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Thallys Braga: “O livro me fez olhar para minha mãe como uma mulher”

Em entrevista para O Odisseu, Thallys Braga fala sobre a influência do jornalismo na escrita de Filho, as referências de autores como Édouard Louis, Annie Ernaux e Didier Eribon e sua identificação com o conceito de trânsfuga de classe.

Foto: Diego Bresani (Divulgação).


Repórter da Piauí, Thallys Braga cresceu em Inhoaíba, no subúrbio do Rio de Janeiro, e ascendeu socialmente através dos estudos. Em Filho, seu primeiro livro, publicado pela Companhia das Letras, Thallys se inscreve na tradição dos trânsfugas de classe e narra em primeira pessoa os conflitos envolvidos na mobilidade social.

Depois de se mudar para mais de cinquenta quilômetros de Inhoaíba, Thallys passou a perceber as diferenças que se aprofundaram entre ele e sua família. Em Filho, a relação com a mãe é o fio condutor da narrativa, que revisita episódios da infância e da juventude em um ambiente marcado pela homofobia e por poucas expectativas para o futuro. Retornando a essa história, o autor busca compreender as experiências que o formaram a partir de um novo olhar sobre a mãe. Ao tratar de uma experiência ainda pouco explorada pela literatura brasileira, o livro constrói uma narrativa autobiográfica poética e política.

Em entrevista para O Odisseu, Thallys Braga fala sobre a influência do jornalismo na escrita de Filho, as referências de autores como Édouard Louis, Annie Ernaux e Didier Eribon, sua identificação com o conceito de trânsfuga de classe, a relação que mantém hoje com o bairro onde nasceu, as dificuldades de escrever sobre episódios de homofobia, a importância das primeiras leituras LGBTQIA+ em sua formação e como a escrita do livro transformou sua maneira de enxergar a própria mãe.

Thallys Braga, autor de Filho (Diego Bresani/ Divulgação).

“Eu sou um transfuga”, diz Thallys Braga

Kaio Phelipe: De que maneira o jornalismo influenciou a escrita de Filho?

Thallys Braga: O jornalismo me ajudou muito, na verdade. Eu estava conversando com uma amiga que leu o livro recentemente, e ela disse que a leitura é muito visual, que tinha muitas imagens já criadas na cabeça sobre o bairro e as pessoas. E acho que aprendi a fazer o texto descritivo na reportagem, no tipo de reportagem que eu faço na Piauí, que é a reportagem narrativa, jornalismo literário, jornalismo narrativo, enfim, cada um chama de uma maneira.

Quando comecei a pensar no livro, é claro que fui buscar referências em pessoas que tinham feito autossociobiografias, como Édouard Louis, Annie Ernaux e Didier Eribon.

Tem uma coisa da Annie Ernaux da qual nunca me esqueço, que saiu em A escrita como faca e outros textos, mas que é um discurso proferido no Nobel. Ela diz que seu projeto era fazer um texto sem sentimentalismos e que fosse focado na questão social. Não vou me lembrar exatamente como ela disse isso, mas a ideia era essa.

Durante algum tempo, tentei fazer isso também. Eu queria que fosse um livro sobre a minha mãe, a mulher pobre, a empregada. Só que depois fui vendo que não conseguiria fazer isso, porque não era a escrita que eu conhecia, não era como eu estava adaptado, e eu não poderia me adaptar àquilo. Tinha muito sentimento na minha vida.

Daí, um dia, eu estava em casa pensando em uma reportagem que tinha para escrever. Eu sabia o caminho que precisava seguir para escrevê-la, sabia que precisava entrevistar pessoas e ler certos documentos. Foi quando pensei que seria mais fácil escrever o livro se eu o encarasse como uma espécie de autorreportagem, uma reportagem sobre a minha vida. Então a bagagem, como repórter, foi essencial para encontrar o caminho.

KP: O que foi mais difícil revisitar e transformar em literatura?

TB: É curioso, porque tudo foi difícil. Escrever foi difícil e, às vezes, eu pensava que era por causa da escrita, que estava sendo complicado porque escrever é complicado para quase todo mundo.

