Entrevistas

Crise climática e imaginação: Mariana Brecht fala sobre seu novo livro infantojuvenil que convida jovens e crianças a repensarem o futuro

Em “Cyber PANC e Só Zé” (Editora Escarlate, 2026), Mariana Brecht convoca o público das novas gerações a imaginar um futuro .

Por Ana Ferrari.

Foto: Caio Kenji (Divulgação).


A emergência climática é algo cada vez mais presente em nosso cotidiano com notícias sobre desastres ambientais e climas extremos frequentemente tomando espaço na mídia. Os efeitos gerados por essa realidade aparecem na população mais jovem em atitudes que vão desde decisões impulsivas por querer viver tudo o que se há para viver antes do cataclisma até uma ansiedade sem fim, que traz desesperança e apatia. Nesse cenário, surgem as obras de Mariana Brecht, que apostam na ficção climática como maneira de elaborar essa realidade de maneira criativa e propondo soluções coletivas diante do agravamento das mudanças climáticas. 

O tema já estava presente no seu livro “Foi acabar bem na nossa vez” lançado pela da Rocco no ano passado (2025), se tornando o eixo central de uma história de amor atravessada por conflito de terras, ansiedade ambiental e disputa por modelos de mundo. Para dialogar com o público mais jovem, Mariana lança em 2026  “Cyber PANC e Só Zé: O resgate de um poder pifado e outras caraminholas” (selo Escarlate, Companhia das Letras, 216 págs), obra em que convida o público infantojuvenil a sair da contemplação passiva da crise climática e experimentar, eles mesmos, outras formas de habitar o mundo; contando com ferramentas como receitas, jogos, cartilhas e um glossário imersivo; além das ilustrações de Lumina Pirilampus, que o tornam ainda mais lúdico. O livro, apoiado pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB/2024), do Governo Federal, traz uma São Paulo de 2070 e acompanha a extrovertida Cyber PANC e o tímido Só Zé em uma aventura que os leva a percorrer diferentes territórios e descobrir que a amizade seja também uma forma de criar outras formas de viver.

Mariana Brecht é escritora, roteirista e narrative designer de jogos digitais nascida em São Roque – SP. Além de “Cyber PANC e Só Zé”, é autora dos livros  “Brazza”, “Labirinto” e “A Menina com os Pés no Chão”; e foi finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura. É co-roteirista do jogo “A Linha”, vencedor de um Primetime Emmy. Mestranda na ECA-USP, pesquisa as relações entre crise climática e estruturas narrativas. Integra também o grupo poético-musical Intraterrestres. Seu trabalho articula literatura, jogos e música como formas de imaginar futuros possíveis.

Mariana Brecht. Foto: Caio Kenji (Divulgação).

Mariana Brecht: “Para mim, a crise climática é o tema mais importante da contemporaneidade e o maior desafio enfrentado pelas pessoas que imaginam presentes e futuros, como nós, que escrevemos”

Ana: Nos seus livros mais recentes, “Foi acabar” e “Cyber PANC e Só Zé” você aborda as mudanças climáticas de maneiras diferentes. Por que você escolheu trabalhar esse tema em sua literatura?

Mariana: A crise climática é o principal tema sobre o qual tenho pesquisado e escrito e também o considero o grande desafio das pessoas criadoras desta geração. Para mim, a crise climática é o tema mais importante da contemporaneidade e o maior desafio enfrentado pelas pessoas que imaginam presentes e futuros, como nós, que escrevemos. Trata-se da crise das condições materiais de nossa existência e talvez seja a mãe de todas as crises ao atravessar questões como justiça social, desigualdade de gênero ou racial, movimentos migratórios, entre outros. Trata-se também de uma ruptura tão profunda, que pode servir como substrato para a imaginação de novos mundos. 

Ana: Em “Cyber Panc e Só Zé” você foi mais para um viés do “esperançar”, da força da amizade e de como ela pode viabilizar futuros sustentáveis. Por que essa abordagem?

Mariana: Tenho a sensação que, desde que abordamos o tema da crise climática, o futuro fica interdito. As distopias tendem a nos permitir imaginar apenas a escassez e a catástrofe. Escrever “Cyber PANC” para mim foi essencial para encontrar as frestas nestas perspectivas. Ok, certamente a crise climática tornará o futuro na Terra mais árduo, mas quais são as soluções possíveis? Como podemos começar a imaginá-las desde já? O livro me permite vislumbrar (e espero que também permita às pessoas leitoras) que as soluções já estão entre nós: apoio comunitário, gestão de resíduos, manejo da terra, tecnologias low-tech, todos esses são recursos que permitem a sobrevivência em uma cidade afetada pela emergência climática. Toda essa perspectiva “esperançada” me parece ainda mais importante quando falamos de escrever para a juventude. Se nossa geração já será afetada pela crise climática e vê suas perspectivas de futuro se esvaindo, esta será uma questão ainda mais latente na vida de quem tem hoje cerca de 10 anos.

Ana: Como tratar um tema tão duro como a mudança climática com crianças e jovens? O que você fez para adaptar esse tema para essa faixa etária?

