
Das letras como resistência e pulsão de vida: Lançamento do volume 46 dos Cadernos Negros
No dia 21 de agosto, o grupo editorial Quilombhoje lançou o volume 46 dos Cadernos Negros, com a presença dos autores e autoras que compõem o volume e dão continuidade à coleção.
Foto: Samirah Fakhouri (Divulgação).
Sou um leitor dos Cadernos Negros. Lembro de quando estava no ensino fundamental II e a professora de Português, entusiasmada com as aulas da Profa. Dra. Florentina da Silva Souza, pediu que os seminários do último bimestre letivo fossem voltados para a leitura dos Cadernos Negros. Minha mãe comprou o livro de poemas e apresentei alguns deles, fazendo a análise de parte dos textos daquele compilado. Anos mais tarde, já no Instituto de Letras da UFBA, fiz uma seleção para entrar num grupo de pesquisa, cuja líder é a Profa. Dra. Lívia Natália. Numa das perguntas, estava um poema de Cuti, “Quebranto”, que eu já havia lido no volume dos Cadernos Negros que minha mãe havia comprado.
Posteriormente, minha relação ficou ainda mais próxima. Fui aluno de Jairo Pinto, amigo de Vânia Melo e de Hildalia Fernandes, e pesquisei, para além dos nomes citados, Miriam Alves, Cuti, Akins Kinté e Conceição Evaristo em comunicações orais e em trabalhos desenvolvidos no mestrado e/ou no doutorado. Fui aluno de Florentina da Silva Souza. Peço licença para começar uma matéria com um teor tão pessoal, mas não há como não associar meu percurso acadêmico e intelectual à leitura dos Cadernos Negros. Nesse percurso é que retorno à pesquisadora Florentina Souza, de quem fui aluno, e a seu livro, resultado de sua tese de doutoramento sobre a coleção e o Jornal do MNU. Em seu estudo, a pesquisadora discute como a literatura, associada ao povo, também pode reproduzir estereótipos e funcionar como uma forma discursiva de exercício do poder. A reflexão ajuda a entender a importância dos Cadernos Negros e do Quilombhoje, editora responsável pela publicação dos livros da coleção.
Para Florentina Souza, quando sujeitos negros narram a si mesmos e aos seus, ocorre um movimento de abalo nas estruturas tradicionais. Como exemplo, analisa as capas dos Cadernos Negros, observando como pessoas negras eram representadas de forma positiva naquele espaço. Também chama atenção para o conteúdo de obras que costuram, no tecido literário, cenas cotidianas de racismo, a relação com a ancestralidade e com as religiões de matrizes africanas e a oralidade presente nas periferias do país. Essas produções, concomitantemente, atestam a importância e a influência cultural dos povos vindos de África submetidos à escravização.
Ao tratar de assuntos tão pertinentes para entender o racismo, a vivência do negro e suas expressões culturais, os Cadernos Negros apresentam novas vozes literárias ao público constantemente. A cada ano, é lançado um livro: nos volumes pares, são publicados contos; nos ímpares, poemas. O mais recente é o volume 46, organizado por Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, que já publicaram na coleção como autores. No dia 21 de agosto, o volume de contos foi lançado no Sesc 24 de Maio. Em um breve comentário, a escritora Esmeralda Ribeiro destacou o crescimento da participação de mulheres negras na coleção: “São 59 autores e autoras, e só de mulheres são 39. Depois do volume 43, esse número só vem aumentando”.
“Os Cadernos Negros fomentaram essa parte das editoras negras de pequeno porte”, diz Esmeralda Ribeiro

Esmeralda Ribeiro destaca, ainda, a importância da publicação para que os autores possam inserir seus trabalhos no mercado editorial, especialmente para “tirarmos nossos textos da gaveta e mostrarmos ao mercado literário”. A escritora também enfatiza o impacto da circulação dessas produções e destaca a necessidade de “ampliar nossos trabalhos para o mundo, evidenciando a importância dos Cadernos Negros há quase 50 anos”. A continuidade da coleção contribui para o surgimento de editoras negras de pequeno porte, como explica Esmeralda: “Os Cadernos Negros fomentaram essa parte das editoras negras de pequeno porte. E isso se deve à persistência dos Cadernos Negros. À existência e à persistência. Além de publicar, persistimos”.
