QUILOMBUROBORO

Notícias de um mundo em colapso e de outro mundo que nascerá das ruínas

Uma conversa-relâmpago com Marcelo Moutinho, lançamento de Elgas no Brasil (com tradução de Diogo Cardoso), A Divina Mímesis de Pasolini, 2 traduções de H.D e outras notícias.


Conversa-relâmpago com Marcelo Moutinho

Marcelo Moutinho, autor de Gentinha (Record, 2026)/ Foto: Divulgação.

Marcelo Ariel: Sem querer fazer uma redução categórica, poderíamos dizer que os contos de GENTINHA seriam expoentes de um quase híbrido naturalismo lírico político, no grande sentido do termo, vertente que teve no Brasil mestres como João Antônio (que comparece na epígrafe do livro) e Graciliano Ramos. Você concorda com isso e qual seria, a seu ver, o lugar do conto e do lirismo na sociedade de consumo contemporânea?

Marcelo Moutinho: Gosto dessa definição. O naturalismo lírico de um Graciliano, cuja poética emerge em solo árido, como uma flor de cacto. E, ao mesmo tempo, um naturalismo político, mas não panfletário. Essa fricção está presente também nas duas epígrafes de “Gentinha”, ambas tiradas de livros do João Antônio. Na primeira — e dela sai o título —, a menção ao “povo-povo”, de forma crua e quase ríspida. Na segunda, a aparição de um ponto azul-avermelhado no horizonte do cais do porto; um ponto sanguíneo, que quer “gritar de cor”. Acredito que os 16 contos trafegam mesmo nessa zona fronteiriça. Quanto ao lugar do conto, deveria ser no mesmo degrau do romance ou da poesia. Mas, lamentavelmente, o mercado literário — e os prêmios são um sintoma disso — continua tratando-o como um gênero menor. O contista é, muitas vezes, visto como um jogador da categoria juvenil, para fazer uma analogia com o futebol.

Marcelo Ariel: GENTINHA é coralista, polifônico, poderíamos falar até em uma c-oralidade permeando GENTINHA, livro atravessado pelo desafio de materializar um lá fora que foi perdido durante a pandemia e hoje parece estar ofuscado pela vertigem das redes digitais e outras dobras do neoliberalismo cultural, fale um pouco sobre a proposta a meu ver bem-sucedida de elaboração de um livro-coral e o quanto isso destoa ou não do cenário artístico de hoje?

Marcelo Moutinho: Em todos os meus livros de contos, tive a preocupação de buscar certa organicidade. Ou seja, buscar um fio que una todas aquelas histórias, de modo que a coletânea não seja apenas uma recolha de narrativas curtas soltas. Em “Gentinha”, essa costura se dá a partir dos personagens. Daí a perspectiva de um livro-coral, em que as vozes se somam. Quanto a esse processo de perda da rua, como espaço de embate e de cruzos, já vinha acontecendo e, pós-pandemia, o processo se agravou. De minha parte, tenho uma relação absolutamente visceral com a rua. É na rua que nascem meus contos e minhas crônicas, a partir da circulação pela cidade e do ouvido atento. Sim, porque as cidades falam, seja por meio de um muro pichado, do bordão de um camelô ou de um feirante, de conversas flagradas dentro do metrô e na mesa vizinha em um bar. Tudo isso é matéria-prima para o escritor, pedra bruta na qual ele, com a técnica e a experiência, vai esculpir seu texto. Na recente posse do Milton Hatoum na ABL, ele disse algo que fiz questão de anotar porque define a forma como eu trabalho: “Primeiro eu escuto, depois eu invento”. 

Marcelo Ariel: Cite cinco livros que marcaram profundamente o seu modo de ser e existir como escritor e comente por que e como estes livros foram determinantes?

Marcelo Moutinho: Começo com “Memórias do subsolo”, livro que li no começo da vida adulta e no qual Dostoiévski nos traz um anti-herói em processo de dilaceramento, mergulhado num abismo que fazia todo o sentido para aquele rapaz de 18 ou 19 anos. Outra obra muito importante para mim foi “Felicidade clandestina”, da Clarice Lispector. Uma aula sobre o conto, com fechos de ouro magistrais, como o da história que dá título à coletânea. Eu também era muito fascinado pelo Kafka, que conheci via “A metamorfose”, essa insólita maravilha, e depois por meio dos contos de “A colônia penal”. “Memórias póstumas de Brás Cubas” entra na lista pela surpresa que causou num leitor ainda restrito aos romances mais clássicos. Imagine o espanto de me deparar com uma história toda fragmentada e ainda contada por um narrador-defunto. Fecho com “O amor acaba”, de Paulo Mendes Campos, pelo olhar poético de suas crônicas, quase sempre voltadas a temas que me afetam: o cotidiano da rua, a vida nos bares, a linda e triste efemeridade das nossas paixões.

