pós-primeiro turno) . Então, muitas vezes, um artista que trabalha com questões ligadas à negritude ou questões ligadas a gênero ou à sexualidade é lido como artista de nicho. Mas estamos aí lutando para transformar essa percepção. Se a gente vai conseguir transformar isso, eu não sei, mas estamos na batalha.

A ideia de “diário” pressupõe algo bem íntimo. Diário de pegação tem caráter autobiográfico? Como foi criar um diário a partir de imagens?

Eu sou como o Caetano Veloso, totalmente autobiográfico. Até o que não é autobiográfico, é autobiográfico.

O Diário de pegação é fundamentalmente autobiográfico, sim. Ele parte das minhas vivências, é um pouco da elaboração das minhas vivências.  Mas eu entendo ele como autoficção.  Em parte porque me dei liberdades que num trabalho estritamente autobiográfico não seria possível.  

Em determinado momento da minha vida, comecei a me racializar e a me entender como uma pessoa preta. Quando comecei a racializar as minhas relações, uma história muito diferente emergiu delas. E o Diário faz parte desse processo de tentar racializar minhas relações afetivas e sexuais.

Não faço mais o Diário, trabalhei com ele entre 2014 e 2024. Não desenho mais nenhum boy que eu fico nas passagens. Pretendo que esse trabalho vire um livro e que ainda circule bastante, mas é uma série fechada já. Finalizei ele como projeto em 2024, durante uma residência na FAAP,  e em 2025 o defendi como tese de doutorado do PPGAV da UFBA.

O Diário teve muitos momentos. Em um primeiro momento, eu desenhava aquilo de memória, e era muito aberto. Fazia o Diário com o que me afetava, tanto encontros bons quanto encontros ruins. Eu não estava a fim de falar sobre amor, porque estava muito machucado. E eu estava muito a fim de falar de sexo, de falar de pegação, desses modelos de relacionamento que são mais breves, e de pensar como a comunidade gay, especificamente, tem se relacionado, tem vivido a sua sexualidade.

Em determinado momento, aquilo virou uma chave para mim, porque eu me vi, às vezes,  fazendo trabalhos e elaborando muitas violências. Porque eu acho que a comunidade gay é muito violentada, mas é bastante violenta também. É muito racista, é muito etarista, enfim, existe uma série de questões que a gente poderia colocar aqui. E eu não estou me eximindo de nada disso. Como eu faço parte da comunidade, estamos aí vivendo e reproduzindo isso tudo.

Mas, em determinado momento, na feitura do Diário, eu entendi que o que me interessava era elaborar encontros que aumentassem a minha potência de vida. Encontros alegres, encontros felizes, encontros possíveis. Não tinha vontade mais de elaborar a vergonha, o sofrimento, o desencontro. Queria poder celebrar o encontro.

E, a partir desse momento, o Diário de pegação ganha um caráter diferente. Ao invés dos desenhos serem produzidos a partir da minha memória, eu comecei a fazer uma agência para a produção dos desenhos.

Então, sempre que eu tinha um date que considerava muito bom e feliz, e eu queria ter aquela pessoa no Diário, eu falava: “olha, estou fazendo um projeto que tem essas características, você tem interesse em ser incluído? Você achava que é legal a gente produzir uma imagem?” E aí eu e o outro produzíamos uma fotografia, um vídeo ou uma sequência fotográfica que depois servia de base para os desenhos.

O Diário foi, inicialmente, o meu campo de vingança e de passar recibo, mas a partir dessa virada, entendi que não queria mais falar sobre as tristezas ou ficar elaborando o desencontro. O trabalho foi transformado em agência de aproximação, de criação de intimidade, de produção mesmo, de uma outra qualidade de afeto.

Foi uma coisa muito boa, eu fiquei muito feliz de ter feito essa mudança no projeto. Me reconheço bastante nele, e as outras pessoas se reconhecem também. É um trabalho que tenho orgulho.

Quando decidiu produzir arte a partir de suas próprias experiências e memórias?

Não sei se foi uma decisão. Acho que a gente sempre produz a partir das nossas próprias experiências e das nossas memórias. Acho que toda produção artística, intelectual é isso, né? A gente parte do chão em que a gente está. A gente parte da gente mesmo, mesmo que a gente não esteja falando da gente mesmo. A gente dá uma maquiada, escreve em terceira pessoa, finge que aquilo não é exatamente o que a gente viveu, dá uma falseada. Para o bem ou para o mal a gente não consegue se libertar de si mesmo, né? Ou como disse Hilda Hilst: tu não te moves de ti.

Quando foi seu primeiro contato com narrativas literárias sobre a comunidade LGBTQIA+?

As primeiras referências LGBTQIA+ que encontrei não foram na literatura, foram no teatro.

