Sou um homem gay e, durante minha formação de leitor, mesmo quando estava na faculdade de Letras, sempre busquei encontrar nos livros aproximações do literário com minha experiência de vida. A questão da sexualidade sempre foi um ponto de tensão, afinal, li muitos livros com protagonistas brancos e sentia falta de encontrar homens negros e gays como personagens. Sempre estive naquele lugar de incômodo, pois parecia, como leitor e entendendo que a literatura cria e forma imaginários, que meu corpo não estava disponível para a representação afetiva nos livros.
Quando comecei a pesquisar literatura negra, percebi que alguns escritores se dedicam a abordar temas e propor outras formas de representação que a produção escrita a partir de um perfil hegemônico não dá conta de abarcar. Essa potencialidade da literatura negra, com suas especificidades estéticas e de vivências coletivas, remete à noção de encruzilhada, que a Leda Maria Martins associa a suas três possibilidades de caminho e a um lugar de energia, movimento, transformação e comunicação, símbolo de Exú.
Assim, toda uma literatura negra calcada na encruzilhada promove questionamentos e tentativas de mudança tanto no leitor, que é seu público-alvo, quanto no cenário literário, oferecendo outras possibilidades de compreensão da subjetividade e das vivências de sujeitos e sujeitas negros e negras. É desse lugar de encruzilhada que se situa o livro de estreia do carioca Evandro Luiz da Conceição, jornalista, roteirista e mestre em Comunicação pela UFRJ, que figura entre os semifinalistas do Prêmio Jabuti 2026, na categoria Conto.
Minha estranha loucura: histórias (Todavia, 2026) é composto por nove contos que compartilham algumas características em comum. Primeiro, todos são protagonizados por sujeitos e sujeitas negras. Segundo, apresentam as nuances, pluralidades e possibilidades de experimentações afetivas, problematizando os afetos e os corpos negros e rompendo com estereótipos coloniais e racistas. Por último, trazem uma marcação da oralidade e de expressões culturais negras. Assim, o livro aponta caminhos para entender a subjetividade e os caminhos espinhosos, conturbados, alegres e tristes do amor.

“Evandro Conceição mescla o cancioneiro popular com músicas do público gay e mistura as gírias da quebrada carioca com o pajubá, falado por travestis e cooptado por homens gays em Minha estranha loucura: histórias‘
II
Evandro Conceição escreve sobre o amor, mas a partir de seus mais variados enredos. Nos contos de Minha estranha loucura: histórias, existe o gosto agridoce das relações afetivas, inclusive daquelas que envolvem corpos negros e LGBTQIAPN+. O amor desses sujeitos está ali, sendo questionado pelos próprios personagens, que antes não se viam amando nem sendo amados. Aqui, esse discurso nocivo e violento cai por terra em cada conto que o leitor encontra.
O conto que abre o livro apresenta muito bem o tom e as paragens que a obra propõe. “Cícero e Casé” narra o encontro e a paixão avassaladora desses dois homens negros que se conhecem num lugar de pegação. A partir daquele momento, Cícero, que sempre foi uma pessoa que se relacionava com vários parceiros, se apaixona por Casé, filho de uma dona de prostíbulo. O encontro, que deveria ser apenas sexual, transforma-se em amor, casamento e filhos. Acompanhamos a alvorada desse relacionamento, a morte prematura do Casé e a velhice enlutada e solitária de Cícero, até que o amado vem buscá-lo:
Na hora nona daquela manhã derradeira de outono, de frente para o altar erguido bem no meio das ruínas do que sobrou da rua da Lama, Cícero e Casé disseram sim um ao outro diante dos olhos emocionados das meretrizes e dos frequentadores do bordel. Depois das alianças nos dedos, da jura de amor eterno, do beijo na testa, vieram o inevitável encontro daquelas bocas pretas e o abraço apertado. (p. 15)
Ao apresentar a possibilidade de manter uma relação afetiva, amar e ser amado até a velhice, o livro mostra que não está compactuando com a animalização e a objetificação desses corpos negros. Por isso, homens negros gays e mulheres travestis ganham o protagonismo e, consequentemente, rasuram o discurso objetificante que perpassa a sociedade racista.
