Crítica

De fervo em fervo fazendo terrorismo: Sobre ‘No baile do juízo final’, de Susy Freitas

Em No Baile do Juízo Final, Susy Freitas escreve um livro que exige do leitor uma imersão nesse Amazonas outro, que coexiste com a versão turística vendida pelo Estado.

Foto: Renato Parada (Divulgação).


I

A imagem do baile está no imaginário cultural brasileiro. Vivemos numa sociedade em que o carnaval acontece em diferentes regiões do país, e muitos bailes carnavalescos ocorrem em terras nacionais. Existe algo de transgressor nesses dias. Tudo aquilo que é interditado pela asfixia do trabalho e pelo viés moral acaba sofrendo abalos em suas estruturas. Entram em cena o exagero, o excesso e o exacerbado. A festa dança com a disruptividade. 

Na literatura brasileira, algumas representações de bailes se destacam. No conto “Antes do Baile Verde”, da escritora Lygia Fagundes Telles – texto que dá nome ao livro Antes do baile verde (Companhia das Letras, 2009) – acompanhamos Tatisa se arrumando, com a ajuda da empregada doméstica Lu, para um baile de carnaval.

Nesse baile há uma temática e um dress code específico: a cor verde. Assim, acompanhamos a preparação da protagonista, ansiosa para sair ou fugir de casa com o namorado. O motivo da agonia é o pai, acamado no quarto ao lado e à beira da morte. Ainda assim, Tatisa prefere festejar em vez de cuidar da figura paterna.

O conto possui um final em aberto, o leitor não sabe se o pai realmente morre ou não, mas a Tatisa vai curtir o carnaval, como boa brasileira desse mundo de meu Deus. 

Começo trazendo esse conto não exatamente por causa do carnaval ou da cor verde, mas pelo baile como forma de suspensão e afronta a uma normalidade imposta. Ao festejar e querer se divertir, Tatisa deixa de ocupar o papel de filha recatada, do lar e que cuida do pai para assumir a postura de uma mulher em transgressão – que bebe, namora e quer viver a festa.

No conto da saudosa Lygia Fagundes Telles, o baile é um acontecimento que provoca distúrbios naquilo que está posto, podendo inclusive ser interpretado como metáfora da emancipação feminina. Esse mesmo movimento de abalar estruturas aparece no livro de Susy Freitas, No baile do juízo final (Todavia, 2026). 

Susy Freitas é escritora amazonense e autora dos livros de poesia Véu sem voz (Bartlebee, 2014), Alerta, selvagem (Patuá, 2019), vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus, e Carrego meus furos comigo (Urutau, 2020). Sendo seu primeiro livro de contos, Madnaus (Reformatório, 2024), ela publica agora um segundo, neste mesmo segmento. Aqui temos histórias conectadas, cujos personagens transitam e tem sua voz narrativa evocada constantemente ao passar das páginas. 

Na primeira parte, intitulada “Baile do juízo final”, somos apresentados a um grupo de amigos, o Coletivo Amargo: Bento Ruas, Mutirão, Lua Madeira e Sorria, que, após beberem garrafas de ayahuasca e ouvirem as vozes e entidades que falam por meio de Lua Madeira, decidem praticar terrorismo arquitetônico. 

O leitor acompanha, então, a construção da ideia e a preparação daquele que seria o ato mais transgressor da cidade de Manaus. Contudo, ao realizarem o atentado, os personagens são flagrados pela polícia. Com a ajuda de Lua Madeira, porém, as entidades e espíritos que a acompanham os conduzem para outra dimensão, onde vivem um baile do juízo final. 

Na segunda parte, intitulada “Outras desintegrações”, composta por nove narrativas – algumas delas retomando personagens já vistos anteriormente –, o leitor se depara com indivíduos que vivem e sobrevivem às margens da capital amazonense: o motorista de aplicativo, a drag queen prestes a se apresentar, a criança fantasiada para o “Dia do Índio” escolar, os dejetos e secreções do corpo e até uma estudante tentando terminar a dissertação enquanto pensa em suicídio.

II

Se no conto de Lygia Fagundes Telles, o baile de carnaval deixa em suspenso a culpa diante de um pai possivelmente morto, Susy Freitas propõe um baile de suspensão e afronta às normas estabelecidas, normalizadas e moralizantes. Portanto, seu foco está nas margens. A começar pelo espaço delimitado na obra.

