
O tempo está doente e quase morreu
Dizem os entendidos de redes sociais que vídeos longos não engajam. Leitura não engaja. A mensagem tem que ser quase cifrada, beirando uma contradição: é preciso ser facilmente compreendido ao mesmo tempo em que não se pode explicar quase nada, porque não há tempo. Porque ninguém tem tempo. Não sobra tempo, nunca.
Foto de Dafydd Jones. Da série “Screen Time”.
Sair da rotina é como uma experiência de quase morte. Dia desses, eu sobrevoei o punhado de horas que rege meu dia. Vi, ali, meu corpo, quase inerte, sendo levado pela escada rolante do metrô. Eu ouvia, em velocidade 2, um áudio de WhatsApp que precisava ser ouvido ali, naquele exato instante em que meu corpo, junto de outras centenas de corpos, era levado pela escada. Só ser carregado de um lado ao outro por uma máquina complexa e potencialmente assassina não é suficiente na escassez das horas.
O tempo adoecido desse grande e descartável agora demanda logística. Eu vou ao mercado, àquele exato mercado, não pelo preço, mas por uma suposta comodidade: é perto da estação de metrô e dali eu já aproveito para checar na livraria se chegou o livro que eu queria comprar e ler a tempo de participar de um clube de leitura. Infelizmente, não chegou.
Mas tudo bem. Eu não preciso participar do clube de leitura ao vivo, porque nem todo mundo tem tempo de estar ao mesmo tempo diante da tela conversando a respeito do que leu. Eu posso ver, depois, a gravação da chamada de Zoom do clube como quem assiste a um filme do qual eu poderia ser um dos protagonistas, mas acabou se tornando um figurante offline.
No mercado, compro bananas, e não porque as amo. É que são mais práticas. Eu prefiro as peras, na verdade, só que, na rotina matinal, o tempo que levo para lavar as peras, somado ao tempo que levo para lavar meu corpo e ainda meus dentes, ultrapassa o tempo total que tenho para lavar também os pratos dormidos na pia, já que ontem não tive tempo. De vez em quando, eu preciso dormir por um pouco mais de tempo, porque, na noite anterior, aquele drink além da conta me fez perder a noção de que o tempo existe e que ele corre mais depressa quando perco o relógio de vista.
Coloco o macarrão na água e, na sequência, marco no despertador do celular 8 minutos, que é o tempo que a Barilla informa na embalagem para que a massa fique al dente. Detesto macarrão molenga. O som do celular me desperta o ponto do macarrão, fazendo o mesmo som das manhãs, quando me acorda. Como macarrão com molho de tomate e gosto de manhã.
Enrolo na cama enquanto desperto. Vou imediatamente para o celular. Assisto a vídeos acelerados. Descobri que, se eu segurar o dedão firme na tela, a velocidade aumenta e eu posso avançar no tempo. Todos os vídeos direcionados a mim têm poucos segundos.
Dizem os entendidos de redes sociais que vídeos longos não engajam. Leitura não engaja. Se não tiver o rosto aparecendo, não engaja. A mensagem tem que ser quase cifrada, beirando uma contradição: é preciso ser facilmente compreendido ao mesmo tempo em que não se pode explicar quase nada, porque não há tempo. Porque ninguém tem tempo. Não sobra tempo, nunca.
De lá de cima, na minha experiência de quase morte, vejo o relógio no meu pulso (um Casio, uma graça, bem anos 90, todo mundo pergunta) e tenho dúvidas se quero retornar ao meu corpo e à contagem daquelas horas. Tique, taque. O pulso ainda pulsa. Tique, taque. Parece que reanimaram o tempo. Não foi dessa vez que ele, o tempo, passou.

