Entrevistas

Priscilla B M Navas na Bienal do Livro de São Paulo: “Queremos pensar numa forma de desmistificar a dita alta literatura”

Em entrevista à revista O Odisseu, Priscilla B M Navas fala da sua expectativa em participar pela primeira vez da Bienal do Livro de São Paulo. 

Foto: Divulgação.


Entrevistei há pouco tempo a escritora Priscilla B M Navas, autora do ótimo “Mulher ausente: derivações quase poéticas”. Sergipana, Priscilla vem desenvolvendo um trabalho excelente de divulgação e debate em torno da escrita literária de autoria feminina e também tem levantado a bandeira das publicações em editoras independentes. Na sua trajetória, afirmação cultural e rigor na arte da palavra se encontram numa mesma intensidade. Pela primeira vez na Bienal de São Paulo, a autora conta em entrevista sobre as suas expectativas em torno dos encontros com os leitores e outros amigos escritores. 

De sexta à segunda da Bienal do Livro, será possível encontrá-la em diversas. A autora estará expondo e autografando na sexta (das 13h às 21h), no sábado (das 10h às 14h) e na segunda (das 10h às 14h e das 18h às 20h) no espaço Escreva Garota, e na segunda às 15h no Espaço da Editora Patuá. Participará também das mesas Eu sou escritora? Da hesitação à busca por legitimidade na trajetória literária, no dia 5 de setembro às 16h ao lado de Lucia Sider e Kelly Juste no Stand Escreva Garota, Corpo Poético: o desejo na literatura feita por mulheres ao lado de Cilene Resende e Carol Mondim também no dia 5 de setembro no Stand Escreva Garota às 19h,  O que acontece quando mulheres tomam a palavra para narrar o mundo, ao lado de Eugenia Fraietta, Anna Carolina Longano e Leonilia Ribeiro no Stand da Patuá no dia 7 de setembro às 12h e da mesa De onde vem o poema? Em mesa com Nicolli Kiko e Isabella Yoshimura no Stand Escreva Garota também no dia 7 de setembro às 18h.

Confira a seguir a nova entrevista!

Priscilla B M Novas. A autora estará na Bienal do Livro de São Paulo 2026 (Divulgação).

“Sou uma autora iniciante, e quero aproveitar os deleites deste começo achando todas as coisas mágicas”, diz Priscilla B M Navas sobre sua primeira participação na Bienal do Livro de São Paulo

As bienais e eventos literários têm dado a chance de autores iniciantes viajarem e conhecerem outros leitores. Na sua experiência, como tem sido esses encontros?

Os encontros têm se dado bem antes da viagem. Eles culminam num primeiro abraço de duas (ou mais) pessoas que já se conhecem intimamente, eu diria. 

Tenho a felicidade de participar de dois coletivos, o dos autores da minha editora e editoras agregadas (A Casa Gueto, por exemplo) e um coletivo de mulheres, O Escreva, Garota. Há mais de um ano a Bienal de São Paulo vem sendo desenhada, idealizada e construída entre nós.
O mesmo posso dizer dos dois outros eventos semelhantes dos quais participei, a Bienal de Pernambuco (outubro 2025) e da Bahia (abril 2026). 

Quem eu só conhecia ‘de ouvir falar’ se tornou contato assíduo no whatsapp, autoras que eu admirava de longe, agora conheço, tenho livro autografado, são pessoas com quem pude até falar brevemente.

É tudo muito pequeno, quase insignificante, mas eu prefiro chamar de artesanal. Como você disse, sou uma autora iniciante, e quero aproveitar os deleites deste começo achando todas as coisas mágicas. Esses encontros, todos, inclusive com autores iniciantes como eu, são o combustível para continuar avançando, querendo, tentando.

Acho que o mesmo pode ser dito pela publicação em editoras independentes, como é o caso da Patuá. Quais os grandes benefícios e desafios de ser uma autora do cenário independente?

Eu sempre digo que fui publicada pela editora com quem eu queria/sonhava publicar. 

Tenho a mesma dose de admiração pela Urutau. Ambas editoras pequenas, independentes, de curadoria exemplar. Isso permite que elas tenham também um acervo de livros incríveis e autores bacanas. Se o futuro catapultar algum desses nomes ao estrelato e grandes companhias, ótimo: mais gente vê, lê, conhece, e espero que o autor seja também contemplado com os louros da ‘vitória’. Se ficarmos como um exército de resistência, tá valendo também. 

