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Crônica

Com o fim da escala 6×1 e acesso a direitos trabalhistas, Macabéa poderia ser feliz

A tragédia da personagem de Clarice Lispector não era puramente existencial, mas sim política e econômica.

Cena do filme 'A Hora da estrela', de Suzana Amaral (1985).
Cena do filme 'A Hora da estrela', de Suzana Amaral (1985).

“Domingo ela acordava mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada.” (Trecho de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector).

Macabéa gostava de passear de metrô e não sabia que era infeliz. Na sua rotina exaustiva, trabalhando até os sábados, o domingo era o único dia livre para que pudesse existir. Isto é: ser alguém. No sistema do capitalismo, sabemos, a superestrutura (a vida, as relações, a felicidade e o lazer) são condicionados à estrutura do capital (o trabalho). Mas quem nós somos quando não estamos trabalhando? E quem nós somos quando não estamos trabalhando?

Li recentemente um livro excelente de uma escritora independente. “O peso da inexistência”, de Amélia Greier, conta a história de uma mulher que percebe que nunca existiu ao preencher um formulário profissional. Como nunca trabalhou para além do espaço doméstico, não tinha registro profissional, não tinha especialização, não tinha formação. Para o mundo do capitalismo, ela não existia. E todos nós, os que trabalham no mundo do capital, existimos apenas porque trabalhamos. 

O que você responde quando dizem “se apresente”? Depois do seu nome, é muito provável que você diga a sua formação e o seu trabalho. Mas e quando não se tem formação ou trabalho?

Macabéa, uma das mais emblemáticas personagens da literatura brasileira, era datilógrafa. Era nordestina. Era uma mulher que passava despercebida na multidão. Sua existência exalava uma melancolia que nascia de uma tragédia que não era simplesmente existencial: era política. Na exaustão do trabalho, na falta de oportunidades, na distância dos seus iguais, ela era triste e nem sabia. Não sabia porque não tinha tempo para pensar em si própria.

A desumanização do capitalismo é este projeto de alienação coletiva (sim, nos termos de Marx). Trabalhando ao máximo, com o sonho de crescimento profissional e enriquecimento, não há tempo para perceber a própria tristeza ou até mesmo a própria exploração. A produtividade que se diz dignificar a vida humana está, na verdade, nos desumanizando. E Macabéa era esta mulher desumanizada. Encontrava prazeres nas pequenas coisas. Sua infelicidade não fazia barulho, era contida. E ninguém percebia, ninguém olhava para aquela mulher. 

Um dia, Macabéa estava tão exausta que mentiu que estava doente para não trabalhar. Fingiu uma dor de dente e uma necessidade de ir ao dentista. E o que fazer com o tempo livre? A quem amar? Quando se está neste estágio de superexploração, não se desenvolve hobbies, não se sabe quais prazeres teria, não se sabe da vida. 

Ao escrever esta personagem, uma nordestina no Sudeste, uma mulher dócil, que não reclamava o amor que não tinha, que se ofendida não devolvia a ofensa, que abaixava a cabeça diante de qualquer opressão e que tinha vergonha da própria existência, Clarice Lispector conseguiu captar uma vida cujo élan foi usurpado pela máquina industrial. Essas vidas, reconhecidas apenas como números, estatísticas do mercado financeiro, negociadas como gado em escritórios da Faria Lima, nomeadas como rótulos ultrajantes — mão-de-obra, capital humano —, elas existem para além disso tudo. Elas amam. Elas têm desejos. Desejos interrompidos, mas desejos. 

E se Macabéa tivesse um dia mais de folga?

Macabéa, personagem de Clarice, personifica a opressão social e econômica, personifica o trabalhador em um país em que apenas uma minoria pequeníssima vive — bebe champagne, vai a surubas bancadas por banqueiros, andam de jatinho — e a maioria apenas aguenta. No Brasil, quase ninguém está vivo e essa é uma tragédia política. 

Décadas depois, Conceição Evaristo reivindica Macabéa para si. Em seu conto, Macabéa é Flor de Mulungu, é uma mulher resistente, que consegue negociar com o caos, que se faz dócil, mas nem sempre é. Se trata de um resgate ético dessa personagem que foi realmente humilhada na pena pesada de Clarice. Eu entendo o jogo feito por Conceição, mas não sei se isso resolve o fato. 

Será que Macabéa precisava ser forte mesmo? Ou ela só precisava de condições mais favoráveis?

Farei eu mesmo então o meu próprio exercício de imaginação: e se Macabéa tivesse um dia mais de folga? Se a sua jornada de trabalho fosse reduzida a ponto dela conseguir respirar com algum alívio? O que ela poderia descobrir de si mesma com este tempo livre? Será que ela perceberia sua tristeza a ponto de fazer algo com ela? Tratá-la? Será que ela decidiria ir ao cinema ou ao teatro? Descobriria a arte? A arte capaz de dar sentido à vida e educar que viver também é beleza?

E se Macabéa tivesse conseguido uma casa no Minha Casa, Minha Vida e não precisasse mais dividir um quarto com diversas moças em condições semelhantes às dela? Como a solidão ajudaria esta mulher a ser ela mesma? A pensar em si mesma para além do olhar do outro? O que aconteceria quando Macabéa olhasse para o espelho pela primeira vez na casa em que morava sozinha?

Se ela tivesse um convênio médico bom? Um médico olharia para ela e veria que aquela palidez, aquela cara de quem está prestes a desmaiar de fome, não era normal. Passaria um complexo vitamínico que poderia resgatar um pouco da cor da sua pele, ela se sentiria mais forte, com mais vontade de sair de casa, com mais vontade de ver alguém. Quem sabe teria libido, quisesse gozar, quisesse um homem ou uma mulher capaz de lhe satisfazer e largaria aquele traste por quem era apaixonada. 

Será que Macabéa teria sonhos de novo? Vontade de estudar? Faria um cursinho à noite, um pré-vestibular social e entraria, com um ProUni ou Sisu ou até mesmo FIES, em uma universidade?

Quem sabe, com tudo isso, que também é o básico, ela fosse, quem sabe, feliz.

MAR ABERTO

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