Mariana: Por mais que seja um tema duro, é uma realidade percebida pelas crianças e jovens, que precisam de meios, recursos e maneiras de exprimi-la. O livro não só aborda o assunto, mas também traz as angústias e reações das personagens principais, Só Zé e Cyber PANC a ele, podendo oferecer uma moldura para que os jovens comuniquem seus próprios anseios. A crise climática, porém, não é o único tema que perpassa o livro, pelo contrário. A história traz uma aventura divertida, cheia de encontros insólitos, na qual vemos a crescente amizade entre Só Zé e Cyber PANC. A trama, afinal, precisava ser interessante para que jovens e adolescentes se identificassem com ela. E nem só de mensagens sérias se faz um livro. 

Ana: Um aspecto que se destaca é o tema dos híbridos e a relação entre multiespécies. Como esse tema surgiu para você?

Mariana: O tema de híbridos entre plantas e animais, além das relações multiespécies, apareceu de estudos de filósofos e teóricos que questionam as hierarquias entre humanos e não-humanos e sugerem que os animais não-humanos, plantas e fungos podem oferecer chaves para lidarmos com a emergência climática. 

Ana: E o que gerou a ideia para o livro? Como essa estética futurista se apresentou para você?

Mariana: O livro surgiu a partir de uma fantasia de carnaval! Em um concurso de marchinhas de São Roque, Matheus Pezzotta e eu apresentamos uma canção sobre o fim do mundo e o carnaval. Nas finais, eu resolvi vestir como acessórios plantas que encontrei no quintal de minha mãe, o que acabou resultando em um visual um tanto futurista/distópico. A esta personagem, chamei Cyber PANC, de brincadeira. Passamos uma linda noite, ganhamos primeiro lugar no festival mas, depois disso, Cyber não saiu da minha cabeça. Eu já sabia que precisaria dedicar um livro a ela. 

Mariana Brecht: “A escrita nem sempre é um processo leve, mas com “Cyber e Só Zé”, eu sempre me diverti.”

Ana: Como foi o processo de escrita de “Cyber PANC e Só Zé”? Quanto tempo levou para o escrever a obra?

Mariana: A escrita do livro se deu entre intervalos da escrita do meu romance, “Foi acabar bem na nossa vez”, foi um processo relativamente rápido. Acredito que a escrita em si tenha levado cerca de quatro meses. A ela foram somadas as fases de edição e preparação. O processo de escrita foi muito fluido, talvez o mais fluido até agora. Como sempre, eu comecei por estruturar a história em uma “escaleta”, para depois a desenvolver. Enquanto eu “abria” cada um dos momentos da história, ela ia se reinventando no papel, expandindo-se e ganhando vida própria. Personagens que eu não necessariamente havia imaginado iam surgindo, assim como cenas, falas, sacadas. A voz de Só Zé também ia se concretizando. Talvez essa fluidez venha do fato de que foi também um dos processos de escrita mais divertidos que já atravessei, o que tornou o trabalho leve e inspirado.

Ana: Sério? Então o processo de escrita do livro foi transformadora de uma maneira positiva?

Mariana: A escrita nem sempre é um processo leve, mas com “Cyber e Só Zé”, eu sempre me diverti. É como se eles também me puxassem pela mão e me convidassem a olhar o mundo com a animação de quem ainda não tem dores nas costas e boletos a pagar. A grande transformação, para mim, foi a de me permitir me entregar a essa alegria e perceber que ela cabe, que ela precisa caber, até mesmo quando vislumbramos um futuro árduo.  A personagem de Só Zé, em especial, me representa muito, pois é uma pessoa ansiosa e reclusa em meio a um mundo que demanda coragem e entrega. Eu queria imaginar um futuro que tivesse lugar para pessoas como Só Zé, como eu. E o livro me permitiu abrir esta janela.

Ana: Você conta que escreveu o livro nos intervalos em que construía o “Foi Acabar”. Como a escrita do romance adulto influenciou a construção de “Cyber PANC e Só Zé”? 

Mariana: A pesquisa de “Foi acabar bem na nossa vez” foi fundamental para escrever “Cyber PANC e Só Zé”. A maioria das referências teóricas do romance, para o qual pesquisei acerca de emergência climática e imaginação ecológica, me serviram para a escrita do “Cyber”, bem como a  parceria com Lumina Pirilampus, que ilustrou o meu livro “A menina com os pés no chão”, logo e eu não poderia pensar em uma escolha mais acertada para a ilustração de Cyber.

Ana: O que este livro representa para você? O que ele te trouxe de êxitos?

Mariana: Este livro representa meu projeto de mundo, em sua forma e conteúdo. Trata-se de um livro que narra a emergência climática a partir da perspectiva do cuidado entre pessoas, seres não-humanos e com a terra. Faz isso de uma maneira divertida, permitindo-se não se levar muito a sério e sem a pretensão de trazer “A” solução. Também sou muito grata à Cyber por ser um livro com um processo tão descomplicado. Graças a esta trama, fui contemplada com o edital ProAC/PNAB em 2024 na categoria de literatura infantojuvenil. O livro também foi acolhido por uma casa que não poderia estar fazendo um trabalho mais incrível. Somado a isso, as ilustrações de Lumina Pirilampus são de uma perfeição sem igual. Eu não poderia estar em melhor companhia.

Cyber PANC e Só Zé: O resgate de um superpoder pifado e outras caraminholas, de Mariana Brecht/ Selo Escarlate (Companhia das Letras), 2026/ 216 pp.

Ana Ferrari é uma jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais.