Sétima Coluna

A Marca do Olhar do Outro em “Timidez”: novo filme de Thiago Gomes Rosa e Susan Kalik

No espaço reduzido de um apartamento e na relação entre dois irmãos, Timidez, filme de Thiago Gomes Rosa e Susan Kalik, expõe a opressão interna de uma juventude marcada pelas ranhuras deixadas pelo racismo cotidiano.

Imagem: Cena do filme ‘Timidez’, de Thiago Gomes Rosa e Susan Kalik.


Timidez, filme de Thiago gomes Rosa e Susan Kalik.

Timidez (2026) é um longa-metragem de suspense psicológico, dirigido por Thiago Gomes Rosa (Coração Acelerado, 2026) e Susan Kalik (Anderson “Spider” Silva, 2023), que adapta a peça O Cego e o Louco, de Cláudia Barral, com estreia prevista para o dia 16 de abril, após um período circulando por diversos festivais nacionais e internacionais, entre os quais se destacam o 16º Festival de Cinema de Triunfo (2025), onde o filme conquistou seis premiações, incluindo Melhor Longa Nacional e Melhor Direção, e a 21ª edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema (Salvador-BA), no qual conquistou três prêmios, incluindo Melhor Longa Baiano.

A trama acompanha Jonas (Dan Ferreira), um jovem negro que divide a casa com o irmão Nestor (Antônio Marcelo), um homem cego cuja relação oscila entre afeto e opressão. Carregado por memórias que o adoecem, Jonas torna-se inábil nas relações sociais e alimenta um universo particular, marcado por rejeição e solidão. Essa “timidez” é mais que um traço de personalidade: é a manifestação íntima de feridas emocionais profundas, atravessadas por experiências que se acumulam desde a infância e moldam sua percepção de si mesmo.

A obra mantém um estilo teatral nas atuações, o que contribui para que sejamos transportados à mente conflituosa do protagonista, que luta contra a timidez enquanto aguarda a incerta visita de um interesse amoroso: a vizinha Lúcia (Evana Jeyssan), com quem teme falar.

Seu irmão, Nestor, exerce um papel ambíguo: enquanto recebe os cuidados de Jonas, também tenta ajudar o irmão mais novo a vencer a timidez. Ao mesmo tempo em que o impele a superar suas amarras psicológicas, também o ridiculariza, apontando traços de sua personalidade e rindo de suas limitações. Assume, assim, um papel tipicamente superegóico, que tanto o impulsiona a confrontar suas inibições quanto o aprisiona ainda mais nelas, reforçando o ciclo de angústia, desvalorização de si e paralisia no qual Jonas está imerso.

É nesse espaço reduzido, o de um apartamento e o da relação entre dois irmãos, que vemos refletida a opressão interna desse personagem, marcada pelas ranhuras deixadas pelo racismo cotidiano. Trata-se de uma marca inscrita pelo olhar do outro, um olhar que já não precisa estar presente para agir sobre ele, pois foi internalizado. É sempre sob esse olhar, que, na trama, aparece representado pela figura do irmão cego, que Jonas se move ou se imobiliza em sua própria narrativa. É o desespero dessa luta interna que acompanhamos atingir seu ápice, quando Jonas deverá enfim confrontar os fantasmas que o impedem de se reconhecer digno do amor de Lúcia, mas também do seu próprio.

Timidez estreia nos circuitos comerciais no dia 16 de abril.