Crônica

90 anos de Silviano Santiago, proseador on the road

Silviano é um intelectual raro, que faz de um bom papo a ponte para novos caminhos, em um interesse genuíno pelo outro, e não apenas pelo que há em comum.

(Foto de Ana Alexandrino/ Reprodução)

Silviano Santiago é um dos nossos maiores escritores e críticos literários. Isso todos que nos formamos com seus textos sabemos bem. Talvez só quem o conheceu pessoalmente saiba que ele é também excelente proseador. Em um meio tão marcado por tanta afetação e pouco afeto como o acadêmico, Silviano é um intelectual raro, que faz de um bom papo a ponte para novos caminhos, em um interesse genuíno pelo outro, e não apenas pelo que há em comum. Conversar com ele é como cair na estrada sem pressa, mas, ao mesmo tempo, com o entusiasmo (ou seria um “alumbramento”, à maneira da poesia de Manuel Bandeira?) da descoberta do mundo. 

É verdade que na vida, às vezes, nos sentimos como em “Cross Road Blues”, de Robert Johnson, “standin’ at the crossroad/ tried to flag a ride/ didn’t nobody seem to know me, babe/ everybody pass me by”. Um bom papo nos faz apreciar também essa sensação. Não por uma autopiedade mas, pelo contrário, pela consciência de nosso lugar na estrada, com seus desvios, silêncios e estrondos. Em entrevista recente (acho que prefiro chamar de conversa), por ocasião do lançamento de sua biografia escrita por João Barile, Silviano me disse sobre o horror de se “deixar prolongar na vida como repeteco, como o mesmo”, buscando sempre se reanimar, na vida, com o prazer da intermitência, do planejado ou do imprevisto: “Graças a essa força suplementar de viver o aqui e o agora em momentos em diferença é que consigo me equilibrar na corda bamba da vida de nômade”. 

Quando converso com Silviano, aprendo também muito sobre mim mesmo, pois ele me reanima, na condução do papo, a apreciar a força suplementar, muitas vezes inesperada, da vida em poucos minutos ou em uma troca de mensagens. Não há como não lembrar de Mário de Andrade, correspondente contumaz e proseador de mão cheia. A primeira carta a Carlos Drummond de Andrade, de 10 de novembro de 1924, é marcante. É o princípio de um dos diálogos epistolares mais fecundos da cultura brasileira, no mesmo ano da famosa “Caravana paulista” a Minas Gerais, especialmente nas cidades históricas. Mário fala ao jovem poeta sobre a importância de sair do gabinete e caminhar longamente, ainda que seja pelo mesmo caminho de sempre. Afinal, cada passeio revela novas experiências. Assim como cada conversa se abre para novos diálogos. 

Tenho aqui a belíssima edição dessas cartas, organizada por Silviano Santiago e Lélia Coelho Frotta no livro Carlos & Mário: correspondência de Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade (2002). Como prefácio, há o ensaio “Suas cartas, nossas cartas”, de Silviano, reunido em um de seus livros que mais gosto, Ora (direis) puxar conversa (2006). Segundo o escritor mineiro, para Mário, “puxar conversa” não é diferente de trocar cartas, pois a troca com o outro estabelece uma relação entre os dois no diálogo, de maneira que ambos se veem transformados. Um bom proseador é também aquele se faz estrada, por onde seguimos ou estacionamos, até o vento chegar anunciando a mudança do tempo, mais uma vez.

Silviano Santiago hoje faz 90 anos, nos brindando com sua presença afetuosa e inteligência inspiradora

O modernismo, segundo o crítico mineiro, não se construiu apenas por causa da explosão dos manifestos e revistas de primeira hora, mas também através das hesitações, perplexidades e rasuras da comunicação no espaço privado. Assim, Silviano aponta para uma dimensão fundamental tanto das dinâmicas do movimento modernista, por meio das cartas de Mário de Andrade, quanto da formação da nossa cultura. No lugar de uma identidade fixa e rígida, um eu descentrado e móvel, numa abertura para o outro que só a descontinuidade viva do cotidiano, do correr intenso e frágil dos dias, é capaz de alcançar. Não por acaso, a oralidade tem um peso tão grande, para ele, na construção da cultura brasileira. 

Silviano Santiago hoje faz 90 anos, nos brindando com sua presença afetuosa e inteligência inspiradora. Que nessa estrada da vida nos reencontremos, não necessariamente como no clássico de Fellini, em busca de alguma espécie de redenção, mas no sentido de acolher suas intermitências, como quem se enxerga a si mesmo através de uma boa prosa pouco antes do sol se pôr.

Foto: Ana Alexandrino/ Reprodução.

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