Poetas do Brasil não poucas vezes tomaram posição diante de condutas que atentavam contra a humanidade. Há nisso uma práxis, um ato voluntário da sensibilidade que meneia as questões de seu tempo. Afinal, o ser humano é um bicho social, cuja palavra carrega inevitavelmente as marcas de onde se pronuncia. E aqui, desse canto do mundo, falamos a língua do colonizado, não a do colonizador — diferentes um tanto, como colonizado e colonizador. A letra, então, se move com facilidade entre as fronteiras ilusórias da geografia, para assomar onde quer que reconheça seus semelhantes. Seria a poesia a política por outros meios?
Ǫuando as bombas das Forças de Ocupação ecoam sobre os campos de Gaza, ouvimos uma história familiar de canhões e mosquetes; revolve uma memória compartilhada de desabrigo e espoliação. E a palavra recusa a neutralidade. A voz se levanta ornamentada contestando o acanhamento. É brado que não se cala. É ferida como rosa cálida. É lamúria ressentida pela morte — igual, um pouco por dia. Lumumba morre no cárcere. Malaxado, malaxado! Mas o povo viverá. O povo reinará.
A violência é brutal, e o verso não detém o estilhaço. Os tanques seguem seu cortejo, cravejando de silêncio milhares de mártires. Porém, o genocídio, dirigido por facínoras sanguinários que se empenham em mutilar o corpo, almeja também o espírito, e a Ocupação sionista, conquanto intenta aniquilar o povo palestino, anseia por suprimir sua existên-cia no plano da linguagem. E para esse embate o poema veste sua farda.
Ghassan Kanafani, no livro Lrćccnć»cn pnfcsćrnn dc ccsrsćên-crn soP n oc»pnçúo: lдRЅ-lд3Ѕ, avalia que o movimento literário árabe moderno passou muito tempo debatendo até que ponto a arte poderia ser politicamente engajada, e se a arte engajada seria considerada verdadeiramente criativa. Para ele, na Palestina, esse debate terminou rapidamente, pois, diante da pressão constante da Ocupação e do antagonismo direcionado à cultura árabe, discutir a legitimidade da arte engajada tornou-se um luxo impossível. A própria realidade dissolveu a dúvida. Entre confrontos diários e o perigo constante, a literatura passou a integrar naturalmente o campo da resistência.
Essa consciência amplia o horizonte da palavra. Ela coloca o combate discursivo na linha de frente da experiência cotidiana, e o aspecto cultural da resistência, mais que um adorno periférico, figura como parte da própria estrutura da luta. Não menos valioso que a resistência armada, o trabalho cultural sustenta a existência coletiva que torna possível resistir. Se a libertação brota da ponta de uma arma, então a própria arma brota da vontade de libertar.
A literatura que, fundamentada em imperativos valores humanos, documenta as atrocidades cometidas pelo estado de apartheid israelense — e se compromete com a narrativa palestina — devota sua textura estética a uma frente social, realçando a indissociabilidade entre o verbo e a ação. A obra literária assume seu condão permeável, promovendo uma consciência crítica essencial à identidade palestina que irradia a legitimidade de sua causa.
A poesia de resistência firma um compromisso com a dimensão da luta, em um movimento local que cresce dentro de um contexto internacional de forças, influências e solidariedades. Dessa forma, a literatura conecta o drama particular de um povo à experiência universal de luta contra a opressão. Talvez seja justamente por isso que, nesta antologia, mais de setenta poetas, homens e mulheres de todo o Brasil, reuniram suas vozes, em um esforço de solidariedade global e resistência.
Um poema confronta o genocídio. Essa é nossa insurgência, nossa firme recusa em consentir com o projeto sionista de extermínio e apagamento cultural na Palestina. Esse é nosso testemunho, nosso asserto de respeito à vida e ao direi-to de autodeterminação do povo palestino.
