
Ramon Nunes Mello: “Em vez de perguntar apenas o que a literatura diz sobre o hiv/aid$, procuro investigar o que o hiv/aid$ faz com a literatura.”
Em entrevista para O Odisseu, Ramon Nunes Mello conta sobre sua formação como leitor e escritor, sua pesquisa de doutorado, o papel da curadoria na preservação da memória e apresenta poema inédito.
Foto: Arquivo Pessoal.
Poeta, escritor, jornalista, dramaturgo, curador e doutorando em literatura pela UFRJ, Ramon Nunes Mello pesquisa escrituras contemporâneas e as representações do hiv/aid$ na literatura.
Seu primeiro livro de poesia, Vinis mofados, publicado em 2009 pela Língua Geral, marca uma mudança na representação da comunidade LGBTQIA+ na literatura brasileira. Até aquele momento, essas narrativas eram costumeiramente escritas por autores que não pertenciam à comunidade, o que muitas vezes resultava em representações distantes das nossas vivências e, em alguns casos, acabava por reforçar estereótipos e preconceitos. Seus outros livros são Poemas tirados de notícias de jornal (Móbile, poesia, 2011), Há um mar no fundo de cada sonho (Verso Brasil, poesia, 2016) e A menina que queria ser árvore (Quase Oito, infantil, 2018).
Ramon Nunes Mello também atua como organizador e curador de obras literárias e arquivos de nomes importantes para a cultura brasileira. Entre seus trabalhos estão Ney Matogrosso: vira-lata de raça (Tordesilhas, 2018), Adalgisa Nery – do fim ao princípio: poesia completa (1937–1973) (José Olympio, 2023), Cazuza: meu lance é poesia (WMF Martins Fontes, 2024) e Cazuza: protegi seu nome por amor (WMF Martins Fontes, 2024), este último organizado em parceria com Lucinha Araújo.
Um dos trabalhos de maior destaque do autor é a organização da antologia Tente entender o que tento dizer: poesia + hiv/aids, publicada em 2018 pela Bazar do Tempo, que reúne 96 poetas e constrói um panorama da relação entre poesia e a epidemia de hiv/aid$. A dedicação ao tema, presente em sua produção literária e em sua pesquisa, tornou Ramon uma referência sobre o assunto na literatura brasileira.
Sobre seu próximo livro, CORPO-ARQUIVO, que vem escrevendo desde 2016, o autor o define como “arquivo vihvo”, “atravessado pelo medicamento” e composto por “poemas com hiv/aid$, não sobre hiv/aid$”, e compartilhou conosco um poema, até então inédito, que pode ser lido no final desta conversa.
Em entrevista para O Odisseu, Ramon conta sobre sua formação como leitor e escritor, sua pesquisa de doutorado, o papel da curadoria na preservação da memória, sua atuação como mediador no Clube de Leitura do CCBB, aponta a literatura como espaço de enfrentamento à sorofobia, as razões pelas quais prefere escrever hiv/aid$ em vez de HIV/AIDS e, além de CORPO-ARQUIVO, comenta seus outros projetos.

“Nunca me interessou transformar a literatura em ilustração de uma identidade.”, diz Ramon Nunes Mello
Em Vinis mofados, seu livro de estreia, publicado em 2009, já é possível identificar poemas que tratam de experiências de sexualidades dissidentes. Como foi a repercussão desses poemas entre os leitores, em um período em que a literatura sobre esses temas ainda era relativamente escassa?
Quando publiquei Vinis mofados, eu não tinha a pretensão de representar uma comunidade ou ocupar um lugar de fala específico. Escrevia a partir daquilo que me atravessava, como o desejo, a memória e a descoberta de que o corpo também escreve. Naquele momento, embora já existisse uma importante tradição de autores LGBTQIA+, essa produção ainda circulava de maneira muito restrita e raramente alcançava o centro do debate literário.
O que mais me marcou foi perceber que aqueles poemas encontravam leitores que se reconheciam neles. Não porque fossem poemas “sobre a homossexualidade”, mas porque falavam da possibilidade de existir sem pedir desculpas por existir. Recebi mensagens de jovens que nunca haviam lido um poema em que o desejo entre homens aparecesse sem culpa e sem a necessidade de justificar a própria existência.
