Crítica

Fantasma e busca pelo pai em ‘É quase como voltar pra casa’, de Janaina Abílio

Entre o romance em versos e a oralidade que marca o tom do texto, É quase como voltar pra casa, de Janaina Abílio, aproxima o leitor de outras demandas e representações sobre mulheres negras.

Foto: Ana Alexandrino (Reprodução).


I

No Brasil, segundo dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) divulgados em 2025, mais de 1,4 milhão de pessoas, entre os anos de 2016 e 2025, não tiveram o nome do pai registrado em suas certidões de nascimento. Comparando o primeiro e o último ano da pesquisa, houve um aumento de 25% nesse número, ou seja, existe um abandono recorrente por parte da figura paterna no país.

Diante desses dados, fico me perguntando: se houvesse um recorte interseccional, quantas famílias negras possuem o nome do pai no registro civil ou na vida cotidiana de forma presente? Quantos pais abandonam suas famílias e deixam apenas para as mães o cuidado dos filhos? Quantas mulheres negras vivem essa situação nesse exato momento e quantas passam a adentrá-la cotidianamente? 

São perguntas que a pesquisa não responde, mas que fazem parte do nó górdio do relançamento de É quase como voltar pra casa (Companhia das Letras, 2026), de Janaina Abílio. Escritora carioca, formada em Letras pela UNIRIO e autora de E fica um gosto de cica na boca (Garupa, 2019), Abílio vê seu livro retornar às livrarias quatro anos após a primeira edição feita por uma editora independente, publicada em 2022, agora em nova casa editorial e com um novo projeto gráfico. 

É quase como voltar pra casa é um romance escrito em versos no qual o leitor é apresentado a Ava, uma mulher que mantém uma relação casual com Wilson. Entre uma transa e outra, Wilson vai ao banheiro e derruba alguns potes de creme de cabelo. Quando Ava entra para organizá-los, enxerga pela primeira vez o fantasma de Elaine, sua ex-namorada falecida.

O retorno de Elaine não é por acaso. Seu fantasma surge para cumprir uma missão: ajudar Ava a lidar com uma questão que há muito pedia resolução, um encontro com o pai ou alguma resposta para o sumiço desse homem, que desapareceu da noite para o dia na tenra infância da protagonista.

A partir desse encontro, o espectro de Elaine passa a acompanhar Ava. A protagonista retorna ao antigo bairro, onde encontra outra mulher abandonada por seu pai e conhece os meios-irmãos. Nesse ínterim, somos apresentados à vida dessa mulher negra que tenta equilibrar múltiplas demandas sem deixar os pratos caírem, sem pensar nas mortes que a cercam e que a compõem como sujeito, no sumiço do pai e na morte de Elaine.

Todos esses buracos parecem encontrar um escape provisório no corpo nu de Wilson. Contudo, nem o sexo nem o pênis do amado conseguem preencher o que falta. Para além disso, acompanhamos como a decisão de elaborar o pai ecoa na relação da protagonista com a mãe, com a analista e em sua tese de filosofia.

“É possível identificar, em um amplo manuseio do tempo narrativo, uma chave para entender como Elaine aparece de forma fantasmática no banheiro de Ava.”

II

Logo na epígrafe, Janaina Abílio aponta caminhos para a leitura do romance. Ao evocar Leda Maria Martins e a afirmação de que “poesia é tempo”, a autora sinaliza a experimentação no gênero romance em sua narrativa. O tempo não é linear nem cronológico. Experimentamos uma temporalidade outra, na qual passado e presente estão amalgamados, às vezes ao mesmo tempo, entre versos e não apenas como simples flashbacks. 

O tempo gira de outro modo e brinca com as instâncias entre vida e morte, concepção que se aproxima da noção de tempo espiralar formulada por Leda Maria Martins. Uma das suas especificidades é borrar as fronteiras entre a vida e morte e, inserida nessa outra modalidade de compreensão, é possível empreender um diálogo, um retorno de quem foi e uma possível ajuda. A morte não é o fim, mas um novo modo de existência que afeta quem está nesse plano e passeia entre tempos. Portanto, é possível identificar, nesse amplo manuseio do tempo narrativo, uma chave para entender como Elaine aparece de forma fantasmática no banheiro de Ava. 

[…] depois que recolhi os potes de creme do chão
não faço ideia de quanto tempo isso levou
foi como se o tempo andasse em outro tempo quando Elaine
apareceu
eu fiquei olhando pra ela
esse intervalo que não sei quanto
e ela me olhava de volta
como se esperasse alguma reação e também uma autorização
esperava
difusa e brilhante
até que perguntei
o que você quer?
(p. 17)

Se o tempo exige do leitor e corrobora com o modo minucioso de escrita de Abílio, o percurso de Ava demarca a humanização dessa mulher negra, que não está representada de forma estereotipada, mas é uma intelectual que sente, sofre e rememora a falta paterna, um corte brusco e latejante que caracteriza a personagem, uma ferida que volta a sangrar e se abre aos poucos com o passar dos capítulos. 

