
Não há barreira que detenha esses estranhos
“Gentinha” (Record, 2026), novo livro de contos de Marcelo Moutinho, reivindica o direito ao ordinário e celebra a gente comum que constrói este país.
Fotos: Divulgação.
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné
Chico Buarque, em As Caravanas
“Gentinha, gentalha, populacho. A ralé”, escreve Micheliny Verunschk na orelha do livro “Gentinha”, de Marcelo Moutinho (Record, 2026). Na Bahia, chamaríamos de povão. Em todos os casos, estamos falando desse enorme, mas múltiplo, contingente de trabalhadores, as pessoas que fazem este país funcionar. Mães, pais, babás, professores, atendentes de lanchonete, vendedores autônomos. Gente que trabalha na escala seis por um, que reserva pelo menos um dia da semana para abrir uma cerveja e rir falando da vida, mesmo quando ela é bem difícil.
É essa gente que Marcelo Moutinho se propõe a representar nos contos de “Gentinha”. O autor, um dos grandes nomes da prosa contemporânea, vencedor dos Prêmios Jabuti e Biblioteca Nacional, volta aos contos após um tempo que se dedicou às crônicas (outra excelente face de Moutinho) e nos mostra aqui justamente o porquê de sua literatura conquistar tantos leitores.
Devemos dar os devidos méritos a Marcelo Moutinho por sua capacidade de transitar entre gêneros e pela versatilidade de temas e propostas narrativas. Em “Gentinha”, o leitor pode rir ou chorar a depender do conto. Enquanto algumas das breves histórias se dedicam a peripécias de gente sapiente, outras apostam no drama da vida familiar, no corriqueiro fluir dos afetos. Porém, algo une todas essas histórias: o ordinário, o pequeno.
Já ao propor um livro de título “Gentinha”, o autor desloca o holofote da literatura para aquilo que geralmente passa despercebido. São histórias nada surpreendentes, o que não significa nada emocionantes ou nada interessantes. A questão é que não encontramos aqui (como temos encontrado em tantos outros exemplares da literatura brasileira contemporânea) feitos extraordinários.
De fato, a literatura brasileira contemporânea se dedica, com muita beleza, a narrar histórias de pessoas que por muito tempo estiveram excluídas da nossa historiografia literária. Entretanto, quase sempre isso acontece por meio de uma glorificação da narrativa: são sempre pessoas fortes ou pessoas com trajetórias marcadas ou pela superação forjada em muita luta ou pela desgraça absoluta. Em todo caso, a noção de acontecimento (algo que rompe o cotidiano, algo que se anuncia enquanto extraordinário) guia essa literatura.

A defesa do infraordinário em “Gentinha”, de Marcelo Moutinho
Mas e todo o resto? Todos nós? Ora, nossa vida não se resume a acontecimentos. Nossa vida é, sobretudo, uma sequência de dias que serão esquecidos inclusive por nós mesmos. Esses dias, em especial, quando pequenas movimentações acontecem, são a matéria-prima dos contos de “Gentinha”. Dias que viram anedotas e não fatos de destaque em nossas biografias. Na sua defesa do infraordinário, o poeta francês Georges Perec nos questiona: o que da nossa vida não sairia no jornal? O que é tão comum a ponto de ser esquecido?
Interrogar o habitual. Mas justamente, estamos acostumados a ele. Nós não o interrogamos, ele não nos interroga, ele parece não causar problemas, nós o vivemos sem pensar nisso, como se ele não veiculasse nem perguntas nem respostas, como se não fosse portador de qualquer informação. Não é nem mais condicionamento, mas anestesia. Dormimos nossa vida em um sono sem sonhos. Mas onde está nossa vida? Onde está nosso corpo? Onde está nosso espaço? — Georges Perec no ensaio Aproximações do quê? (tradução de Rodrigo Silva Ielpo).
Ao escrever sobre a relação de uma mãe e uma filha, Moutinho prefere dar espaço àquilo que é da intimidade das duas, a um detalhe que, para outros, passaria despercebido, mas que são, na verdade, o que há de maior valor sentimental. No conto “Jurupoca dos bichos”, uma brincadeira de infância entre mãe e filha retorna como um tesouro quando a filha, agora adulta, precisa cuidar da mãe que sofre de uma doença degenerativa.
