
Até passar não vai passar
Em inglês, a ideia de transtorno, no sentido clínico de um distúrbio, tem o nome de disorder. E a palavra parece mais acertada. Apontar no outro uma desordem implica todo o entorno e leva a gente a pensar que talvez o louco seja quem permaneceu na ordem e não quem se desordenou.
Arte de Helena Almeida (Reprodução).
Desculpe o transtorno. Essa frase tenta aliviar um clima inevitavelmente pesado em algum serviço aberto ao público. Está tudo uma merda, mas estamos tentando resolver. Um gerúndio burocratizado por cones, placas de atenção-piso-molhado, fitas de isolamento, portas trancadas. Assinando, a gerência.
Quando a gente mesmo sai do eixo e recebe um laudo, é possível dizer: tenho um transtorno. E há, aí, um pedido de compreensão implícito enquanto também permanecemos abertos, funcionando, mas naquelas.
Quando não se tem um documento, um carimbo e uma receita médica, falam da gente: está transtornado. Tornou. Extrapolou os limites. Derramou tudo no chão, escorregou no que foi derramado, bateu com a cabeça.
Em inglês, a ideia de transtorno, no sentido clínico de um distúrbio, tem o nome de disorder. E a palavra parece mais acertada. Apontar no outro uma desordem implica todo o entorno e leva a gente a pensar que talvez o louco seja quem permaneceu na ordem e não quem se desordenou.
Desordem é uma palavra com antônimos: ordem, acordo, arranjo, disciplina. No transtorno, quem fica ao contrário somos nós mesmos.
Um episódio de crise de desordem (ou transtorno) é quase insuportável e carrega dentro de si um mini apocalipse, mas tem fim. Só que até passar, não vai passar.
Nos últimos tempos, quando saí correndo para não surtar, me dei conta de que os minutos iniciais são bem difíceis. Entre 7 e 10 minutos da primeira etapa o corpo insiste em repousar. Depois disso, vira uma chave, o peito esquenta e as têmporas se tornam corredeiras de suor e o ritmo vai que vai.
Os pensamentos mudam. A ruminação diminui, entra a contagem do tempo e dos metros. Correr é como viver uma crise de desordem. Começa, se intensifica e dali um tempo acaba. Porque sempre, sempre, sempre acaba. Toda vez que começo a correr penso que até passar não vai passar. Essa frase me veio, inclusive, numa corrida. Na desordem, essa é a ordem: até passar não vai passar.

