Márcio Bastos é jornalista, escritor, pesquisador e mestre em comunicação pela UFPE. Autor de Pernalonga: uma sinfonia inacabada (Cepe, 2023) e Lantejoulas no mangue: teatro e desbunde do Vivencial (Autêntica, 2026), dedica sua pesquisa a dar visibilidade à memória da comunidade LGBTQIA+ e a investigar as manifestações da contracultura e das artes cênicas de Pernambuco.
Sua estreia na literatura se deu com a biografia Pernalonga: uma sinfonia inacabada, obra em que mergulhou na vida de Roberto de França, o Pernalonga, figura lendária e irreverente do teatro pernambucano. O livro resgata desde o espaço de liberdade que Pernalonga encontrou no palco até a sua pioneira e destemida atuação pública no combate ao estigma do hiv/aids na década de 1980, denunciando uma morte trágica provocada pelo preconceito.
Em seu novo livro, Lantejoulas no mangue: teatro e desbunde do Vivencial – que integra a coleção “Nossas histórias” coordenada por Renan Quinalha –, o autor se debruça sobre o Vivencial Diversiones, coletivo nascido em Olinda em 1974, que revolucionou o teatro brasileiro em plena ditadura militar e do qual Pernalonga fez parte.
Em entrevista para O Odisseu, Márcio Bastos fala sobre o processo de escrita de seus dois livros, o que mais lhe chamou atenção na história de Pernalonga, a descentralização da memória queer – geralmente, associada ao Sudeste –, o legado de João Silvério Trevisan, o impacto do Vivencial Diversiones para o setor artístico no Brasil e as figuras que gostaria de pesquisar futuramente.

“Tanto com Pernalonga quanto com Lantejoulas no mangue, sinto um compromisso com a divulgação e perpetuação dessas histórias que me foram confiadas”, diz Marcio Bastos
Quando começou a pesquisar a história da comunidade LGBTQIA+ de Pernambuco?
Como homem gay, sempre me interessei pela história da minha comunidade. Tive a sorte de crescer com a referência de um tio que também é homossexual e me aproximou de muitas referências sobre nossa história, muitas vezes passando pelas experiências dele. Esse arquivo familiar, as memórias que foram partilhadas comigo, sempre me interessaram. Eu gostava de tentar remontar cenas, passar por lugares, como uma antiga boate que não existia mais, e pensar as várias histórias que aconteceram ali.
Na atividade de jornalista, tive a sorte de trabalhar em cadernos de cultura de jornais pernambucanos de 2011 a 2021. Foram dez anos escrevendo quase diariamente sobre a vida cultural daqui, do Brasil e do mundo, o que me fez acessar muitos arquivos e também produzisse matérias que, espero, no futuro podem ajudar a refletir sobre os períodos em que foram escritas. Paralelamente, também escrevi para vários veículos e participei de muitos projetos da área cultural, como assessor de imprensa.
Durante meu período como setorista de artes cênicas, tive a oportunidade de ouvir artistas e fazedores de cultura que me instigaram a me aprofundar em alguns assuntos, como as questões da comunidade LGBTQIA+. Meu contato com o Vivencial, por exemplo, se deu a partir do jornalismo. Eu havia acabado de ingressar como estagiário quando, em 2011, foi lançado o livro Transgressão em 3 atos: nos abismos do Vivencial, de Alexandre Figueirôa, Claudio Bezerra e Stella Maris Saldanha. Então, de muitas formas, esse legado, assim como as questões do contemporâneo, iam se entrelaçado no meu trabalho diariamente.
Com Pernalonga: uma sinfonia inacabada, sinto que a pesquisa se aprofundou, ganhou um rumo. Eu entendi que, de uma forma mais consciente, estava produzindo um material que tinha um papel de resgate da memória da comunidade. Muitas das informações sobre Roberto de França, o Pernalonga, eram incompletas ou se resumiam às mesmas histórias. E, para fazer isso, precisei me debruçar em um cenário mais amplo, pois toda experiência, por mais individual que seja, está inserida em um contexto histórico.
Como foi o processo de escrita de Pernalonga: uma sinfonia inacabada?
