
Para além de tudo mais: será que há alguém me olhando?
Agora, mirando lá na frente os 40 anos, tenho observado um tipo novo de solidão, diferente daquela que me faz comer, dormir e caminhar pela cidade desacompanhado. É o gosto da solidão de quem precisa bancar as próprias decisões, desacorrentado de olhares.
Arte: Nighthawks, de Edward Hopper (reprodução).
Fico pensando se alguém testemunha minha existência para além do que posto nas redes sociais, para além da minha postura errada segurando o ferro do metrô lotado de manhã cedo e para além da minha persona no trabalho, sentado à minha mesa muito pequena, com duas telas, acompanhado por uma caricatura minha, feita por um amigo que foi embora da cidade, duas canecas transformadas em porta-canetas e uma vela em formato de Buda que ganhei de uma assessoria de imprensa e que jamais acenderei.
Notei que passei as últimas três décadas da minha vida preso ao olhar de outras pessoas: pais, ex-namorado, professores, mentores profissionais. Agora, mirando lá na frente os 40 anos, tenho observado um tipo novo de solidão, diferente daquela que me faz comer, dormir e caminhar pela cidade desacompanhado. É o gosto da solidão de quem precisa bancar as próprias decisões, desacorrentado de olhares. Decido o que faço da minha vida porque as consequências do que faço dizem respeito apenas a mim.
Sei que há pessoas que me amam e me querem bem. E sei também que a esta altura elas entenderam que já sei andar sozinho. As dores são pessoais e intransferíveis, afinal. Esse é, talvez, o maior entendimento a que cheguei até aqui. Por um lado, é bom, porque ajuda a gente, na hora certa, a dar um belo foda-se a tudo e cuidar de lamber as próprias feridas. Por outro, é péssimo, porque soa como uma notícia devastadora: as feridas nunca fecham.
Onde cresci, brincava-se com o fato de chegar aos 18 anos, “cuidado, você já pode ser preso!”, como se cometer um crime fosse algo iminente na vida de quem passa dos 17 no Grajaú.
Hoje, penso que posso mesmo ser preso. Eu responderei perante a lei. Em caso de dívida, é o meu nome que vai para o SPC (e ele já esteve lá). Num diagnóstico de câncer, é o meu organismo que será trucidado pela quimioterapia, na tentativa de trucidar o câncer. E tudo isso é menos pior do que parece quando paro pra pensar se tem alguém me olhando ou não, porque talvez isso não importe.
Numa ponta dessa nuvem se refugia a tristeza da solidão; na outra, mora o maravilhamento da liberdade. O desafio é lidar com essa ideia de pêndulo, absolutamente angustiante. E tudo isso sem ser preso, sem me endividar e sem adoecer.
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