Jairo Pinto, escritor que compõe o volume 46, salienta a importância dos Cadernos Negros, publicados desde a década de 1970: “Ainda hoje, Cadernos Negros está longe de ocupar, na proporção de sua importância e longevidade, as prateleiras de bibliotecas públicas e escolares e os espaços de festas e feiras literárias financiadas com recursos públicos. Sua difusão, em maior ou menor grau, continua sendo feita como em 1978, ano de seu primeiro volume: pelas mãos de autores e autoras, leitores e leitoras, educadores e educadoras e, enfim, pela ação individual de mediadores e mediadoras de leitura que reconhecem a força dessa obra que segue – e seguirá. Porque Cadernos Negros não é apenas uma antologia que atravessou o tempo. É uma literatura que aprendeu a subverter os apagamentos históricos”.
A escritora e educadora Zeferina falou sobre a construção do conto e as diferentes formas de abordar os afetos na narrativa: “Kiadi – Quando o amor se veste de liberdade nasce desse movimento. Assaíra, Kalumbo e N’Dola vivem uma experiência afetiva que desloca ideias convencionais sobre amor, desejo e pertencimento. O conto propõe outras possibilidades de vínculo e nos convida a pensar até onde podemos amar quando a liberdade também faz parte da relação. Participar dos Cadernos Negros representa justamente isso: levar uma narrativa atravessada pela ancestralidade, mas aberta ao presente e a novos imaginários. Kiadi é ficção, mas carrega verdades de quem escreve – e talvez o leitor encontre, entre suas linhas, novas perguntas sobre o próprio modo de amar”.
(Continua após a foto)

Além dos escritores e escritoras mencionados, também integram o volume 46: Abilio Ferreira, Akins Kinté, Alessandra Martins, Alessandra Sampaio, Aline Lourenço, Antonio Neto, Beatriz Mazzei, Benedita Lopes, Benicio dos Santos Santos, Celinha Reis, Cíntia Colares, Cláudia Nascimento, Claudia Walleska, Cuti, Edson Robson A. Santos, Elias Louzeiro, Elisa Mattos, Esmeralda Ribeiro, Fabiana Silva, Gabriela Ashanti, Gi Matos, Heloisa de Souza, Jacilane Santana, Jamile Soares, Janaina Ferreira, Janaína Nascimento, Jeovênia P., João R. Coutinho, Joceval Nascimento Layê, Ju Vieira, Ksabuvu, Leandro Passos, Lena Santos Máxismo, Lídia Santos Costa, Luana Passos, Manoel Francisco Filho, Margareth dos Anjos Santos, Mari dos Santos, Maria Luiza Hastenreiter, Nanah Martins, Norma Diana Hamilton, Oubi Inaê Kibuko, Patrícia Santana, Pretta Val, Raimundo N. S. Filho, Renan Wangler, Rodrigo Azonsi, Rogério Dias Micheletti, Sandra M. Job, Selma Maria, Sheila Martins, Suzana Barbosa, Tânia Cerqueira, Valéria Correia Lourenço, Wudson Guilherme de Oliveira e Zé Ricardo Ferreira.
Os Cadernos Negros apresentam ao leitor outras possibilidades de representação do sujeito negro, confrontando imagens canônicas marcadas por estereótipos racistas que, durante muito tempo, foram difundidas e levadas para as salas de aula da educação básica e das universidades. Ao longo de quase cinco décadas, a coleção permanece como espaço de resistência e de criação de novas formas de criação, trazendo discussões e temas fundamentais para pensar a sociedade brasileira.
Para comprar Cadernos Negros – Volume 46, acesse o site da Editora Quilombhoje Literatura.