Tirei a manta, fiz um carinho nos seus cabelos grisalhos e desci a mão até as costas. Primeiro corri os dedos levemente, sentindo o sulco dos ossos sob a pele finíssima e o tecido de algodão, e com o polegar e o indicador fui aumentando a intensidade, dando breves saltos de costela em costela, o cóccix, a cintura, a cervical. O corpo ainda não havia esboçado qualquer movimento, permanecia imerso na letargia, quando ouvi a voz miúda. Não, Jurupoca, você não é uma rã. — Trecho do conto “Jurupoca dos bichos”, presente no livro “Gentinha”, de Marcelo Moutinho.
“Moutinho nos presenteia com um livro que nos traz um sentimento de familiaridade”
O livro abre com “Queda para o alto”, que está na primeira parte (de duas) do livro, “Dentro é mundo”: uma família parece carregar uma marca, uma maldição ou azar: os atropelamentos que já causaram mortes. Neste conto em especial, destaco a fragmentação da narrativa, colocando o leitor em diferentes momentos da história dessa família num trabalho de linguagem admirável. Talvez seja o melhor conto do livro em termos de elaboração e é interessante que ele tenha sido escolhido para abrir o livro, até porque os demais vão destoar dele. Se nesse primeiro momento, o livro inicia com um arco dramático, carregado por um certo mistério, os demais contos vão ser ou voltados a histórias humoradas ou a histórias sentimentais. Gostaria, inclusive, que o autor retornasse a essa densidade narrativa em outros contos, mas isso só parece acontecer no conto “Mictório”.
Destaco também o segundo conto “Amarelinha”, responsável por introduzir os saberes afro-brasileiros. É uma história de erê (espíritos de crianças no candomblé e umbanda). Moutinho utiliza dessa força ancestral para convocar a infância em personagens adultos e isso é especial porque o humor, a brincadeira, a peripécia e, em especial, o jogo são elementos indispensáveis para compreender o que a literatura de fato é. Esse é um conto que transborda de uma meninice safada, da traquinagem saborosa que a figura do erê propõe e tem um final divino.
Em alguns contos, o autor traz de volta o personagem-arquétipo do malandro, algo tão presente nas literaturas fluminense e baiana. Tenho questões com esse arquétipo. Trata-se dos homens que querem sempre tirar vantagem das coisas, marcado pelo jogo de cintura, pelo modo como desafiam, na malandragem, as barreiras impostas. Entendo esse personagem, mas me pergunto o que esse arquétipo ainda tem a nos oferecer hoje — e com isso não estou mencionando o fato de que são personagens geralmente machistas ou que se trata de uma representação um tanto estereotipada e homogeneizada de homens negros. No caso, me pergunto o que esse personagem tem a nos oferecer enquanto uma novidade na literatura brasileira, sobretudo porque são escritos de uma maneira tão superficial, excluindo camadas de subjetividade, colocando o grotesco como uma identidade única, sem espaço para dar complexidade a esses homens negros e pobres.
A repetição desse arquétipo me parece desgastada e pouco produtiva. No livro de Moutinho, me soou justamente como um desgaste. Acho que por isso o conto “Sentimental eu sou”, conto que narra a ida de dois personagens a uma feira de nordestinos para dançar forró e pegar mulheres, me foi um pouco entediante (e o final já se anunciava a algumas páginas).
“Jurupoca dos bichos”, conto que eu já citei e que está na segunda parte do livro, “A verdade não rima”, foi o conto que mais me tocou. De maneira sensível, o autor nos localiza no seio de uma família que tenta manter a normalidade diante do quadro de doença degenerativa da mãe. Narrado por uma das filhas, o conto traz a cena do aniversário da mãe que, já em estado de esquecimento, sequer sabe o que acontece ali. Por que fazer essa festa, então? Essa demonstração de um afeto que sequer será percebido me tocou e me fez pensar nas negociações que fazemos com as nossas memórias e com os nossos medos. Um conto primoroso, coisa de grandes escritores.
Nesse intercalar entre o sorriso e o choro, Moutinho nos presenteia com um livro que nos traz um sentimento de familiaridade. São “causos” que poderiam facilmente ser contados no intervalo para o café na copa do escritório, na conversa de fim de festa de família e que nos lembram tantos outros episódios dessa nossa vida (quase) sempre nada ordinária.


