
O “otimista incorrigível” Zuenir Ventura
Apesar de retratarem alguns dos momentos mais difíceis da história brasileira, os textos de Zuenir Ventura se recusavam a abandonar uma perspectiva otimista em relação ao Brasil e à própria vida.
Por Bárbara Goulart.
Foto: Pedro Revillion / CP Memória.
Em 2008, no lançamento do livro 1968: O que Fizemos de Nós, uma espécie de continuação da famosa obra 1968: O Ano Que Não Terminou, a magnum opus do jornalista Zuenir Ventura, o cientista político Renato Janine Ribeiro teria dito ao autor que havia achado seu novo livro “um tanto melancólico”. Zuenir prontamente rebateu o amigo: “Continuo um otimista incorrigível”. Esse paradoxo parece resumir a trajetória do jornalista, que faleceu ontem, no dia 22 de setembro de 2026. Apesar de retratarem alguns dos momentos mais difíceis da história brasileira, os textos de Zuenir Ventura se recusavam a abandonar uma perspectiva otimista em relação ao Brasil e à própria vida.
Em uma carreira de cerca de sete décadas, Zuenir trabalhou na imprensa escrita como repórter, editor e colunista, além de lecionar e publicar livros que nasceram, muitas vezes, de sua experiência direta com acontecimentos da vida brasileira. Nasceu em Minas Gerais, mas mudou-se para o Rio de Janeiro ainda jovem. Cursou Letras Neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia da então Universidade do Brasil, atual UFRJ. Nesse período, teve contato com importantes figuras do cenário intelectual brasileiro, como Alceu Amoroso Lima e Manuel Bandeira. Em 1955, trabalhou ao lado do filólogo Celso Cunha na cátedra de Língua Portuguesa da Faculdade de Jornalismo. Continuou atuando como professor na UFRJ e na UERJ durante boa parte de sua carreira.
Enquanto ainda cursava a universidade, Ventura trabalhou como arquivista noturno do jornal Tribuna da Imprensa. Ao longo dos anos 1960, ocupou diferentes funções de reportagem e chefia. Foi editor internacional do Correio da Manhã, diretor de redação de Fatos & Fotos, chefe de reportagem de O Cruzeiro e editor-chefe da sucursal carioca de Visão. Participou dos protestos e mobilizações estudantis contra a ditadura militar, incluindo a hoje famosa Passeata dos Cem Mil, experiência que retrataria posteriormente em seu livro. Depois do AI-5, decretado em dezembro de 1968, Ventura foi preso por cerca de três meses. Sua esposa, Mary, também foi presa e permaneceu detida por aproximadamente um mês.
Em 1985, Ventura foi para o Jornal do Brasil. Foi convidado a reformular a revista Domingo e depois ocupou outras funções de chefia no jornal. Também participou da reformulação do Caderno B e da criação de outros espaços voltados à cultura. Depois de deixar o Jornal do Brasil, Ventura estreou como cronista n’O Globo em 30 de janeiro de 1999. Suas colunas tratavam de assuntos como política, cultura, sociedade e o cotidiano do Rio de Janeiro.
1968: O Ano Que Não Terminou
A obra mais conhecida de Zuenir Ventura é 1968: O Ano Que Não Terminou, publicada em 1988. No livro, Ventura narrou os protestos, as mudanças culturais e a repressão política daquele ano, combinando recursos da reportagem e da narrativa de não ficção. O livro chegou a 48 edições e vendeu mais de 400 mil exemplares.
Como escreveu no livro, “o famoso maio de 1968 começou com dois meses de antecedência no Brasil. Mais precisamente em 28 de março, quando a Polícia Militar invadiu o restaurante estudantil Calabouço, no centro do Rio de Janeiro, e matou Edson Luís Lima Souto, de 18 anos, com um tiro à queima-roupa no peito”. No fim, a promulgação do AI-5, em 13 de dezembro, transformou 1968 em um ano “mitológico”. A partir daquele momento não haveria mais a “encenação de democracia que vigorara desde o golpe de 1964”.
Porém, ao retratar aquele fatídico ano, ainda é possível percorrer — paradoxalmente — um “tempo apaixonado e apaixonante”, como diz o autor, que marcaria a chamada Geração 1968 pelos próximos anos. É justamente aí que se pode entrever a perspectiva otimista de que falamos anteriormente. Apesar de retratar um dos períodos mais difíceis da história brasileira, o livro evidencia a esperança presente entre aqueles que lutavam contra a ditadura. O momento ainda era marcado, para alguns grupos, pela possibilidade de um retorno próximo às eleições e, para outros, pelo início do sonho revolucionário através de um movimento de massas. Era um período que, apesar do autoritarismo — ou talvez por causa dele — parecia exigir o sonho de um futuro melhor. Em maio de 1968, os jovens franceses escreviam nos muros de Paris: “Soyez réalistes, demandez l’impossible”. Talvez o mesmo lema estivesse presente no Brasil: seja realista, ex o impossível.