Foi intenso. Quando a Cepe me convidou, imaginávamos que teríamos um vasto material à nossa disposição. Isso acabou não se concretizando e, em três meses, ou seja, mesmo prazo que eu tinha para pesquisar e escrever com esse suposto arquivo, precisei levantar documentos, fazer pesquisas em arquivos pessoais, além de conduzir mais de trinta entrevistas. Com essa apuração finalizada, ainda precisava encontrar formas de narrar essa história de uma forma que fosse respeitosa à memória de Pernalonga, não no sentido de ser solene ou chapa branca. Pelo contrário, de abraçar suas contradições, de tentar chegar próximo da essência de alguém que não tive a chance de conhecer ou entrevistar. Para isso, tentei ir atrás de referências diversas, na literatura, na música, no cinema e no meu próprio entorno. Lembro um dia que, bloqueado na escrita, decidi ir a Olinda. Comecei a andar pelas ruas que foram tão dele, onde Roberto viveu e circulou por quase toda a sua vida. Por um bom tempo, não entrevistei ninguém, só vaguei. Depois, tomei um sorvete e, na loja, perguntei se a vendedora já tinha ouvido falar em Pernalonga. Ela disse que não, mas que a vizinha, que morava ali a décadas, devia conhecer. Nisso, acabei conversando com várias pessoas, ouvindo histórias corriqueiras de Roberto e de uma Olinda do passado que, de muitas formas, permanecia ali. Foi uma experiência bonita.
O que mais te surpreendeu na história de Pernalonga?
A coragem. Pernalonga vinha de uma família muito pobre e religiosa. Sofreu desde cedo repressões homofóbicas na escola, em casa, na rua. Com o grupo Vivencial, encontrou um espaço de liberdade para desenvolver seu talento artístico e também sua sexualidade. E, ao dar a cara a tapa ocupando espaços de visibilidade, como os jornais, onde aparecia com frequência, possibilitou que muita pudesse se reconhecer ou, ao menos, ter contato com as experiências de alguém que bancava ser quem era, mesmo com as consequências. E esse papel se torna ainda mais forte quando, no final da década de 1980, ele torna público o fato de ser uma pessoa vivendo com HIV. Ele tornou-se um rosto para uma epidemia que estava marcada por preconceito e desinformação. Visitou escolas, empresas, hospitais, espaços públicos, participou de comerciais para a televisão que falavam sobre a importância dos cuidados, mas também do acolhimento de pessoas vivendo com HIV/Aids. Era de uma força absurda. E ele bancou isso até sua morte, uma tragédia fruto do preconceito, pois poderia ter sido evitada. Pernalonga sofreu um corte na perna (até hoje não esclarecido se foi um acidente ou assalto) e perdeu muito sangue pois ninguém quis ajudá-lo, apesar dos pedidos de socorro, com medo de se infectar. Como disse um médico que o atendeu, ele não morreu de Aids, mas de preconceito.
Como foi a repercussão do seu primeiro livro?
Surpreendente. Até hoje as pessoas vêm falar comigo sobre o livro. Recentemente, eu estava em um show de Cida Moreira na Igreja do Mosteiro de São Bento, em Olinda, onde, aliás, começa a história do meu novo livro Lantejoulas no mangue: teatro e desbunde do Vivencial, e, ao final, um rapaz me perguntou: “Você é o autor de Pernalonga? Eu dei de presente para ele”, e apontou para a pessoa que o acompanhava. Esse tipo de situação sempre me emociona, não por vaidade, mas por saber que a memória de Roberto está chegando às pessoas. Tanto com Pernalonga quanto com Lantejoulas no mangue, sinto um compromisso com a divulgação e perpetuação dessas histórias que me foram confiadas. Assumo como um dever falar sobre os livros, ir com eles aonde sou convidado, porque eles representam legados e afetos. Me alegra quando alguém que conviveu com Roberto me diz que reencontrou ele nas páginas ou, por outro lado, uma pessoa que nunca ouviu falar nele me diz que ficou apaixonada pela vida de Pernalonga e que quer conhecer mais sobre o Vivencial. Me sinto realizado.