Hoje percebo que aquele livro já continha questões que continuam presentes na minha escrita, a relação entre corpo e linguagem, entre intimidade e política, entre memória e invenção. Nunca me interessou transformar a literatura em ilustração de uma identidade. O que me interessa é compreender como determinadas experiências podem produzir novas formas de linguagem e, por isso, novas formas de imaginar a vida.
Seu início na poesia marca uma mudança da narrativa literária feita por pessoas da comunidade LGBTQIA+. Você lembra qual foi o seu primeiro contato na literatura com narrativas queer?
Sempre gostei muito de ler e lembro de ter lido Depois daquela viagem, da Valéria Polizzi, que é um livro que trata do hiv/aid$, um best-seller da editora Ática, que circulava nas escolas e tal.
E a minha formação sempre foi ligada ao teatro, faço teatro desde os meus quinze anos. Tive acesso a alguns autores, e mais especificamente ao Caio Fernando Abreu, com uma atmosfera homoerótica muito presente. Mas essa atmosfera não estava necessariamente em narrativas gays. Ele escrevia a partir do que vivia, que era atravessado pela sexualidade, mas não era a partir da sexualidade. Me identifiquei muito com a literatura dele.
Também teve um livro que me causou uma tensão muito grande. Eu me apaixonei por um rapaz, mas ele tinha namorada e eu também tinha namorada. A gente ainda estava tentando entender o que sentia, e ele me deu o livro O terceiro travesseiro, do Nelson Luiz de Carvalho, que foi até reeditado recentemente. Para mim, foi um livro muito forte na época, que falava do sentimento que não era dito em voz alta, que era vivido de forma sigilosa.
Além de escritor, você também desenvolve um importante trabalho de curadoria. Quando decidiu organizar a coletânea Tente entender o que tento dizer: poesia + hiv/aids, e como foi o processo de organização e edição do livro?
A antologia nasceu da percepção de que a história da epidemia também é uma história de apagamentos. Havia muitos poemas, muitos autores e muitas experiências espalhadas pelo tempo, mas ainda faltava um livro que revelasse a existência de uma tradição da poesia brasileira atravessada pelo hiv/aid$.
Quando organizei Tente entender o que tento dizer: poesia + hiv/aids, em 2018, eu já vivia com hiv havia alguns anos. Meu diagnóstico, recebido em 2012, transformou profundamente a maneira como passei a compreender o corpo, a linguagem e a memória da epidemia. A antologia nasceu do encontro entre a experiência pessoal, a pesquisa, a militância e a literatura.
Reuni 96 poetas de diferentes gerações porque entendia que nenhuma voz sozinha seria capaz de narrar a complexidade dessa experiência. Meu interesse nunca foi construir uma narrativa única sobre o hiv/aid$, mas evidenciar sua pluralidade. Hoje, relendo, vejo lacunas. Toda curadoria é um olhar, sempre haverá ausências.
Curadoria, para mim, é uma forma de escrita. É construir um arquivo afetivo, aproximar vozes, criar diálogos entre tempos distintos e impedir que determinadas histórias desapareçam. Em uma época marcada pela velocidade e pelo esquecimento, editar um livro também é uma forma de cuidado e resistência.
Ramon Nunes Mello: “Um poema não substitui políticas públicas nem medicamentos, mas pode transformar a maneira como imaginamos um corpo, uma doença ou uma vida. E isso também é uma forma de cuidado.”
Qual é a importância de discutir hiv/aids através da literatura? A literatura brasileira tem sido uma ferramenta importante no combate à sorofobia/aidsfobia?
O hiv/aid$ nunca foi apenas uma questão médica. Desde o início da epidemia, ele também produziu metáforas, medos, moralismos e formas de exclusão. A literatura tem a capacidade de intervir nesse campo simbólico, onde o preconceito continua sendo produzido.
Um poema não substitui políticas públicas nem medicamentos, mas pode transformar a maneira como imaginamos um corpo, uma doença ou uma vida. E isso também é uma forma de cuidado.
