
Nem dieta, nem culpa: só comida, memória e desobediência
Entre o “bowl” e o arroz com feijão, este texto olha para a disputa política da linguagem na comida e encontra, no livro de Suzi Soares, uma defesa radical do afeto, da memória e do cozinhar como resistência cotidiana.
Por Jéssica Balbino.
Foto: Reprodução.
Quem é que nunca se pegou, recentemente, chamando a carne de proteína que atire o primeiro carboidrato nesse texto. Sim. Nossa relação com a comida – e o ato de comer, cozinhar, partilhar – tem mudado. A meu ver, para pior. O que antes era arroz, feijão, carne e salada, hoje é: “vou carbar” ou “preciso de proteína”. E os novos nomes, dados àquilo que se fazia entre família, amigos ou mesmo ao compartilhar uma marmita ou quentinha no trabalho, se torna um ato utilitário e performático.
Críticas quanto ao estilo de vida, ou “lifestyle” pós-moderno que vende saúde, mas nos entope de ultraprocessados e sufoca o afeto até ele não existir mais não faltam e, por isso, resolvi falar do livro “Palavras e Sabores”, da Suzi Soares, produtora cultural do Sarau do Binho, Festa Literária da Zona Sul (FELIZS) e vários outros projetos igualmente deslumbrantes no Campo Limpo, zona Sul de São Paulo, que ela lança neste mês de abril.
Com 20 receitas, 10 doces e 10 salgadas, ela traz, não somente o “modo de fazer”, mas o conceito de “slow food”, ou o tão já criticado também “comida afetiva”, mas, vai além: ela nos devolve o ato de comer como algo prazeroso, quiçá, revolucionário.
Sim: comer em companhia, trocando histórias, tocando em pessoas, olhando no olho e compartilhando ingredientes para fazer um tira-gosto ou um prato simples é um ato político. Em tempos de gominhas, whey protein, shakes de qualquer coisa, dietas hiper restritas e pouco olho no olho, poder partilhar comida com pessoas queridas se tornou algo fora do comum.
A gente cresceu aprendendo a pedir desculpa antes mesmo de sentir prazer: “ai, hoje eu mereço”, “só um pedacinho”, “segunda eu começo”” como se comer fosse sempre uma dívida, como se o corpo fosse sempre um projeto inacabado, como se existir precisasse de autorização. Aí te vendem disciplina, controle, substituição, troca o açúcar por culpa zero, troca o almoço por shake, troca o desejo por meta e no meio disso tudo, esqueceram de avisar que a fome não é só do corpo.
É fome de encontro, de mesa cheia, de risada atravessada, de alguém dizendo “come mais um pouco” sem julgamento nenhum: é aí que a comida vira outra coisa. Não é sobre receita perfeita, é sobre memória: o gosto que não cabe na medida, sobre aquilo que não dá pra rastrear em aplicativo nenhum.
É o bolo que a gente não sabe explicar por que é bom, é a comida feita no olho, é o tempero que vem de antes da gente e talvez a desobediência comece justamente aí: em parar de negociar o próprio prazer, em não transformar cada garfada num cálculo em não transformar o corpo num campo de batalha.
Porque tem um tipo de controle que não quer te deixar saudável, quer te deixar pequena e tem um tipo de comida que faz o contrário: expande, conecta, lembra.
“A cozinha da Suzi, que atravessa anos de encontros culturais na zona sul de São Paulo, aparece ali como aquilo que sempre foi, mas que a gente anda esquecendo: um lugar de circulação de gente, de ideias, de cuidado.” – Jéssica Balbino
(Continua após a imagem)

Começar por Palavras e Sabores – receitas afetivas de Suzi Soares, de Suzi Soares, é quase um desacato – num mundo em que até o arroz com feijão precisa virar “bowl” pra parecer digno de existir. Porque não é só sobre comida: é sobre quem tem o poder de nomear o que a gente come, como a gente come e, no limite, como a gente se reconhece. E quando a linguagem é sequestrada, o gosto vai junto.
Tem uma engrenagem muito bem azeitada que transforma comida em performance: não basta alimentar, tem que caber na estética, no algoritmo, na promessa de eficiência. É aí que o ranço de Rita Lobo deixa de ser implicância e vira diagnóstico. Quando o “bolo” vira “preparo”, quando o “prato feito” vira “opção”, quando tudo precisa ser rebatizado para circular melhor num mercado que não reconhece o cotidiano como valor, o que está acontecendo é uma higienização da experiência – e, no fundo, uma exclusão.