Marcio Bastos: “Eu sempre senti que o Vivencial não tinha o reconhecimento que merecia a nível nacional”

Quando decidiu escrever sobre o Vivencial?
Fiquei muito feliz quando o editor Schneider Carpeggiani e Renan Quinalha, coordenador da coleção “Nossas Histórias”, me convidaram para fazer parte desse projeto tão importante publicado pela Autêntica. A ideia de resgatar marcos da comunidade LGBTQIA+ atravessados pelas dimensões da luta e do fervo casava completamente com a história do Vivencial. E, em muitas medidas, eu sempre senti que o grupo não tinha o reconhecimento que merecia a nível nacional. Isso se dá por alguns motivos, mas acredito que o fato de ser uma experiência queer e nordestina contribui para esse apagamento. Então, após Pernalonga: uma sinfonia inacabada, me pareceu um passo natural mergulhar na história do grupo que se mostrou ainda mais surpreendente para mim, mesmo já conhecendo muitos dos fatos.
Busquei contextualizar a importância do Vivencial não só para o teatro nacional, mas principalmente ressaltar seu legado para a comunidade queer de Pernambuco, do Nordeste e do Brasil. Nos últimos anos, temos visto muitos avanços, mas as narrativas ainda são muito centradas no Sudeste. É uma alegria, portanto, ver uma experiência tão radical, nascida e desenvolvida no Nordeste, ter sua história celebrada.
Qual é a importância do Vivencial?
O Vivencial surge em 1974, em um período de muita repressão por parte da ditadura militar. E nasce de maneira curiosa: Guilherme Coelho, que estudava para ser monge, se junta a jovens da Associação de Rapazes e Moças do Amparo para montar uma peça. Juntos, criam o espetáculo Vivencial I, que questionava o Estado, a Igreja, a Família. Tudo isso com um humor irônico, às vezes debochado, com sensualidade e festa. Foi um escândalo e também um sucesso. A partir daí, passam a produzir freneticamente e, isso é curioso, desde o primeiro momento são identificados como um grupo LGBT+ (termo que não se usava na época, claro). Eram um “teatro de frangos”. Frango, em Pernambuco, é um termo pejorativo usado para se referir a homens gays. O grupo era formado não só por gays, mas também por heterossexuais, bissexuais. Era um espaço realmente plural: mulheres, pretos, pobres, filhos da classe média, analfabetos, estudantes, todos tinham espaço ali.
Durante quase uma década, o Vivencial foi um dos coletivos mais ativos de Pernambuco, não só no teatro, já que seus artistas também fizeram filmes com Jomard Muniz de Britto, estavam envolvidos com o pessoal da música, das artes visuais etc. Gosto de pensar o Vivencial como um movimento, uma ideia. E, talvez por isso, tenha sobrevivido ao tempo. Em 1979, o grupo abre o Vivencial Diversiones, café-concerto erguido em uma área de mangue entre Recife e Olinda. O espaço era cercado por barracos, não era confortável e, ainda assim, se tornou um fenômeno. As classes média e alta faziam fila para assistir às vivecas, como eram chamados seus membros, que, àquela altura, radicalizavam cada vez mais o discurso. Eram orgulhosamente afrontosas e dissidentes. No Diversiones, a sexualidade aparece mais explícita, assim como a diversidade. Pessoas trans ganham protagonismo – um protagonismo, aliás, negado em outros espaços artísticos. O grupo foi responsável por abrir espaço para que pessoas queer pudessem encontrar um território seguro para se expressar. Mesmo após a dissolução do grupo, em 1983, esse espírito contestador permaneceu e seguiu tanto para os palcos quanto para as boates e saunas.
Pode ser visto, também, em herdeiros, como a Trupe do Barulho, responsável por montar Cinderela – a história que sua mãe não contou, maior sucesso do teatro pernambucano desde a década de 1990 que, 35 anos depois, ainda arrasta multidões para assistir uma drag queen (ou transformista para usar os termos da época) “tirar onda” com um dos mais conhecidos contos de fadas da literatura mundial. Escrita por Henrique Celibi, que se fez artista no Vivencial, a Cinderela recifense é negra, periférica, empregada doméstica e não se cala diante das crueldades da madrasta. Ela tem tesão, revolta e muito desejo de mudar de vida. É desbocada, como eram as vivecas.