Marcelo Ariel: Depois de uma leitura e releitura atentas de GENTINHA, tive a impressão de estar ouvindo um samba em prosa, um samba em forma de conto social, sem querer definir o que seus contos são, eles se assemelham a sambas de Noel Rosa e João Nogueira. O livro, aliás, é dividido em duas seções cujos títulos derivaram de canções, qual a importância da música, do samba, em especial, em seu trabalho?

Marcelo Moutinho: Alguns anos atrás, o jornal O Globo entrevistou vários escritores sobre suas influências. Todos citaram poetas ou ficcionistas. Na minha lista, ao lado de Clarice, Kafka, João do Rio, Carlos Heitor Cony e tantos outros, estavam Dona Ivone Lara, João Nogueira, Roberto Ribeiro. Porque, de fato, tudo o que escrevi e escrevo está permeado pelas canções que ouço desde pequeno. No aparelho de som, no carro, nas rodas de samba em que bato ponto semanalmente — onde posso cantar, e ouvir, um Brasil que muitas vezes não está nos livros. Um Brasil sem pulseirinha VIP ou verniz intelectual. A música é parte fundamental da minha vida e ajudou a formar o meu olhar para o mundo. Então, acho natural que seja uma presença marcante também nos meus livros, sejam os de crônica ou os de contos. Muitos deles, inclusive, têm playlists no Spotify. No caso do “Gentinha”, além de as duas unidades serem intituladas com versos de canções, a música aparece em diversos contos. Herosino, o protagonista de “Sentimental eu sou”, é apaixonado pelos discos do Altemar Dutra. “Fogueira” se inspira em “Genipapo absoluto”, do Caetano Veloso. Os adolescentes de “Dança da vassoura” bailam ao som dos Menudos. E, levando essa relação ao paroxismo, Jorge Ben Jor é um dos personagens do conto “Eu sou seu lírio, você é minha rosa”. 

Marcelo Ariel: O que você diria para uma jovem ou um jovem que está começando a escrever nos subúrbios do Rio ou em um bairro periférico de São Paulo, sei que é um clichê dar conselhos, mas se você pudesse mandar a real sobre a atividade de escritor e escritora no Brasil, o que você diria?

Marcelo Moutinho: Que o retorno financeiro é pífio, que o meio literário é centrado em modismos, temporários e arbitrários como quase todos os modismos, que o escritor muitas vezes é visto como alguém que deve um favor pelo simples fato de ter sido publicado. E, finalmente, que nada disso importa muito se você é fiel àquela fagulha que te levou, um dia, a querer escrever. Enquanto ela estiver acesa, mete bronca. 

Gentinha, de Marcelo Moutinho/ Editora Record, 2026/ 130 pp.

Elgas, a crítica da desrazão cínica & a autopreservação das bolhas sem autocrítica

O sociólogo e escritor senegalês Elgas, autor de Os bons ressentimentos: Ensaio sobre o mal-estar pós-colonial/ Foto: Eric Dervaux/ Hans Luca/ Reuters.

Estamos no tempo da desrazão cínica. As redes digitais transformam o autocentramento em narcisismo, produzem isolamento, o espaço literário foi transformado pelas redes digitais  em uma enorme bolha acrítica com a violenta inserção de um  adensamento  narcísico da unidade da experiência que produz  ridículas simulações de alteridade e uma conivente pseudo-crítica. O paradigma do discurso neoliberal propagado pela redes digitais é o artista-empresa ou o artista-marca e sua principal dimensão de valor é a dos prêmios e grandes vendas.

Os bons ressentidos: Ensaio sobre o mal-estar pós colonial, de Elgas/ sobinfluência edições, 2025/ Tradução de Diogo Cardoso/ 264 pp.

As redes digitais expandiram e cristalizaram  a noção de best seller para todas as áreas da prática literária, um dos efeitos disso é o processo reversível de diluição de todos os gêneros literários. E daí? Dirão os cínicos que cortejam a inserção total no instituído, daí que nesse cenário de ilusão de inclusão cresceu a erva daninha de uma estranha e já naturalizada criticofobia: raríssimos seres possuem a coragem  de exercer um desimpedido senso crítico, a maioria vive com medo do cancelamento, um dos tentáculos do novo fascismo amplamente propagado pela redes digitais. Num cenário de tão grande entreguismo e falta de coragem intelectual, um livro como OS BONS RESSENTIMENTOS de Elgas  ( Editora Sob influência com tradução do Diogo Cardoso) chega em um momento preciso e oportuno, Elgas levanta questões que são referentes ao interior da chamada epistemologia negra, cunha o termo negrofobia mais perspicaz do que o cada vez mais abrangente racismo, usa a ironia como os antigos gregos para colocar em xeque posições cristalizadas de uma certa representação que não aceita sua imensa falta de crítica e autocrítica, evoca a dimensão universalizante  das culturas da negrura em detrimento de uma ontologia radical fechada e auto-acusativa. Elgas afirma não sem uma importante ironia  a inteligência de um  afrotimismo que pode ser uma grande força de convergência das africanidades nômades, afinal existe para além de todo o passado patologicamente sistêmico, uma África feita de todos os corpos  que compõe todas as matizes vivas do negrume.