A busca do pai está alinhavada com a busca da Ava para entender a si própria e sua relação com a perda, ou melhor, como ela pode elaborar lutos tão repentinos e tão impactantes – por causa da libido atrelada a esses sujeitos, ecos de Freud e seu luto e melancolia –, se existe uma fuga constante da personagem para não encarar o que sente? Explicam-se, assim, algumas atitudes da protagonista presentes em todo o romance: o sexo como forma de escape, a tese cuja utilidade a personagem já não enxerga, pois perdeu o tesão naquilo que produz, e a relação conturbada com a mãe. 

na primeira vez que ele gozou na minha boca
um jato que bateu nas amígdalas que já não tenho
aquela cena horrorosa, o engasgo, a tosse
eu devolvi-lhe o esporro
que aquilo era violento, que ele não tinha o direito
o direito de gozar assim, não, não tinha
[…] mas a porra de Wilson forçando a minha garganta
desceu tão reconfortante
uma paz invadiu o meu estômago
[…] de repente me encheu de paz
(p. 8-9)

“A protagonista permanece nessa situação do “quase” contida no título do livro. Não há completude e nada será totalmente resolvido, mas ela está no caminho para isso”

Se Ava procura compreender o pai e seu desaparecimento, a outra ponta da relação parental é a mãe. No decorrer do romance, Ava caracteriza a mãe como evangélica e alheia a tudo, inclusive à própria criação da filha. Existe um distanciamento que cresce com a descoberta da filha lésbica e fica ainda mais porosa com o sumiço do marido. Segredos são guardados e só quando Elaine começa a guiar os passos de Ava em direção a uma cura é que a mãe se despe de tantas camadas de proteção.

Percebam que o fantasma aqui é muito mais que um guia espiritual. Está inserido numa outra dinâmica, que busca a cura e o entendimento de Ava sobre si. Isso fica evidente quando Ava diz à mãe que conheceu a outra esposa de seu pai desaparecido e seus outros irmãos, instaurando um clima estranho dentro de casa. 

“dá um abraço nela”
tá indo, mãe
“você pode dar um abraço nela, não dói”
a intromissão de Elaine e sua tentativa de, sei lá, promover uma
conciliação
só parecia minimamente aceitável porque cortaria o assunto do doutorado (p. 75)

Ao final, o leitor acompanha como Elaine, na forma de fantasma, traz à tona a sua própria morte e como Ava lidou com isso, ajudando a protagonista a empreender um entendimento sobre os lutos e suas mais variadas formas de experienciar a perda. Mas a parte final não tem o teor transcendental que se espera de um livro que apresenta um fantasma ou um reencontro entre pai e filha. 

O romance de Abílio culmina num cansaço mental de Ava. A mudança de psicanalista ajuda – saindo de um homem branco tirado a desconstruído para uma mulher negra. Ao compreender as especificidades com que a perda afeta os corpos de mulheres negras, a nova analista consegue focar nas demandas de Ava. 

Portanto, a protagonista permanece nessa situação do “quase” contida no título do livro. Não há completude e nada será totalmente resolvido, mas ela está no caminho para isso:  o pai não vai voltar nem será encontrado, e Elaine é um fantasma que desaparece na parte final da narrativa. Assim, é preciso compreender como a perda afeta a Ava criança para haver um entendimento da Ava do presente diante do ato de perder alguém. Um grande percurso.

por que a morte é assim
ela é debochada
e gosta de plot twists
(p. 62-63)

Janaina Abílio escreve um romance em que assuntos tão sérios possuem pitadas de humor e personagens cheias de nuances, descortinadas com o passar das páginas. Entre o romance em versos, a oralidade que marca o tom do texto, o fantasma e a casa idílica na qual Ava viveu com o pai, É quase como voltar para casa aproxima o leitor de outras demandas e representações sobre mulheres negras, colorindo temas como o afetivo, o sexual, o intelectual e o subjetivo. 

Assim, o leitor encontra uma mulher negra que se faz de forte, como a mãe, mas que compreende, aos poucos, que se fazer de forte o tempo todo não é possível. Janaina Abílio confirma a importância do relançamento desse romance, que mobiliza questões tão necessárias para o contemporâneo.

É quase como voltar pra casa, de Janaina Abílio/ Companhia das Letras, 2026 (relançamento)/ 160 pp.