O filme Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda, é inspirado na história do Vivencial e captura o espírito do grupo. É um filme apaixonante. Mais recentemente, outros cineastas, como Henrique Arruda, e Sharlene Esse, considerada a grande diva trans do teatro pernambucano que frequentou também o Vivencial e considera o grupo sua grande escola, também se debruçaram sobre o legado do grupo. É uma história que continua fascinando porque ela nos lembra do poder da organização coletiva para vencer o autoritarismo. Fala também sobre como nós, os dissidentes, encontramos nossa força nessas comunidades que se estabelecem para além de obrigações ou laços sanguíneos. E, também, de como a festa, a alegria e o desejo são mobilizadores de mudança. Como ensinaram as vivecas, vamos resistir, vencer e, da forma que der, às vezes rindo do outro e, quase sempre, de nós mesmos, vamos ser felizes no processo.
Quando foi seu primeiro contato com narrativas literárias sobre a comunidade LGBTQIA+?
Meu avô era historiador e tinha uma biblioteca muito eclética. Lembro de, ainda pré-adolescente, mas já ciente da minha sexualidade dissidente, encontrar alguns títulos que me marcaram. Um deles foi Devassos no paraíso, de João Silvério Trevisan, um monumento de pesquisa, além de muito bem escrito. Lembro de folhear e me deliciar com as histórias. Já adulto, li o livro inteiro e sempre retorno a ele. João Silvério é uma referência e, das coincidências da vida, foi uma pessoa importantíssima para o Vivencial, ao escrever a matéria sobre o Diversiones para o “Lampião da Esquina”. Outra memória muito forte foi a de ir ao lançamento do livro Atentados poéticos, de Jomard Muniz de Britto, com o meu avô. Na capa do livro, havia uma colagem de fotos, entre elas a de um homem nu. Havia um homoerotismo latente ali que, mesmo sem entender praticamente nada do conteúdo, me fascinava. E, aí, mais uma dessas felizes costuras do destino: Jomard foi um parceiro fundamental das vivecas, que se encantou com o grupo desde o primeiro espetáculo e, com elas, produziu filmes, escreveu peças, promoveu happenings. Então, de forma resumida, meu primeiro contato com as narrativas literárias sobre a comunidade LGBTQIA+, ou atravessadas por questões dela, vieram da biblioteca do meu avô que, por sua vez, se interessava pelo tema, creio eu, também para tentar entender e encontrar formas de ser um aliado para o meu tio, seu filho, e, mais tarde, a mim, seu neto.
Há outras personalidades, grupos ou movimentos que gostaria de retratar em um livro?
Ainda preciso de um tempo para processar Lantejoulas no mangue (risos). Mas há muitos personagens que me instigam, principalmente aqui em Pernambuco. Ainda temos muitas artistas atuantes desde a década de 1970 e cujas memórias não são tão documentadas. Para um próximo projeto, eu gostaria de passar mais tempo me debruçando sobre os arquivos para ver o que pode surgir. Por exemplo: nas pesquisas de Lantejoulas no mangue, encontrei uma pequena matéria descrevendo uma travesti de 13 anos chamada Martinha. O texto, como quase tudo produzido sobre a comunidade LGBTQIA+ no início da década de 1970, tem marcas de violência, mas também tem uma beleza danada: narra como Martinha “fechou o comércio” com sua performance na Rua da Aurora, no Centro do Recife, onde eu moro, desfilando e fazendo graça, com sua peruca e saltos altos. Imaginar essa cena me emocionou. Fiquei fabulando sobre aquela pessoa, seus sonhos, seus medos. Então, talvez o que eu queira escrever a seguir tenha uma pesquisa documental robusta, mas adentre para um campo mais ficcional. Não sei, quero experimentar. Mas o fato é que pesquisar a comunidade LGBTQIA+ é um grande prazer para mim.

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