Lembro que, quando comecei a escrever o trecho da homofobia, foi um momento em que fiquei empacado durante um tempo. Não conseguia escrever e fiquei muito angustiado com aquilo; parecia que o texto não evoluía.

Tinha também a questão das divas pop, que aí já é outra questão, mas que demorei muito para escrever. Depois fui entender que é porque socialmente seria mais fácil eu escrever e falar da minha admiração por Caetano Veloso ou Chico Buarque. Pareceria mais sério, então eu também tinha uma espécie de vergonha, uma homofobia enraizada.

Mas, enfim, o episódio da homofobia que aconteceu em 2013 foi difícil de escrever e, um dia, fui falar com um amigo, meu ex-namorado, o G do livro, e ele falou: “Thallys, não é só difícil porque você está escrevendo, é difícil porque foi um episódio marcante e traumático na sua vida”.

Era a minha mãe batendo no meu rosto, queimando as coisas que eu gostava, e foi um episódio que durou muito tempo. Não foi só em uma manhã. Ela descobriu e ficava revisitando isso o tempo todo. Ela lia minhas conversas no Facebook, me confrontava e vinha me bater de novo. Aquilo foi muito difícil.

E, claro, escrever sobre o luto também foi muito complicado. Escrever sobre o dia da morte e o dia seguinte da morte. Não fiquei empacado, mas foi emocionalmente denso. Lembro que, no dia em que escrevi, saí para encontrar um amigo em um bar, como se nada tivesse acontecido, mas eu estava muito emocionado.

KP: Você se identifica com o conceito de trânsfuga de classe?

TB: Me identifico, mas eu resistia a me identificar, e não com o termo, mas com a ideia.

Tanto que no livro tem coisas que eu leio agora e não concordo mais, mas eu queria que ele fosse o retrato da minha mente quando ele foi escrito. Então, por exemplo, no prólogo digo que ainda me vejo como o viado pobre de Inhoaíba, porque, se eu perco meu trabalho, é para lá que eu volto. Hoje eu sei que é muito difícil voltar pra Inhoaíba. Mesmo que eu perca meu emprego, que é o que garante a minha subsistência, eu tenho hoje uma rede de contato, de capital social, que me garantiria algum outro emprego, alguma outra saída.

Então, nesse sentido, eu me vejo como trânsfuga. Eu já tenho contatos, já tenho referências, já tenho uma bagagem cultural que me coloca muito distante dos meus avós. Por exemplo, tenho uma prima que cresceu comigo, é um ano mais velha e está em uma realidade absolutamente diferente. Eu tenho certeza, a não ser que alguma tragédia da vida aconteça, de que a minha vida vai ser melhor que a dela, porque eu estudei, me graduei, estou lançando um livro. Então, sim, eu sou um trânsfuga, me identifico com isso.

KP: Como é sua relação com o bairro onde você cresceu agora?

TB: No começo foi muito difícil. Depois que eu saí, nos primeiros anos, não queria ir lá nem para visitar.

Eu queria ver meus avós, sentia saudades e também tinha uma certa consciência de que eu precisava ir, uma obrigação filial, sentia que eu precisava estar presente. Mas era difícil, porque o meu interesse estava todo em Niterói e na Zona Sul do Rio de Janeiro, e queria estar com as pessoas nesses cenários.

Quando ia para Inhoaíba, não conseguia ver nada ali que me justificasse a minha presença, além dos meus avós.

Depois do livro, passei a olhar com mais carinho para o bairro e comecei a encontrar vantagens em estar lá. A calmaria, por exemplo. Inhoaíba é um bairro no subúrbio carioca, mas ele não é o subúrbio clássico; ele não é um bairro boêmio. Está muito mais parecido com uma cidade do interior. Então tem uma calmaria, um silêncio, e eu amo o silêncio, que não encontro nos outros lugares.

Agora estou menos ansioso, falando quimicamente mesmo, meu cérebro está medicado, então consigo me sentar na mesma vibe dos meus avós, ouvir o passarinho e ficar em paz também.

Em algum momento da escrita de Filho, considerei voltar a morar em Campo Grande. Pensei que seria mais barato morar lá e estaria mais imerso no universo do livro, mas aí a história seria diferente. Seria quase como se interferisse na coisa, na história como ela é.