Eu fiz teatro dos 14 aos 21 anos de idade e tinha o hábito de ler muita dramaturgia. Como eu era o mais novo do grupo, eu era bastante estimulado pelas pessoas mais velhas. Elas me traziam várias referências de música, cinema, literatura, artes visuais, muitas coisas para ver e para ler.

O primeiro personagem da comunidade LGBTQIA+ que me recordo de ter encontrado na vida foi um personagem do Plínio Marcos, o Veludo, de Navalha na carne, que é um personagem ambíguo, muito marginalizado, muito violentado. Então, tem uma dificuldade de se identificar, né?  Esse foi o primeiro personagem LGBTQIA+ que encontrei.

Mas, nesse período, também houve outros encontros que foram preciosos. Tem dois filmes que foram muito marcantes para mim. Um deles, um filme inglês chamado Delicada atração, que eu acho que é de 1996. Eu vi no cinema e fiquei muito mobilizado, me identifiquei muito com o personagem. Fui assistir muitas vezes esse filme no cinema.

E, um pouco depois, embora seja um filme anterior, mas eu fui ter acesso a um VHS dele depois, um filme chamado Eclipse de uma paixão, com Leonardo DiCaprio, que conta a história de Rimbaud, da paixão de Rimbaud e de Verlaine. Leonardo DiCaprio fazia Rimbaud. Fiquei completamente siderado com o Rimbaud nesse momento, nessa figura desse poeta que depois abandona a literatura, que tem essa paixão enlouquecida com o poeta mais velho. Aquilo, para mim, foi muito marcante.

Entre esses dois filmes também tem um dado significativo, que é o lançamento do primeiro livro do Antônio Cícero, Guardar. O Cícero já era uma referência forte para mim por conta das canções, das canções com Marina, das canções com Adriana Calcanhotto, Lulu Santos. Enfim, já era um espelho e um farol para mim. Mas, quando sai o primeiro livro dele, a densidade dos poemas, a beleza greco-carioca dos poemas claramente homoeróticos, aquilo foi uma virada de chave, foi uma transformação total.

Um pouco depois disso, sai uma antologia da Heloisa Buarque de Hollanda, já no final dos anos 90, chamada Esses poetas, e que também foi muito importante  para mim, porque tinha poemas homoeróticos do Guilherme Zarvos, tinha poemas do próprio Antônio Cícero, tinha poemas do Ítalo Moriconi, que depois veio a ser meu orientador durante o mestrado.

A prosa foi chegar bem depois. No princípio foi o teatro, o cinema e a poesia.

Um tempo depois de descobrir o Antônio Cícero e esses outros poetas na antologia da Heloisa, descobri o Caio Fernando Abreu. O Caio morreu em 1996 e o primeiro livro de contos dele, Inventário do irremediável, foi relançado e distribuído para uma série de escolas públicas. A escola em que eu estudava não recebeu o livro, mas a escola em que estudava uma colega que fazia teatro comigo, Jaqueline Caribé, recebeu. Ela leu esse livro, ficou impressionada, lembrou de mim, achou que aquilo parecia muito comigo, roubou o livro e me deu. É o exemplar que eu tenho até hoje.

Pensando um pouco antes ainda, me recordo, mas talvez não tivesse nem tanta clareza ainda sobre essas autorias, sobre esses personagens LGBTs, do meu encontro com Álvaro de Campos. Antes mesmo do Fernando Pessoa, com o Álvaro de Campos. Minha irmã é três anos mais velha do que eu e a gente tem uma relação muito próxima. Eu sempre gostei muito de ler, desde que me entendo por gente. Eu lembro quando minha irmã estudou Álvaro de Campos na escola, quando ela teve contato com a poesia de Fernando Pessoa, voltou para casa falando: “você tem que ler isso aqui, é a sua cara”.

Eu ainda não fazia análise, fazia psicoterapia. E a minha psicóloga, que alguns anos depois veio a virar minha psicanalista também, o nome dela é Bianca, ela me recomendou que eu lesse Álvaro de Campos. O poema em linha reta.  Eu devia ter 13 anos, talvez, e lembro de ir à biblioteca pública pegar a poesia reunida de Álvaro de Campos, ler tudo e ficar muito assombrado. Ali já tinha algumas insinuações homoeróticas, mas era muito sutil, muito sutil mesmo.

Mas antes disso tudo já tinha a canção popular brasileira: Bethânia, Caetano, Adriana Calcanhotto, Marina Lima,  Angela Ro Ro, Cazuza. Renato Russo… Minha educação sentimental foi (e segue sendo) pelas canções. 

A Bliss fez um trabalho muito bonito na poesia. Como foi editar uma revista de literatura?

A Bliss nasceu em 2008, enquanto coletivo. Primeiro chamava Coletivo Bliss, e depois virou Coletivo Bliss não tem bis, e agora chama Coletivo Blix.  Em parte é uma brincadeira, em parte é um entendimento de que Bliss (êxtase) é irrepetível. 