“Qualquer um que seja pego pelo tribunal da ‘ identidade autêntica’— instituição tirânica com instruções sempre acusatórias — vê seu trabalho manchado para sempre pela marca inapagável da traição e sua eventual glória extinta como a luz de uma tocha na tempestade, seu legado atingido por uma maldição. Resumindo: se vê desacreditado, excluído ou deportado para a margem daquilo que é digno de consideração por um desprezo equivalente à censura.” – Elgas, em “Os bons ressentidos: Ensaio sobre o mal estar pós-colonial”.

A situação e suas bordas

“Seres de Neblina, pela Neblina separados”
Vicente Franz Cecim

Eventos demais significam que nada realmente está acontecendo. O fascismo cresce como mato no terreno baldio da mente domada das pessoas ansiosas por inserção e estabilidade, confundidos com vida plena. As desigualdades predominam também no “mundo da cultura” que deveria ser a força capaz de dissolvê-las. As artes se autodevorando dando ridículas voltas em torno de si mesmas presas no ‘ auto’ e no ‘ re’ de ritmos imprecisos, formais, repetitivos de louvor do inofensivo e das cínicas ou farsescas simulações de revolta. Vamos aplaudir Shakespeare em ruínas, Safo sem os braços e as pernas no onlyfans, o “suicídio” de Adilia Lopes e Gal Costa, vamos aplaudir as leis de incentivo à dependência humilhante de curadores parvos usando IAs para avaliar o insondável, vamos aplaudir o apogeu do cumpadrismo e o silêncio covarde da crítica, vamos aplaudir o sentimento de grupo no lugar do sentimento do mundo, a desertificação das bibliotecas públicas e o bloco dos mesmos compondo todas as mesas literárias de todos os eventos e todas as bancadas do fascismo de consumo e pilhagem, vamos aplaudir o empreendedorismo cultural , as auto escravizações dos artistas e o público sendo substituído por consumidores de sensações vagas e catarses rasas, quase religiosas de tão rasas. Vamos aplaudir a diluição da literatura reduzida a evento turístico cultural para promover a marca de empresas assassinas.  Vamos aplaudir o desmonte do monte e o roubo do ouro de todos os entusiasmos. Agora vamos parar de aplaudir por que como diz a canção dos Titãs : O CONSTRUTOR NÃO PODE  MAIS CONSTRUIR PORQUE O DESTRUIDOR NÃO DESTRÓI? 

E aí, meu irmão?

Afinal existe um não lugar ambíguo, uma espécie de entre o dentro e o fora que algumas pessoas maravilhosas dentro da dimensão da arte ocupam no Brasil e no mundo. Me lembro da aceitação do vazio defendida por Simone Weil, das pessoas que abandonaram no meio os shows finais de John Coltrane, de Vielimir Khlebnikov escrevendo sobre uma divindade egípcia na Rússia, de João da Cruz e Sousa pensando em escrever um poema no meio do trabalho pesado em Belo Horizonte, de Leonora Carrington fugindo do hospício, de Adília Lopes  ouvindo  Schumann às 2 de madrugada na Rádio Antena 2, do cinema praticamente vazio na sessão de LIMITE de Mário Peixoto, de Maura Lopes Cançado quase cega segurando um exemplar sujo de HOSPÍCIO É DEUS e reclamando das ratazanas na cela, Maura Lopes Cançado livre de toda e qualquer homenagem cínica, me lembro de Orides Fontela emocionada me perguntando se eu tinha algum problema mental quando disse que tinha vindo de Cubatão para mostrar um poema que havia escrito para ela, me lembro de mim mesmo escrevendo os primeiros poemas ruins com a tinta vermelha da máquina elétrica do consultório onde minha mãe fazia faxina e depois reescrevendo os mesmos poemas durante anos até criar coragem para levar o envelope com alguns para o Ademir Demarchi, editor da Revista Babel, me lembro de mim mesmo vinte anos no futuro quando o espaço entre o lugar e o não lugar for totalmente dissolvido pelo poema que não escreverei. No futuro pretendo escrever antipoemas (Ver Nicanor Parra). O futuro pertence ao anti e ao des. 

O inferno de Pasolini passou por aqui

Pier Paolo Pasolini/ Foto: Reprodução.