Então é isso, hoje eu encontro paz lá.

“Para quem é de lugares pobres, o livro ajuda a gente a imaginar uma saída e encontrar um caminho.”

KP: A literatura foi importante na mudança de classe social?

TB: Na minha casa a gente só tinha a Bíblia. Na verdade, não tinha só a Bíblia. Meu avô lia o jornal Extra, e não sei se você está familiarizado, mas o Extra tinha um esquema de selinhos. O jornal dava um selo que você podia recortar, juntar, e aí você trocava, às vezes por um kit de panelas, um aviãozinho, uma coleção de carros. Às vezes, a gente juntava sete selos e trocava por um livro de fotografias, um livro sobre a Amazônia ou algo assim. Então, para não dizer que a gente tinha só a Bíblia, tinha também esses livros que, na prática, ficavam pegando poeira na estante.

De algum modo, eu entendia que o livro era um objeto valioso, só que eu não lia. Na escola, nas aulas de português, ouvia falar de Machado de Assis e Euclides da Cunha. Para mim, esses eram nomes para batizar escolas, como Escola Municipal Machado de Assis. Mas, de alguma forma, o livro era um objeto de desejo meu, que me deixava meio fascinado.

Quando fiquei trancado em casa por causa do episódio de homofobia em 2013, comecei a frequentar uma livraria que tinha perto da minha escola. Comprei um livro lá e aquilo me envaideceu muito. A primeira vez que terminei um livro, fiquei pensando: “meu Deus, eu sou um leitor, eu posso ler um livro”, e isso mudou a minha autoestima.

Sempre tive muita dificuldade para estudar, mais tarde fui diagnosticado com o TDAH, e talvez minha vida teria sido diferente se eu tivesse recebido esse diagnóstico antes. Agora entendo que não era só uma falta de interesse, era uma questão mental, mas, depois que li meu primeiro livro, tive desejo por estudar e comecei a querer ser químico ou engenheiro químico.

O livro foi me levando, foi me dando possibilidade de futuro. Acho que, para quem é de lugares pobres, o livro ajuda a gente a imaginar uma saída e encontrar um caminho.

KP: Quando foi seu primeiro contato com narrativas literárias LGBTQIA+ ?

TB: Eu acho que foi em Percy Jackson. Se não me engano, tinha um personagem bissexual. Doei meus livros da série para uma biblioteca de Niterói, então não tenho como folhear para conferir.

Depois, o primeiro namorado que tive, o advogado em Filho, me deu um livro que li escondido, para minha mãe não ver. Era Will e Will, escrito por John Green e David Levithan.

Logo em seguida, li As vantagens de ser invisível, e foi um livro que me marcou muito. Lembro que também escondi debaixo da cama, para minha mãe não ver.

Meus primeiros contatos foram através de uma literatura muito comercial. Depois que fui me aprofundando e descobri outros autores.

KP: Como começou sua relação com a literatura de Édouard Louis, Annie Ernaux e Didier Eribon? E quais outras referências te acompanharam durante a escrita de Filho?

TB: Li Mudar: método, do Louis, e fiquei muito impactado. Fui atrás de todas as obras dele, até que cheguei a Didier Eribon e Annie Ernaux, que eram referências para ele. Fui ler todos os trânsfugas, mas, durante a escrita de Filho, me afastei dos livros do Édouard como um exercício consciente. Ele já tinha me influenciado muito, mas foi preciso que eu me distanciasse para não ficar tão parecido. 

Li Os anos, da Annie Ernaux, assim que ela ganhou o Nobel, e confesso que não me prendeu muito. Por mais que seja a grande obra dela, prefiro quando ela escreve sobre corpo, sexo e amor, como em O acontecimento, Paixão simples e O jovem.

E li quase tudo do Didier Eribon. Só não li Reflexões sobre a questão gay, porque saiu no Brasil há muitos anos e não consegui encontrar, porque estava esgotado. Os livros dele me ajudaram a pensar bastante, mas é um outro tipo de escrita, voltado para a sociologia.