A literatura brasileira vem construindo um percurso muito potente. Se, durante os primeiros anos da epidemia, predominavam narrativas marcadas pela perda e pelo luto, hoje vemos surgir obras que falam de cronicidade, desejo, erotismo, envelhecimento, amizade e futuro. Essa mudança é fundamental, porque pessoas vivendo com hiv/aid$ deixam de aparecer apenas como personagens e passam a escrever suas próprias histórias.
Ainda convivemos com muita desinformação e muito estigma. Por isso acredito que a literatura continua sendo um espaço privilegiado para disputar imaginários. Combater a sorofobia também significa transformar as narrativas que produzimos sobre quem vive com hiv/aid$.
Por que prefere escrever aid$ em vez de aids?
Eu estou escrevendo dessa forma porque, na escrita da minha tese do doutorado, estou revendo a forma como eu me posiciono em relação ao hiv/aid$. Além do $, prefiro falar de hiv/aid$ como uma coisa só e um só termo.
Essa escrita não é uma invenção minha, é parte de um posicionamento político que foi criado pelo coletivo Loka de Efavirenz. É uma forma que o coletivo arranjou, e eu adotei, para se posicionar contra a farmacopolítica e de pensar como as medicações interferem no processo de tratamento, seja através da indústria farmacêutica, seja através dos efeitos colaterais.
Comecei a escrever minha tese, que chamei de “Eu não sou um vírus”, criando um duplo sentido de que, ao mesmo tempo, somos e não somos o vírus. Quando comecei a pesquisa, principalmente em relação à literatura contemporânea, vi que muitos autores e artistas que admiro olham para o hiv/aid$ com um olhar decolonial, um pensamento crítico de todo o sistema do hiv/aid$ e como nos relacionamos com esse sistema.
O coletivo Loka de Efavirenz, para mim, fez a melhor crítica social a tudo isso. Envolve questões políticas e teóricas de recusar a separação biomédica de infecção e síndrome.
As discriminações acontecem da mesma forma para quem tem hiv ou aid$. A população resume tudo à aid$. Alguns ativistas, por conta disso, preferem dizer que vivem com aid$, sem fazer distinção, para criar um ruído na comunicação, para que as pessoas prestem mais atenção nesse sistema.
Tudo faz parte do mesmo sistema: o vírus, o regime de doenças, efeitos sociais, econômicos e simbólicos. Então, quando utilizamos o $, como é proposto pelo coletivo, impomos uma dimensão biopolítica neoliberal que atravessa a epidemia.
Tem países onde as pessoas ainda não têm acesso gratuito à medicação, como temos no Brasil. Há lugares em que a continuidade do tratamento depende da vontade dos governantes. Então, é também uma forma de dizer que esse assunto ainda não está resolvido. É mostrar que existe uma desigualdade no acesso à saúde e na própria maneira de narrar o adoecimento. É fazer com que a palavra questione quais corpos têm acesso à medicação e quais ainda precisam lutar por ela.
E o hiv/aid$ não é só a medicação, envolve muita subjetividade.
Você é responsável pela organização de Adalgisa Nery – Do fim ao princípio: poesia completa (1937–1973). Como é a sua relação com a obra da Adalgisa Nery?
Minha relação com Adalgisa Nery começou muito antes do trabalho editorial. Quando fui escrever uma matéria sobre a ausência dela nos cadernos literários… Durante o mestrado em Literatura Brasileira na UFRJ, sob a orientação do poeta e professor Eucanaã Ferraz, dediquei minha pesquisa à sua obra e ao descaso com a memória dela. Foi uma convivência longa e transformadora.
Adalgisa me ensinou que a poesia pode ser, ao mesmo tempo, pensamento, intensidade e insubmissão. Sua escrita desafia classificações fáceis e faz do corpo, do desejo e da linguagem um mesmo campo de invenção. Sempre me impressionou a coragem com que ela recusou os lugares que lhe eram reservados.
Organizar sua poesia completa foi, de certa forma, uma continuidade daquela pesquisa. Senti que participava da restituição de uma autora fundamental à história da literatura brasileira. Editar também é uma forma de leitura e, sobretudo, uma forma de cuidado.
Tive esse sentimento também ao organizar a obra do poeta Rodrigo de Souza Leão.