A Editora Jabuticaba lançou por aqui A DIVINA MIMÉSIS de Pier Paolo Pasolini (Tradução e posfácio de Cláudia Tavares Alves), uma  paródia, com elementos de ensaio e diário que usa a Divina Comédia  como pretexto e base para como em praticamente toda a sua obra poética fílmica ou escrita pensar o totalitarismo-capitalismo de mercado como um tipo de inferno. Leitura imprescindível  para o momento em que vivemos uma atualização do fascismo. No livro Pasolini fala do Inferno de Hitler, que de certa forma vem sendo imposto com brutalismo inédito pelo  Estado sionista de “Israel” para todo o mundo, usando a faixa de Gaza, Líbano e arredores como laboratório. Eis a mimésis mencionada por Pasolini acontecendo diante de nossos olhos atônitos que presenciam o terror de Estado pelas telas dos celulares. Pasolini em uma de suas últimas entrevistas ao diplomata brasileiro João Lins de Albuquerque: “Os fascistas de hoje são muito piores . Os crimes são mais cruéis. Eles atuam sem compaixão, sem humanismo, sem regras (……..) O desafio maior, como sempre, é o código. O desafio do código é igual, tanto para o cineasta como para o escritor. A coisa mais difícil  neste mundo é a luta contra o código, contra os hábitos, contra as convenções – linguísticas, estilísticas… Penso que tanto a vida quanto a obra de arte devem ser orientados pela infração ao código.” Podemos afirmar que  A DIVINA MIMÉSIS é uma tentativa bem sucedida de atualizar a infração ao código dentro da obra dantesca. O que realmente interessa dentro do exercício de uma arte não consumista é a infração ao código, é sua estranheza e dissonância em relação ao instituído. Não confunda a leitura de um clássico com a sua possível e estabelecida tensão com o código de sua época, isso vale tanto para a poesia de Pasolini, quanto para a Divina Comédia ou  para o Moby Dick de Mellville. No Brasil predominam as adesões ao código.

A Divina Mimesis, de Pier Paolo Pasolini/ Edições Jabuticaba, 2026/ Tradução de Cláudia Tavares Alves/ 108pp.

“O Inferno que pus na cabeça descrever já foi descrito simplesmente por Hitler. Foi através de sua política que a Irrealidade se mostrou de verdade em toda a sua luz. Foi dela que os burgueses extraíram o verdadeiro escândalo ou,me envergonha dizer, viveram a contradição de suas vidas.” – Pier Paolo Pasolini em “A Divina Mímesis”

As Duas Hildas

H. D. – Hilda Doolittle / Foto: Reprodução.
Visões e êxtases, de H. D/ Editora Âyiné, 2025/ Tradução de Camila de Moura/ 80 pp.
Eurídice e outros poemas, de H. D/ Círculo de Poemas (Fósforo)/ Tradução de Camila de Moura/ 144pp.

Foram lançados no Brasil em um razoavelmente curto espaço de tempo dois livros de  H.D.  Uma coletânea de ensaios VISÕES E ÊXTASES pela Editora Ayné e EURÍDICE E OUTROS POEMAS pelo Círculo de Poemas, ambos luminosamente traduzidos por Camila de Moura. A tradução é uma arte que exige a fidelidade da traição. A instituição Houaiss, por exemplo, realizou uma tradução do Ulysses que na verdade é uma tentativa fracassada de traduzir o Finnegans Wake, utilizando procedimentos tradutórios que se adequariam melhor à tradução do Finnegans do que do livro que foi traduzido. Camila vai na contramão das instituições e traduz Hilda Doolitle como se auricamente traduzisse Safo de Lesbos, e temos aí um pequeno triunfo da fidelidade. “Cristo era o cacho de uvas que pendia sobre os muros ensolarados daquele jardim nas montanhas, Nazaré era o jacinto branco de Esparta e o narciso das ilhas. Era a concha do caramujo e o peixe roxo deixado pela maré do lago. Era o corpo da natureza, a vinha, Dioniso, como era também a alma da natureza.” ( Pág.47 de VISÕES E ÊXTASES ) Fidelidade à transgressividade de H.D que, por sua vez, era também fiel ao transe da poiesis, algo a cem anos luz da poesia autoficcionalizada dos dias de hoje, se não há uma autopoiesis como pode haver o transe? EURÍDICE E OUTROS POEMAS  e  VISÕES E ÊXTASES são raios do mesmo Sol egípcio-grego, H.D realiza com maestria o trajeto pela trilha no bosque aberta por Holderlin e vai um pouco mais além, abre uma clareira onde antes havia apenas uma grande cratera repleta de estátuas de deuses e deusas, somos nós os intermediários de seus diálogos com aquilo que os mitos contém em sonho e temos δύναμις  se movendo  através do verso, não aquele Poder que  protagoniza a tragédia de Ésquilo mas outro sutil e  inefável que atua poeticamente como uma Anti-força.

Até a próxima!