O coletivo nasceu da oficina do Carlito Azevedo. Ele foi artista residente da UERJ entre 2007 e 2008. Eu estava fazendo mestrado no Rio e, na oficina, conheci Lucas Matos e Clarissa Freitas. Lucas era estudante da UERJ também, hoje em dia professor do CAp UERJ. Lucas estudava, tinha já uma relação com literatura, mas ele vinha do teatro. E Clarissa também estudava literatura. Estava acabando a graduação na UERJ, mas tinha feito cinema antes e tinha muito interesse em questões gráficas. Então, desse encontro de nós três nasce a Bliss.

Eu também já tinha uma produção poética na Bahia. Inclusive, quando fui para o Rio, o primeiro grupo poético que eu encontrei, uns dois ou três anos antes da Bliss, foi com os poetas que vendiam poesia ali na porta do CCBB e formavam um grupo chamado Poesia Maloqueirista. Tinha o Giovanni Baffo, o Renato Limão, enfim, uma galera que era muito instigada, muito instigante e tinha um repertório completamente diferente do meu. Eles eram muito mais próximos dos Beatniks. Então, eu já tinha essa aproximação com os poetas no Rio de Janeiro.

Na oficina do Carlito, eu me aproximei de Lucas e Clarissa, e a gente passou a sair muito depois da oficina e ter discussões enormes sobre literatura. Eu morava no Maracanã e a gente ia para um barzinho na Praça Varnhagen, e ficava bebendo e conversando. E, por conta dessas conversas todas, a gente decidiu criar o coletivo.

A gente fez uma primeira revista, que saiu pela 7Letras em 2009, e foi uma experiência deslumbrante e frustrante ao mesmo tempo.  Deslumbrante porque ainda hoje eu acho meio absurdo três ilustres desconhecidos inventarem uma revista de poesia e aquilo acontecer.  E frustrante porque a recepção foi bem mais fria do que eu esperava. E obviamente eu esperava muito. A gente ficou um ano fazendo a revista, um ano de assombros.  Tem colaboração da Calcanhotto (inclusive ensinando a fazer uma parangolé pamplona), tradução do Sandro Penna, um making of que eu acho foda até hoje.  

A Bliss foi um coletivo muito atuante até 2015, embora a última coisa que a gente tenha lançado foi em 2020. Quando o coletivo fez dez anos, em 2019,  a gente fez uma nova revista (Bliss X).

A gente tinha muito interesse nessa coisa da performance, em oralizar o poema. E era um coletivo de poetas e editores. Então, tinha essa marca de escrever sobre o trabalho das outras pessoas, de editar o trabalho de outras pessoas também, de promover eventos e circular. Foi uma maravilha.

Em 2013 saiu uma segunda revista, que é uma revista em formato de áudio. Era um CD duplo, que a gente ficou um ano gravando, com a ajuda da Coarte, da UERJ. E mantivemos um blog com postagens semanais durante alguns anos. 

Mas, a partir de determinado momento, cada pessoa passou a morar numa cidade. Lucas morava no Rio, Thiago também morava no Rio, mas eu voltei para a Bahia e Clarissa foi morar em Paraty. Então, aquela movimentação que a gente tinha de se encontrar toda semana, começou a se perder. E, com isso, também a movimentação do coletivo foi diminuindo.

Mas uma coisa que acho importante falar, pensando a Bliss, é que acho que, naquele momento, não só na poesia, talvez até menos na poesia do que em outras instâncias das artes, mas era um momento de criação de coletivos. Tinha uma fé, tinha uma esperança de que essa produção e esse trabalho coletivos tivessem um impacto.

Para mim, foi essencial fazer parte desse coletivo. Eu acho que minha vida seria completamente diferente se eu não tivesse encontrado Lucas Matos, Clarissa Freitas e Thiago Gallego. E se a gente não tivesse inventado esse coletivo com o qual a gente fez loucuras. Foi muito bom. Foi um modo, eu acho, de a gente entrar na literatura brasileira, publicando uma revista, chamar a atenção para a nossa singularidade, propor coisas que a gente achava que não estavam sendo feitas ou que não estavam ganhando tanto, não tinham tanta visibilidade no circuito literário naquele momento.

A Bliss ainda existe, mas é um coletivo adormecido, como muitos outros coletivos que eu conheço. Mas estamos aí. A gente tem um grupo no WhatsApp e, de vez em quando, a gente fala: “vamos fazer alguma coisa”.

Tem uma plaquete que foi editada pela A Mesa, que era um evento que em que historicizavam os coletivos de poesia carioca, e tem um numerozinho sobre a Bliss. Tem uma entrevista com a gente, tem uma antologia. É interessante, vale dar uma olhada.

MAR ABERTO

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