Dentro da cultura revolucionária e utópica das esquerdas do período, fortemente influenciada pelo pensamento marxista, havia uma compreensão particular do que significava democracia. Havia também uma definição específica do que significava o “povo brasileiro”. Existia, como escreveram os filósofos Michael Löwy e Robert Sayre (1995), certo “romantismo revolucionário”, por meio do qual setores da esquerda radical promoviam uma idealização das classes populares, do “homem do povo”, que não teria sido contaminado pelo capitalismo. Segundo o sociólogo Marcelo Ridenti (2010), essa idealização funcionaria como combustível utópico para a luta por um futuro diferente, um futuro socialista.
Nesse sentido, o presente era considerado insuportável e deveria ser abolido, utilizando-se os meios que fossem necessários. A revolução socialista constituía o grande ideal de setores da esquerda radical, da qual também faziam parte diversos intelectuais e artistas de classe média. Para esses grupos, não seria coerente fazer alianças e pregar a conciliação com reacionários e imperialistas. De acordo com sua cultura política libertária, radical e utópica, era necessário implementar reformas profundas. Qualquer solução intermediária seria insuficiente. Aliás, seria o mesmo que nada, pois manteria em vigor as estruturas consideradas podres e viciadas do passado conservador brasileiro.
É esse Brasil que Zuenir Ventura parece retratar em sua obra. A narrativa transcorre em tom jornalístico e literário, com referências a personagens, livros e músicas que fizeram parte daquele caldeirão de ebulição cultural e política. São citados, ao mesmo tempo, a atriz italiana Claudia Cardinale e figuras emblemáticas da luta contra a ditadura, como César Benjamin, o “Cesinha”, na época com 14 anos e depois militante do MR-8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro) e participante da luta armada, e Carlos Lamarca, “o capitão da guerrilha”, militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e posteriormente do MR-8, que ficou nacionalmente conhecido após desertar de seu quartel em Quitaúna e juntar-se à guerrilha. Ventura também faz referência a artistas que participaram da resistência ao regime militar e que hoje fazem parte da história da música brasileira, tais como Caetano Veloso, Chico Buarque e Geraldo Vandré.
“Continuo um otimista incorrigível”
O período posterior ao AI-5 resultou no desmantelamento da luta armada e foi marcado pelo fracasso do sonho revolucionário no Brasil. A “modernização conservadora”, nos termos de Barrington Moore Jr.; a “revolução passiva”, na terminologia de Gramsci; ou a “revolução burguesa”, na conceituação de Florestan Fernandes… Seja qual for a interpretação, o projeto da ditadura havia se consolidado. O regime militar chegaria ao seu fim não com um estrondo, mas por meio de uma abertura controlada, que teria na anistia de 1979, “lenta, geral e irrestrita”, um de seus momentos decisivos. Nessa nova conjuntura, a Geração 1968 perdeu espaço para as novas esquerdas que entravam no cenário político brasileiro. Sindicalistas, intelectuais católicos e antigos exilados passaram a se aglutinar no novo Partido dos Trabalhadores. Nas décadas seguintes, o PT chegaria ao poder.
Porém, não é preciso lembrar a ninguém que os últimos anos foram marcados pela ascensão da ultradireita no Brasil e no mundo. O autoritarismo ressurgiu das próprias entranhas da democracia. É nesse contexto que vale a pena retomar a perspectiva de Zuenir Ventura. Em entrevista ao Museu da Imagem e do Som, em 2011, ele afirmou:
“Quero ser um honrado cidadão brasileiro. Eu não sou modelo de nada, nem espelho de nada. Tenho qualidades e defeitos, e uma coisa que hoje está fora de moda chamada otimismo. Espero que quando eu morrer o otimismo esteja na moda. Eu realmente acredito no país, na cidade”.
Infelizmente, Zuenir faleceu ontem e, pelo que vemos nas ruas, o otimismo parece estar longe de estar na moda. Talvez, porém, possamos transformá-lo novamente em tendência? Espero que sim.

Bárbara Goulart é professora e pesquisadora da Fundação Getulio Vargas. Doutora em Sociologia pelo PPGSA/UFRJ, é autora de O Passado em Disputa: memórias políticas sobre João Goulart (Editora 7Letras).