No conto “Maré”, a narrativa gira em torno de uma relação conturbada entre Da Guia e Eloá Batista, “ex-passista furacão que arrastava tudo o que via pela frente”, a “musa travesti”, que abandona esse passado de glória para viver com o marinheiro. Até que ela descobre que Da Guia tem um relacionamento com outra mulher e três filhos. Após o retorno de Da Guia, que sobreviveu a uma tempestade no mar, acompanhamos seu esforço para conquistar sua amada, enquanto ele se sente arrependido pela situação e pela descoberta do relacionamento secreto que mantinha com outra mulher, essa por sua vez, cisgênero:
Calada, Eloá suportou a gongada de Marion, mãe de três meninos do Da Guia e, diziam as bocas de sandália da vizinhança, ainda carregando mais um na barriga. Enquanto se refazia da humilhação que abalou seus alicerces, ela recolhia os poucos cacos que sobraram de si e refletia: e eu também não sou uma mulher? E eu também não posso ser uma mulher? Não mereço por acaso viver o amor? (p. 31-32)
Além da representação da mulher travesti que termina amando e sendo amada, existem contos que problematizam a ideia de que o corpo negro é apenas passível de sexo. No conto “Sigilo”, acompanhamos um relacionamento de quase dez anos que sobrevive às escondidas, afinal, um dos protagonistas é policial, pastor evangélico e casado, mas mantém um amante, com quem se encontra toda quarta-feira. Mesmo tentando, em vão, cortar esse laço e deixar de ocupar esse papel, não consegue se desvencilhar do amor que sente pelo homem casado: “como viverei sem aquele bofe que o conhecia tão bem a ponto de virá-lo do avesso?” (p. 21).
Em outro conto, acompanhamos, em ritmo frenético, um casal conturbado, cuja briga e discussão são o motor erótico e afetivo. Mas tudo muda quando um deles desaparece sem deixar rastro e o outro fica sem chão. A busca por notícias, a negação do desaparecimento e o luto pelo amado que não retorna estão no cerne do conto que dá nome ao livro, “Minha estranha loucura”. Tudo isso é embalado por músicas de Alcione, entre gemidos de dor e prazer.
Evandro Conceição mescla o cancioneiro popular com músicas do público gay e mistura as gírias da quebrada carioca com o pajubá, falado por travestis e cooptado por homens gays. Um misto de júbilo e tristeza amorosa, altos e baixos dos caminhos tortuosos do amor. Além disso, o autor não deixa de lado a religiosidade de matriz africana – até um padre raspado de Logunedé aparece em meio às histórias, enquanto profecias sobre a vida amorosa e travestis cercadas por entidades surgem nos contos “O memorial da travesti” e “Ninguém regula a América”.
Tudo é frenético, como aquele amor avassalador. A narrativa é ágil e com muito erotismo, por vezes atravessando as páginas e desaguando em personagens que sabem o que querem e questionam o status quo, que os coloca em posições nas quais são considerados indignos de viver o amor.
O conto que fecha o livro, “Visão”, é um bom exemplo desse empreendimento que articula ritmo e estrutura narrativa. Evandro Conceição não cai no clichê do final trágico e cria um emaranhado de narrativas com desfechos diversos, assim como são diversas as relações que envolvem afeto e sexo. Plurais e dinâmicas, como os contos:
Sobre o desejo de ser de outro, meu preto parece ter rasurado todos os rascunhos da vida que o enclausurou até tempos atrás, e tem se permitido amar e ser amado.
Tudo nele é intenso, tudo nele flui. (p. 85)
Por vezes, o livro apresenta finais acelerados e corridos, em decorrência do ritmo acelerado dos contos. Os personagens não param e sempre estão em movimento, seja com o tempo acelerando, seja em enredos bem imbricados e com muitas camadas. Sinto que algumas histórias poderiam ser mais elaboradas, com um final menos corrido ou abrupto. Contudo, compreendo que essa dinâmica também se relaciona com a forma como a cidade do Rio de Janeiro é representada. O espaço em que se passam as histórias é frenético, com suas muitas avenidas, becos, vielas, ladeiras e favelas, o que reforça a ideia de que esse lugar imprime um ritmo acelerado à própria constituição dos contos.
Evandro Conceição escreve um livro de contos diversos e pungentes, no qual costura afetos com raça, classe, gênero e sexualidades, sem cair em resoluções previsíveis. Em Minha estranha loucura: histórias, a humanização desses corpos está em ponto de ebulição, seja pelo toque carinhoso e prazeroso do outro, seja pelo calor das terras cariocas. Amar e ser amado estão em todos os contos, junto com a cerveja, os bares, o terreiro de candomblé, as praias e os pontos de pegação. É um bom livro para pensar nos afetos e seus caminhos diversos, com os que se abrem na encruzilhada de Exú.

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