Você também organizou Ney Matogrosso – Vira-lata de raça: memórias, ao lado de Ney Matogrosso, Cazuza: meu lance é poesia e, em parceria com Lucinha Araújo, a fotobiografia Cazuza: protegi seu nome por amor. Em que momento surgiu o interesse por trabalhar com não ficção? E qual é a importância desses dois artistas para você?
Nunca enxerguei uma fronteira muito rígida entre poesia, memória e documento. A não ficção também é uma forma de construir narrativa. Editar memórias, cartas, fotografias e arquivos exige uma escuta muito semelhante àquela que pratico quando escrevo poesia.
Trabalhar com Ney Matogrosso e Cazuza foi uma experiência profundamente transformadora. Ambos fizeram do próprio corpo um lugar de criação artística e de liberdade. Nunca separaram estética e existência.
No caso de Cazuza, há ainda uma dimensão muito pessoal. Sua poesia e a maneira como enfrentou a epidemia de hiv/aid$ continuam produzindo perguntas fundamentais sobre linguagem, vulnerabilidade e permanência. Organizar seus livros significou conviver de perto com um dos arquivos mais importantes da cultura brasileira.
Acredito que pesquisar e organizar é criar condições para que uma obra continue viva, dialogando com novas gerações de leitores.
O CCBB promove um clube de leitura com encontros mensais, onde você atua como mediador. Qual é a importância de espaços como esse e como tem sido essa experiência?
Vivemos um tempo em que a leitura costuma ser entendida como uma experiência solitária. Os clubes de leitura mostram exatamente o contrário: um livro continua sendo escrito toda vez que encontra novos leitores.
O que mais me interessa no Clube de Leitura do CCBB é construir um espaço de escuta. Não acredito na mediação como transmissão de conhecimento, mas como abertura para o diálogo. Cada encontro confirma que um mesmo livro pode produzir inúmeras leituras, todas atravessadas pelas experiências de quem lê.
Essa convivência também alimenta meu próprio trabalho como escritor. A literatura deixa de ser apenas objeto de reflexão e volta a ser aquilo que sempre foi: uma forma de encontro.
Sou muito grato à poeta Suzana Vargas, curadora do Clube de Leitura do CCBB RJ, pelo convite de participar dessas conversas ao lado dela, como mediador. É um trabalho que me engrandece, aprendo muito a cada encontro.
Há algum projeto literário em andamento?
Neste momento, meu principal projeto é a pesquisa de doutorado em Literatura Brasileira na UFRJ, sob a orientação do professor Eduardo Coelho. Tenho investigado as relações entre poesia e hiv/aids, procurando compreender como a experiência da epidemia de hiv/aid$ transforma não só os temas da literatura, mas também as formas de escrita, de leitura e de imaginação do corpo.
Cada vez mais me interessa pensar o vírus para além da dimensão biomédica. Em vez de perguntar apenas o que a literatura diz sobre o hiv/aid$, procuro investigar o que o hiv/aid$ faz com a literatura. De que maneira essa convivência modifica a linguagem? Que novas formas de sensibilidade, de memória e de criação surgem quando o vírus deixa de ser apenas uma metáfora da morte e passa a integrar uma experiência crônica da vida?
Paralelamente à pesquisa, continuo escrevendo poesia e desenvolvendo projetos de curadoria editorial. Hoje percebo que essas atividades fazem parte de um mesmo percurso. Escrever, pesquisar e editar são, para mim, maneiras de construir arquivos afetivos, disputar imaginários e afirmar que a literatura continua sendo um espaço privilegiado para reinventarmos nossas formas de existir.
E estou trabalhando em um novo livro de poemas em que o hiv/aid$ não aparece reduzido ao campo da doença, mas como um acontecimento que atravessa corpo, linguagem, memória, ciência, política e afeto. Ler sempre me inspira a escrever mais.
CORPO-ARQUIVO, que venho escrevendo desde 2016, são poemas com hiv/aid$, não sobre hiv/aid$. Um livro a partir do corpo, da experiência e da linguagem. Um corpo atravessado pelo vírus, pelos medicamentos, pelas memórias, pelos afetos, pelos medos, pelos desejos e pelas possibilidades de continuar.