O que eu conheço são pessoas, em especial mulheres, que têm seus livros como um sonho realizado. Elas carregam suas obras com o orgulho típico de mães, sejam eles fruto de editora independente, autopublicação, edição contemplada por um edital. O livro nasceu, tem nome, está no mundo.

Outro fator que particularmente me interessa são os deslocamentos geográficos. Você, assim como eu, vem do Nordeste. Você acha que ainda existe alguma barreira ou desafio maior para autores do Nordeste quando chegam em eventos no sudeste?

Sim, existem as barreiras, o preconceito explícito ou velado. Nosso sotaque, a ideia de que o deslocamento aconteceu porque não existem oportunidades em nossa região. O que é um grande contrassenso, afinal as programações oficiais dos eventos convidam um enorme contingente de intelectuais, autores premiados, best sellers, que nasceram, vivem e honram suas regiões. Certos preconceitos, inadequados em qualquer circunstância, ficam ainda mais anedóticos ao envolver arte, cultura e literatura.

Entre as diversas programações que você irá participar durante a bienal, estão mesas com poetas e escritoras que estão pensando o tema da escrita de mulheres. Qual sua expectativa em participar dessas mesas? Você poderia falar um pouco mais delas?

As mesas foram pensadas, nomeadas e discutidas pelas autoras. Podemos discorrer horas sobre o genérico da literatura, mercado, oportunidades ou deslocamentos, mas queremos agora a minúcia. A gente quer se perguntar e questionar o público o porquê de escrevermos mais,ou melhor e sobre o que só uma mulher vive e sabe de verdade. Queremos falar das dúvidas e medos que são mais nossos do que do autor, esse ente despersonalizado. Queremos, juntas, pensar numa forma de desmistificar a dita alta literatura nos tempos de Inteligência Artificial, escrevendo cada vez melhor o que só o humano sente e poderia dizer.

Em específico, estarei em  5 mesas nos três dias em que participarei da Bienal. São todas compostas integralmente por mulheres. A gente ficou muito tempo em silêncio, bebendo os saberes de homens célebres, como se o papel de espectadora fosse o único que nos coubesse. Foi tempo demais sendo plateia e sentindo vontade de contribuir, enriquecer os debates.  

A propósito, algo que já conversamos na última entrevista diz respeito a esse novo momento de mulheres escrevendo com coragem. Quais mulheres da sua geração e que estarão na Bienal te inspiram a escrever?

Da minha geração admiro Socorro Acioli, Liana Ferraz, Adriana Moro, Analu Leite, Ivânia Rocha, Ryane Leão, Dani Arraes, Paula Gicovate, Giovanna Madalosso, Paullyni Tort, Mar Becker (e ficaria discorrendo nomes de mulheres por duas edições de O Odisseu) e, claro, as autoras com quem estarei compondo mesas. 

Todas elas, independente dos arranjos familiares nos quais se encaixam, estarão por alguns dias vivendo a maior Bienal do Livro deste país. É isso que me inspira.

E como tem sido o encontro com as leitoras mulheres? Como tem sido a recepção do seu livro para este público específico?

Eu escrevo poesia. A não ser que o livro, do dia pra noite, caia nas graças de um influencer ou seja indicado por alguém muito admirado, ele continua sendo um nicho complicado de vender. 

E o que seria um livro fácil também, né? No coletivo de mulheres que participo, há autoras de todo tipo de literatura: para infâncias, romances, novelas, autoficção, young adult, biografia, autoajuda, contos. Estamos todas fazendo algo parecido: oferecendo literatura para um público interessado, afinal visitam eventos como bienais, festivais, flips, festas literárias em suas cidades.

Eu ofereço os livros que escrevi, nos quais acredito e de que sinto orgulho. Não há nada mais especial do que ser lido, mas isso é bem novo, e sei que há um longo caminho a percorrer, com uns tantos reveses e satisfações ocasionais. 

Eu quero pensar mais na alegria do caminho do que num pote ao final do arco-íris.

Qual sua grande expectativa com relação à bienal do livro em São Paulo?

São três bem grandes: Reencontrar os amigos, fazer novos e divulgar meus livros.

Tem muita saudade guardada de quem fui conhecendo online, depois ao vivo, mais tarde com frequência do convívio. Há aqueles amigos ainda desconhecidos, mas que ao final de um evento passamos a ter como próximos desde sempre. 

Este ano lancei meu segundo livro, o “Mulher Ausente: derivações quase poéticas.” e, que, modéstia à parte, eu acho lindíssimo. Quero muito que ele chegue aos seus leitores.

Mulher Ausente: Derivações quase poéticas, de Priscilla B M Navas/ Editora Patuá, 2026/ 120 pp.