Tem também o Silviano Santiago. O Silviano é mais do que uma referência literária; é uma referência de vida, de homem, de futuro. Ele tem 90 anos e continua escrevendo; esse é quem eu quero ser.

Mas a referência mais imediata, o que ficava na minha escrivaninha, era Marguerite Duras. Fiquei obcecado por ela depois que li O amante.

Camila Sosa Villada, que é quase uma filha da Marguerite Duras, também foi muito importante. Me vali muito do livro A viagem inútil. Tem uma coisa que ela escreveu e que eu nunca me esqueci. Se não me engano, ela até cita Marguerite Duras e, em seguida, diz que “se não for para deixar a carne e o corpo no livro, é melhor fazer uma outra coisa”.

Essa frase me guiou o tempo inteiro. Decidi ser honesto durante toda a escrita do livro. Tem coisa que vou guardar só para mim, tem coisa que é só minha, mas me comprometi a ser absolutamente sincero no livro.

No meio do caminho, apareceram outras obras, como Léxico familiar, da Natalia Ginzburg. Gostei muito da naturalidade com que ela escreveu o cotidiano familiar, parecia que eu estava observando a família dela. Não parecia um esforço literário, era tudo muito natural em texto e eu gostava bastante disso. Acho que o meu livro, infelizmente, vai para longe, mas queria que estivesse mais perto disso.

KP: A escrita do livro mudou sua visão sobre a sua mãe? 

TB: Isso é curioso. Hoje olho para a minha mãe com mais gentileza do que quando ela estava viva. Agora tenho um olhar mais compreensivo para ela. No livro tem a cena da maconha, por exemplo, e eu amo aquilo, porque era um respiro no meio da vida desgraçada dela. 

Eu digo no final, acho que na última página, que amo mais a minha mãe agora, e isso é verdade, porque o livro me fez olhar para ela como uma mulher. Antes eu só a enxergava como mãe.

Então mudou, sim, e continua mudando, e é triste porque eu queria poder me sentar com a minha mãe agora e conversar. Meu avô trabalhou na Varig e conseguiu uma passagem de avião para ela ir para o Chile. Eu queria perguntar para ela como foi morar um ano fora, saber com quem ela namorou e o que ela fez lá.

Acho que não teria escrito o livro e não teria me tornado escritor se ela não tivesse morrido, então tem essa complexidade.

Mas tudo mudou e continua mudando por causa do livro. Acho que o tempo vai me ajudar a entender melhor essa resposta.

KP: Em algum momento da escrita, você teve medo da exposição?

TB: Durante a escrita, eu não imaginava que estava escrevendo para alguém ler ou quem iria ler.

Eu sabia quem eu não queria que lesse, que é a minha família. E ainda não quero; acho que não vai fazer bem aos meus avós. Tem temas, como a morte da minha mãe e a questão da homofobia, que não irão chegar de forma tranquila neles. É claro que eles sabem sobre a publicação do livro e já viram o exemplar físico. Quando recebi os exemplares, fui lá e mostrei a eles.

A existência do livro inicia um novo capítulo em toda essa história. A gente já conversa sobre homofobia, por exemplo. Minha avó conversou comigo sobre as coisas que aconteceram em 2013, me contou sobre situações que eu não sabia, sobre os bastidores da minha mãe e do meu avô.

É bonito ver como o livro vai transformando a realidade.

KP: Como se sente ao ver o livro publicado?

TB: É uma loucura. Estou em São Paulo e não precisava ter trazido o livro na bolsa, mas eu trouxe. Não quero desgrudar dele.

Quando ele chegou para mim, fiquei muito feliz de saber o peso e o cheiro que ele tem. Lembro de pensar: “É nesse objeto que se resume todo esse processo”.

Passei o último ano muito louco com isso. Ficava perguntando para os editores se já tinham recebido a capa, se já estava na gráfica, se já tinha saído da gráfica.

Estou bem animado e estou doido para ser lido. Estou curioso para saber o que vem a seguir e o que vou ouvir dos leitores. É um tiro no escuro.

Eu sei o que é publicar uma reportagem, não como é publicar um livro, e estou ansioso para saber.

Filho, de Thallys Braga/ Companhia das Letras, 2026/ 232pp.