Durantes esses anos, o hiv/aid$ deixou de ser uma marca biológica para revelar também uma rede de relações com a sociedade, a ciência, a política, a morte, a vida e com a própria palavra.
CORPO-ARQUIVO é um arquivo vihvo, onde estão inscritas novas formas de existir. Não escrevo sobre o vírus como algo distante, é uma escritura feita em convivência com ele.
Também estou trabalhando em um livro de fantasia intitulado O astronauta lírico.
“EU QUERO UM POEMA QUE VIVA COM hiv/aid$“, poema inédito de Ramon Nunes Mello
eu quero
um poema
que viva com hiv/aid$
não um poema
sobre
um poema
que acorde cedo
para tomar
o antirretroviral
que conheça
o barulho seco
do comprimido
caindo
na palma da mão
que saiba esperar
o resultado
de um exame
sem transformar
o medo
em espetáculo
eu quero
um poema
que tenha aprendido
a dizer
indetectável
como quem pronuncia
a palavra
amanhã
eu quero
um poema
que revele
o diagnóstico
antes
que lhe perguntem
não por obrigação
mas porque
o silêncio
nunca deveria
ser imposto
eu quero
um poema
que tenha amado
quando disseram
que amar
era perigoso
que tenha beijado
quando ensinaram
a confundir
cuidado
com abstinência
eu quero
um poema
que conheça
os nomes
dos mortos
e também
os nomes
dos vivos
porque estamos
cansados
de construir
apenas memoriais
também queremos
construir
futuros
eu quero
um poema
que saiba
chamar
os vivos
e os mortos
pelo nome
não para
contá-los
mas porque
há nomes
que continuam
respirando
quando alguém
os pronuncia
eu quero
um poema
que diga
herbert daniel
e a palavra
companheiro
volte
a significar
futuro
que diga
betinho
e a solidariedade
deixe de ser
caridade
para voltar
a ser
política
que diga
caio fernando abreu
e o medo
aprenda a escrever
cartas de amor
que diga
hervé guibert
e o corpo
volte a olhar
para si
sem pedir
perdão
que diga
pedro lemebel
e o escândalo
volte
a ser
uma forma
de beleza
que diga
essex hemphill
e nenhum corpo
desapareça
enquanto houver
uma voz
capaz
de chamá-lo
pelo nome
que diga
thom gunn
e a elegia
aprenda
a caminhar
de mãos dadas
com a ternura
que diga
cazuza
e a urgência
descubra
que também
é possível
continuar
que diga
cleimarcio
porque existem nomes
que pertencem
menos
à história
do que
ao coração
(foi com ele que aprendi a dizer
eu te amo em libras
e chorei pela primeira vez um suicídio)
eu quero
um poema
que os convoque
não como santos
não como mártires
não como vítimas
mas como autores
do mundo
em que ainda
aprendemos
a respirar
eu quero
um poema
que entre
num consultório
sem baixar
os olhos
que atravesse
a sala de espera
como quem atravessa
uma praça
eu quero
um poema
que não peça
desculpas
por existir
nem por desejar
nem por envelhecer
eu quero
um poema
que tenha
cicatrizes
e contas
para pagar
e plantas
para regar
e livros
emprestados
porque viver
com hiv/aid$
também é isso:
continuar
habitando
o banal
eu quero
um poema
que discuta
políticas públicas
e depois
volte para casa
a tempo
de preparar
o jantar
eu quero
um poema
que tenha
raiva
mas que não faça
da raiva
sua única
linguagem
eu quero
um poema
capaz
de rir
porque rir
também é
uma forma
de sobrevivência
eu quero
um poema
que nunca precise
explicar
I = I
e justamente
por isso
continue
repetindo-o
até que
já não seja
necessário
eu quero
um poema
que viva
tempo suficiente
para tornar-se
velho
porque envelhecer
talvez seja
a mais bela
forma
de militância
eu quero
um poema
que viva
com hiv/aid$
que escreva
depois
do diagnóstico
depois
do luto
depois
do medo
depois
do estigma
que saiba
que a ciência
nos deu
mais tempo
e que a poesia
ainda aprende
o que fazer
com esse tempo
eu quero
um poema
que um dia
já não precise
ser lido
como exceção
mas apenas
como aquilo
que sempre foi:
vida