O livro da Suzi entra exatamente nessa fissura, mas não como resposta direta, e talvez por isso seja ainda mais forte. Ele não tenta disputar linguagem com o mercado, não tenta sofisticar o simples, não tenta explicar demais. Ele simplesmente insiste. Insiste no nome inteiro das coisas: bolo de fubá cremoso, curau, carne de panela com mandioca, farofa de cebola, brigadeirão. Insiste na comida como ela é, e como ela foi sendo construída ao longo do tempo, na repetição, no improviso, no que dá pra fazer com o que tem.
E mais do que isso: insiste na ideia de que comida não existe sozinha. Cada receita em Palavras e Sabores vem acompanhada de um texto — os “afetos” — escritos por quem já passou por aquela cozinha. Não são relatos formais, não são textos organizados para caber em categoria nenhuma. São fragmentos de vida. E isso muda tudo. Porque desloca a receita do campo da instrução e leva pro campo da memória.
Para a escritora Dinha: “Quem achar que é só um livro de receitas, fique sabendo: é a história da nossa literatura sendo contada de outro ângulo. É quase um livro de memórias, contadas a muitas vozes e sabores”, diz.
A cozinha da Suzi, que atravessa anos de encontros culturais na zona sul de São Paulo, aparece ali como aquilo que sempre foi, mas que a gente anda esquecendo: um lugar de circulação de gente, de ideias, de cuidado. Um lugar onde alimentar não é serviço, é vínculo. Onde cozinhar não é tarefa, é presença.
E talvez seja exatamente isso que incomoda tanto nessa tentativa de rebatizar a comida: porque quando você tira o nome, você tira também a história. Quando você transforma “arroz com feijão” em outra coisa qualquer, você não está só sofisticando, você está apagando o caminho que aquele prato percorreu até chegar ali. Está dizendo que ele só vale se for traduzido.
Enquanto isso, do outro lado, os ultraprocessados seguem intactos, cheios de nome bonito, promessa rápida e zero memória. Eles não precisam de história porque já vêm prontos pra substituir qualquer uma. E é assim que o capitalismo vai operando: esvazia o que é coletivo, acelera o que é individual, transforma cuidado em consumo.
Os livros de receita, nesse cenário, viram quase objetos de resistência. Porque eles não obedecem à lógica da pressa. Eles acumulam tempo. Um livro de culinária não é só um conjunto de instruções, é um lugar onde a vida vai ficando registrada: na página suja, na anotação feita às pressas, na receita adaptada porque faltou ingrediente. E o livro da Suzi radicaliza isso ao assumir, desde o começo, que cozinhar é também escrever memória.
Então começar por ele não é só uma escolha narrativa. É uma escolha de lado. É dizer que, antes de qualquer trend, qualquer dieta, qualquer nome gourmetizado, existe uma comida que continua sendo feita e que continua carregando gente dentro dela. E que talvez o gesto mais político, hoje, seja esse: chamar as coisas pelo nome e continuar cozinhando mesmo assim.
No fim das contas, comer pode ser isso: um gesto simples de quem decide existir sem pedir desculpa e, sinceramente, talvez seja exatamente isso que mais incomoda. Que as palavras e sabores encontrem seu paladar.
SERVIÇO
Lançamento do livro “Palavras e Sabores – receitas afetivas de Suzi Soares”
📍 Sesc Campo Limpo – São Paulo
📅 16 de abril
🕓 Horário: 19h30
🎟 Entrada gratuita
Informaçoes: https://www.instagram.com/suzi_a.soares/

Jéssica Balbino é jornalista, escritora e curadora literária, com mais de 20 anos de atuação entre o jornalismo cultural, a literatura e a educação. Mestre em Comunicação pela Unicamp, pesquisa e escreve sobre literatura, corpo, dissidências, gordofobia e periferia, articulando pensamento crítico e experiência vivida. Teve o livro “Porca Gorda” selecionado como um dos melhores do ano de 2025 por revistas especializadas como O Odisseu e Lado B Literário. É autora de Gasolina e Fósforo (selo doburro) e Traficando Conhecimento (Aeroplano). Co-criadora do curso Insurgências Gordas. Curadora da Flipei. Atua como colunista no Estado de Minas e TPM, professora e mediadora, desenvolvendo oficinas, cursos e encontros literários em instituições culturais, escolas e festivais no Brasil.Apresenta o podcast Rabiscos e integra júris de importantes prêmios culturais. Defende a literatura como prática viva, política e coletiva, um espaço de escuta, confronto e transformação.