O estado do Amazonas não aparece representado por meio dos pontos turísticos, ao contrário, somos levados para periferias, zonas esquecidas e localidades próximas a pontos de desova. Quando o leitor encontra espaços conhecidos, eles aparecem como locais de intervenção do terrorismo arquitetônico feito pelos personagens na primeira parte do livro, como ocorre na rua Constelações de Gêmeos, uma rua de motéis que dá nome a um dos contos: 

[…] Graças às fábricas e empresas de transportes de cargas em expansão na capital, aumentou a demanda por motéis para o desenrolar das paixões de meio expediente, affairs secretos entre motoristas de categoria D, putas e outros pífios dramas. Esse foi o segredo do sucesso de dois empreendimentos gêmeos: os motéis Letom e Chateau. Para sempre lado a lado, separados apenas por um muro, suas luzes são as mais brilhantes da rua Constelação de Gêmeos, mais conhecida como a rua dos Motéis. (p. 73)

Ao estarmos diante do povo, sujeitos que não param e vivem em constante fervo, percebemos também as experimentações linguísticas que Susy Freitas imprime ao livro. A autora utiliza variações linguísticas amazônicas atreladas a uma linguagem jovem e da internet – o cunty misturado a memes, por exemplo.

Neste baile, os convidados usam uma linguagem coloquial. Nada de linguagem rebuscada. O foco está voltado para personagens do cotidiano e suas marcas de fala, o que imprime um ritmo frenético à narrativa. Existe, portanto, uma dinamicidade que atravessa tanto a estrutura narrativa quanto os diálogos e descrições rápidas, como ocorre no Ballroom na Caverna Primordial. 
– Quer dizer que a realidade pode ficar fudida pra caralho – responde Et El Vynah, já cortando o assunto. – Comecemos. A categoria é: a fé é cunty e move montanhas de mármore!O público aplaude, grita, abana leques negros que fazem prá, prá, prá. O som ecoa por toda cavidade branca e azul da caverna, até virar um coro uníssono e permanente. A batida das águas nas quinas do palco de gelo e paredes da caverna acompanham a cadência, criam uma batida base uniforme que, junto ao coro, vira a trilha sonora.
(p. 53)

Ao estarmos num Baile do Juízo Final, o fim do mundo está próximo e, consequentemente, a extinção da matéria acontecerá. 

O baile não funciona apenas como suspensão de normas ou da moral social, ele também é uma forma de compreender o caminho das personagens dentro dessas narrativas. 

Para além de dar título à primeira parte do livro, o baile remete diretamente às ballrooms da comunidade LGBTQIAPN+, festas surgidas nas periferias dos EUA e organizadas em categorias competitivas nas quais casas lideradas por matriarcas e suas filhas disputam entre si diante de um júri.

Esse elemento é importante porque evidencia que o baile no livro é composto de perfis-alvo. O baile surge como resistência, espaço de subversão e tentativa de transformação. “Quais são tuas ideias sobre terrorismo arquitetônico?” (p. 45). 

Quando acontece a sequência do baile, há uma diluição entre realidade e imaginário, ou melhor, a realidade se mistura às múltiplas facetas do transcendente e do místico. Esse flerte surge tanto do contato das personagens com a ayahuasca, quanto da parte indígena que compõe o passado do local – uma capital construída sobre cemitérios indígenas e sobre os antepassados das personagens. 

Assim, as histórias não apenas denunciam e iluminam indivíduos que estão às margens da sociedade amazonense, mas também diluem as fronteiras do dito real, desaguando na desintegração dessas personagens. O leitor acompanha uma escrita atravessada por esse processo, isto é, personagens postos em situações nas quais o resultado é diluir-se ou adentrar um novo modo de existência.

Isso ocorre, por exemplo, no conto que encerra o livro, em que as secreções do corpo se tornam narradoras – o sêmen, a merda, a urina, entre outras.

O sêmen

Meu melhor amigo é o abacaxi, e vou bem em qualquer lugar: na buceta, no cu, na cara, na boca, no suvaco, na mão, no umbigo, nos peitos, na virilha, na bunda, no resto de cuspe, no vaso sanitário, no vaso de planta, na carroceria da picape, na toalha, no chão, no ônibus, no banheiro de uma forma aleatória, sobre os seus explosivos, no papel higiênico, no Whopper Furioso, no Antigo Testamento, no banco do cinema, no rio, no avião, na rede, na sede do Hospital Santa Júlia e provavelmente em Marte, só, por favor, por favor, não pergunte se o Bentinho tem gala seca na cabeça, porque esse tipo de brincadeira eu não gosto. (p. 115)

Susy Freitas escreve um livro que exige do leitor uma imersão nesse Amazonas outro, que coexiste com a versão turística vendida pelo Estado, tudo isso atravessado por uma escrita ágil e vertiginosa. 

O fim do mundo não é tranquilo. Por isso, a autora cria um ritmo de destruição, terrorismo, vertigem e desintegração que percorre esse baile da transgressão. Um baile que não é para qualquer um. É para a comunidade LGBT, para os pobres, para aqueles que estão na luta por moradia e para quem deseja acordar a sociedade. Em No baile do juízo final, a diversão e a escrita são frenéticas e nas alturas.

No baile do juízo final, de Susy Freitas/ Editora Todavia, 2026/ 120pp.