O aumento das produções literárias na região Norte amplia as possibilidades de entendimento e vivências sobre a nação. Nesta região, em que o rio e as populações ribeirinhas, sujeitos que moram próximo às águas fluviais, possuem cosmopercepções e relações outras com o meio ambiente, a literatura adentra questões relacionadas à pesca, ao lidar com a floresta, com os encantados e também com a violência do agronegócio e das queimadas.
Essas são demandas apontadas na literatura contemporânea dessa região, que, neste ano, ganha mais notoriedade no cenário da literatura nacional com a indicação do paraense Diego Itabira, autor de Breu de maré (Editora do Autor, 2025), ao Prêmio Jabuti 2026, na categoria Escritor Estreante – Romance. O autor escreve sobre essas questões, trazendo para o campo literário aspectos socioambientais que atravessam a realidade do povo nortista, mais precisamente da cidade fictícia de Tombo do Jutaí. O romance, dividido em quatro partes, começa narrando a infância de Zé Santino, que, após ser pego experimentando as roupas da mãe, é expulso e quase queimado vivo pelo pai, Estevão. Mãe e filho saem da casa e passam a morar com a avó Maria Juraci, cuja casa fica colada ao rio, e seu animal de estimação, o búfalo Dengoso. É nessas águas que Zé Santino salva seu futuro amor, Dimas.
Dessa relação adolescente e das primeiras descobertas, em meio ao sofrimento de uma mãe que, após a separação do marido, acaba se matando, emerge também a violência paterna, marcada pelo sangue e pelas tentativas de controlar e “corrigir” a sexualidade do filho. Estevão é o pai intolerante que tenta matar o próprio filho, o que leva Zé Santino a fugir e a ser dado como morto. Na cidade, ela descobre e aceita a si mesma. Gisberta surge e, com sua fiel escudeira Dandara, outra travesti, passa a ganhar a vida e a moldar seu corpo e suas técnicas de sobrevivência. Prostituta desde os quinze anos, Gisberta, por ironia e pela peripécia literária, vai trabalhar no prostíbulo da avó paterna – fato que se descobre ao final do romance –, onde começa uma transformação que culmina no retorno para a casa da avó materna, na vingança contra o pai e no reencontro com seu primeiro amor.

Adentrando águas caudalosas durante a noite
Diego Itabira escreve um romance calcado no lugar em que está inserido. A água do rio guarda mistérios, esconde energias e possui uma cor escura, impossibilitando que se enxergue o fundo. Essa atmosfera do rio escuro numa noite sem luar permeia a narrativa de Breu de maré. Todo o enredo está pautado no escuro do silêncio e do segredo que perpassa a obra.
Assim, o percurso de Gisberta é perpassado por omissões e não ditos, que, aos poucos, o leitor vai descobrindo por meio de ganchos narrativos e personagens que surgem para revelar o que está oculto no breu da noite ou no fundo do rio. Existe, assim, um empreendimento narrativo baseado no suspense e na construção de ganchos em que os capítulos terminam em aberto e os seguintes não apresentam uma continuidade narrativa direta. Há também o uso de flashbacks, que mostram ao leitor o que não é dito no presente narrativo, mas é importante para compreender o percurso e as decisões de Gisberta, de sua mãe e do próprio amado no decorrer do romance, afinal, “aquilo que escondemos nas margens sempre volta para nos assombrar” (p. 126).
Há uma agilidade no romance, que deságua nesse empreendimento narrativo, no qual as surpresas de um passado não revelado se acumulam. Por vezes, achei esse recurso demasiado, mas acredito que o romance assume um tom novelesco – aqui pensando nas narrativas midiáticas e nesses modos de suspensão dos acontecimentos –, e isso contribui para uma leitura mais dinâmica. O leitor já infere que existe algo às escondidas, no escuro da noite. É o caso do encontro entre o casal protagonista:
[…] Enquanto Zé Santino tinha olhos-mar, Dimas tinha a profundeza da maré na íris. Mar e Rio invadiam as margens um do outro quando os lábios tocavam e eles ficavam alagados. Todo rio deságua no mar e Dimas derrama suas águas em Santino, transcendendo seus corpos pelos ecos das profundezas. Mas o que sabiam eles com seus doze anos de idade? (p. 28)
Além disso, Diego Itabira costura, em seu primeiro romance, uma linguagem marcada pela oralidade da Região Norte do país e pelo uso de elementos culturais locais, como a comida, o rio que chama e os encantados ligados à avó materna, que é uma líder religiosa. A obra apresenta uma pluralidade de expressões ligadas a demandas contemporâneas, como a questão das pessoas trans e travestis no país. Gisberta remete ao caso lusitano e, posteriormente, à música cantada por Maria Bethânia, na qual a personagem, assim como a figura evocada pela canção, busca por amor e por ser amada. Dandara, outro caso de transfobia, esse no nordeste em qual a mulher foi espancada e morta a tiros, e que dialogam com a violência e a vida curta dessas mulheres ceifadas no país que mais mata mulheres trans e travestis “pois duas travestis apanhando e sofrendo não incomodavam ninguém” (p. 75).
As personagens que vivem nas ruas e se prostituem espelham uma realidade vivida por muitas pessoas trans e travestis. Nesse contexto, as violências simbólicas surgem e são constantes no decorrer do romance, como o uso inadequado do pronome, o discurso biologizante e a violência dos homens que matam essas mulheres e as procuram para o sexo: “a mesma mão que espanca a travesti na rua é a que se satisfaz nela e que, de certa forma, dá a chance do alimento” (p. 85).
A heteronormatividade e a cisnormatividade se manifestam na figura do pai de Gisberta. Estevão, para além de violentar a filha desde a infância, representa também o garimpo na Região Norte e a linhagem de fazendeiros – esta última associada à estrutura do matadouro, com um poço no centro do ambiente. Esses espaços são importantes para entendermos a falta da figura materna, o estupro e a morte de corpos considerados descartáveis pela sociedade. Quando Gisberta retorna para se vingar, o pai está no cargo de prefeito da cidade, reafirmando, mais uma vez, a metáfora do poder presente no livro.
— Ela é mulher de pau.
Estevão gargalhou e o cordão de puxa-sacos seguiu sua corredeira de humor discutível. Pareciam marionetes com reações conforme o prefeito as manipulava.
— E ela não tem cu?
Danuza gaguejou, havia um estranho desespero para livrar Gisberta daquela situação.
— Tem — concordou Danuza, a voz tão baixa que apenas a leitura dos seus lábios grossos pôde desvendar.
— Eu gosto de cu, caralho! (p. 140)
Diego Itabira escreve um romance que entretém e que possui uma agilidade bem novelesca, por vezes em demasia, e com saídas rápidas para as personagens. Contudo, a dicção empreendida pelo autor e os diálogos do romance com essas outras produções narrativas contribuem para esse encaminhamento na construção do enredo. Ainda assim, o autor não esquece seu lugar de origem nem as demandas do Norte e da comunidade LGBTQIAPN+. A obra lança luzes sobre essa escuridão do nosso tempo, apresentando possibilidades para as personagens, que se mantêm vivas e encontram formas de sobreviver ao longo da narrativa. No escuro da noite e das águas negras do rio, um bom livro surge com luminescência para o agora.

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